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Já discuti anteriormente a questão referente ao incômodo causado pela presença de médicos cubanos no Brasil, foi logo depois do lançamento do programa federal Mais Médicos. Percebi que o debate é profuso no momento em que esses profissionais chegam em nosso país. Só para ter uma ideia, fiz uma busca simples através do Google, digitei “médicos cubanos” e o resultado foi o seguinte:

Resultados da pesquisa por "médicos cubanos"

Resultados da pesquisa: mais de 2 milhões de referências

Sinceramente não sei o que é pior: duvidar da competência desses profissionais ou esquecer que em muitos pampas, sertões, cerrados, planaltos e matas do Brasil, onde o playboy e a patricinha recém-formados jamais colocarão os pés, também existem cidadãos com direito à saúde pública?

Compartilho o conteúdo de duas cartas ao leitor, um gênero discursivo de inegável orientação argumentativa, as quais foram publicadas no jornal O Metro na edição de Curitiba e motivaram a escrita deste breve artigo em que manifesto meu repúdio às manifestações alienadas e elitistas contra a a atuação dos médicos cubanos no Brasil.

Recorte do jornal

Política para quem precisa de política e médicos para quem nunca teve

Como linguista, atraiu-me bastante na primeira carta a referência ao dizer de Simão quanto a “médicos humanos”, escolha linguística que expressa a posição de alguém engajado no apoio ao atendimento de interesses sociais, de alguém que não se fixa no fundo do próprio umbigo. Já na segunda carta, considero ótima a sugestão do leitor, que acima de tudo demonstra entender o que é equidade. Só discordo de uma coisa, a prova de conhecimento de língua deveria ser aplicada para os brasileiros e deveria ser um texto dissertativo sobre o comprometimento de cada um com a saúde.

Com o lançamento do Programa Mais Médicos em 08/07/2013, em tese uma medida emergencial do governo federal para estancar o problema da escassez de recursos humanos no setor da saúde (ou melhor dizendo, a falta de médicos no interior do Brasil), meios de comunicação massivos e mídias paralelas tem apresentado as mais diversas versões opinativas a respeito da questão para lá de polêmica, que já vinha em discussão há algum tempo. Se não estou enganada, desde que sou criança ouço falar em falta de médicos no serviço público de saúde e acesso restrito à formação desses profissionais em instituições públicas pelas poucas vagas e em instituições particulares pelo custo elevado. Só para dar uma ideia da longevidade da discussão, estou beirando os 40 anos.

Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr - Revista Fórum

Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr – Revista Fórum

Para ser condizente com os propósitos do blog, direciono minha discussão para certos elementos de textos jornalísticos, bem como de outras fontes selecionadas para oferecer uma leitura didática acerca do assunto. Inicialmente traço considerações a partir dos títulos e subtítulos dos textos para tratar da expectativa de leitura propiciada por estes recursos e em seguida destaco partes textuais em que se colocam a temática principal ou os pontos de vista dos autores.

O primeiro texto que li detidamente sobre as reações do setor da saúde quanto ao Programa Mais Médicos vem de uma mídia paralela, a republicação do blog Hum Historiador de post do também blogueiro Saul Leblon - Raízes do Brasil: no levante dos bisturis, ressoa o engenho colonial, cuja fonte original está representada na imagem abaixo que capturei no site Carta Maior.

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Carta Maior – O portal da esquerda

Ao ler o título do texto, não tive dúvida de que seu conteúdo teria um cunho contrário em relação à resistência da classe médica à proposta do governo federal. Considerando a esfera de onde parte essa opinião, uma mídia autodenominada por meio de vocábulo (esquerda) que sugere oposição, não surpreende o predomínio da crítica contra o elitismo daquela classe profissional em detrimento de interesses de classes minoritárias sem condições de custear um plano de saúde particular e mesmo sem acesso a um único médico em suas cidadezinhas. Leblon não poupa palavras para abordar a resistência do setor “Contra a adesão de profissionais ao programa ‘Mais Médicos’, que busca mitigar o atendimento onde ele inexiste”. Além disto, o ponto chave de todo sentido do texto está na referência ao que o historiador Sergio Buarque de Holanda escreveu em sua obra Raízes do Brasil de 1936, perfeitamente aplicável no cenário atual:

Sergio Buarque de Holanda anteviu, em 1936, as raízes de um Brasil insulado em elites indiferentes ao destino coletivo. O engenho era um Estado paralelo ao mundo colonial. O fastígio macabro fundou a indiferença da casa-grande aos estalos, gritos e lamentos oriundos da senzala ao lado, metros à vezes, da sala de jantar.  Por que os tataranetos se abalariam com a senzala das periferias conflagradas e a dos rincões inaudíveis?

Vejamos como outros textos jornalísticos pontuam aspectos de tal reação resistente.

A revista Carta Capital através do artigo intitulado Os médicos brasileiros têm medo de quê?  apresenta a posição de Ricardo Palacios, médico da Colômbia já estabelecido no Brasil.

Publicação na seção Sociedade da Revista Carta Capital

Publicação na seção Sociedade da Revista Carta Capital

O  questionamento evocado pelo título do texto recebe resposta contundente do autor que trata dos supostos temores do “grêmio médico no Brasil” em relação aos concorrentes  estrangeiros. Segundo Palacios, é infundado o argumento quanto à desqualificação dos profissionais formados no exterior, cujo processo de seleção ocorre de fato no interior das escolas de medicina e “diferentemente do que acontece no Brasil, entrar na escola de medicina não significa que o aluno será médico seis ou sete anos mais tarde”. Nestes termos, o médico tece sua crítica ao modelo brasileiro para ingresso de candidatos aos cursos de Medicina, visto que de um lado há a seleção dos “melhores” e de outro lado há a exclusão daqueles de classes economicamente desfavorecidas. A parte final do artigo apresenta elementos para considerar que a resposta do colombiano vai ao encontro dos objetivos do programa do governo:

Os médicos estrangeiros a serem importados são o principal alvo em um protesto com pesado caráter trabalhista, de proteção de mercado. Porque a pior ameaça que os cubanos representam é que podem dar certo. Porque os cubanos podem demonstrar que a população não necessita de grandes hospitais de alta tecnologia, mas de médicos acessíveis que estejam ao seu lado.

A título de exemplo da indignação contra o programa Mais Médicos, apenas republicarei outro texto jornalístico que traça as linhas condutoras do protesto a que Palacios se reporta. É uma publicação da Folha de São Paulo de 10/07/2013 na seção Mercado:

A revolta das elites

por Vinicius Torres Freire, Folha de São Paulo

Os 10% ‘mais ricos’ do Brasil, ‘classe média’ de verdade, irritam-se mais com os governos do PT

DILMA ROUSSEFF comprou briga com um pedaço grande da elite brasileira, os médicos, suas famílias, simpatizantes e parentes. Ou assim parece provável.

A maioria das associações de médicos está enfurecida com a história do plano de imigração; parte parece irritada com o serviço obrigatório no SUS para recém-graduados. Mas a gente ainda não tem como saber como pensam os 400 mil médicos do país a respeito das medicinas da doutora Dilma. (continua…)

Pode até parecer que busco favorecer determinada mídia, no entanto afirmo que não se trata disto, pois só estou reproduzindo mais uma publicação da revista Carta Capital para tentar obter uma fonte que fundamenta o texto produzido por Roberto Amaral: A medicina e o Brasil real.

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Publicação na seção Política de Carta Capital

Uma das partes textuais que me chamou atenção, especificamente pelo sentido contestador (o parágrafo está marcado duas vezes e inclusive começa com o operador argumentativo MAS) e também por não ter conseguido acessar a referência fornecida pelo autor (essencial para a reconstrução dos sentidos textuais), é a seguinte:

Mas o dr. Kalil, o médico da Corte e dos afortunados, é “terminantemente contra” a vinda de médicos estrangeiros porque, para haver medicina, é preciso haver “hospital bem estruturado” (FSP, 10/07/2013). Mas o que é, na realidade brasileira, ‘um hospital bem estruturado”? Não explica e ficamos sem saber.

Gostaria muito de ler o que o “dr. Kalil” expressou através da FSP. Os resultados de busca no Google levam apenas para a fonte da revista ou para republicações desse artigo em outros sites e blogs. Seguem então versões de quem vive o outro lado dessa história, ou melhor, passemos à confrontação entre opiniões e fatos relatados pela mídia.

Para minha surpresa, encontrei uma notícia anterior ao lançamento do Mais Médicos em jornal do Rio Grande do Sul com este título, a princípio, motivador: Médicos do interior chegam a ganhar mais do que os prefeitos das cidades, de 19/05/2013.

Para a Zero Hora, um exemplo de vida em cidade pequena com salário grande

Para Zero Hora, exemplos de vida em cidade pequena com salário grande

Lendo a matéria de Fernanda da Costa e Fernando Goettems, há como verificar que a vida de médicos no interior pode não ser tão ruim quanto se alega nas discussões avolumadas nos últimos meses. Isto é o que testemunha uma das profissionais da classe que se sente valorizada após abrir mão de um contrato como concursada para trabalhar como terceirizada e com remuneração mais vantajosa. Consequentemente, essa adaptação de contrato custa um pouco mais em termos de cumprimento da legislação por parte da administração pública.

Parece que o cenário de mudança no setor da saúde levou à produção de uma série de textos com justificativas para a desmotivação pela atuação médica no interior do país, dentre as quais é possível encontrar:

(i) medo de ser processado por acusação de erro médico;

14/07/2013 – 06h30
‘Medo de processo por erro afasta médico do interior’, diz leitor

Seria uma resposta à pergunta feita pelo médico colombiano em seu artigo da Carta Capital (Os médicos brasileiros têm medo de quê?)??? Não, trata-se de uma espécie de defesa produzida por médico provavelmente brasileiro na seção Painel do Leitor da Folha de São Paulo.

(ii) pouca estrutura hospitalar e falta de assistência;

Médicos contam como é trabalhar onde falta tudo, até esparadrapo
Profissionais de Macapá (AP) e do interior da Bahia relatam dificuldades de conviver com pouca estrutura dos hospitais e casos terríveis de falta de assistência

No texto de Maria Fernanda Ziegler, publicado na seção Último Segundo do site iG São Paulo em 08/07/2013, constam relatos de dois médicos que sabem como é atuar no interior do país. A profissional de Macapá é mais experiente, deixou o consultório na capital gaúcha há 16 anos para assumir vaga de um concurso em hospital precário da região norte. O médico recém-formado optou por trabalhar no interior da Bahia até conseguir a aprovação em curso de residência, foi integrante do Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), criado em 2011 pelo Ministério da Saúde e destinado à atuação de médicos, enfermeiros e cirurgiões-dentistas em regiões longínquas e desassistidas.

(iii) imposição da prestação de serviços aos estudantes de medicina.

10/07/2013 – 06h00
Para leitor, dois anos a mais de formação não garantem médicos melhores

Este último título informa opiniões quanto à impossibilidade de melhorar a qualidade da saúde pública. Para um médico de São Paulo e outro sujeito de Curitiba, a proposta federal lançada em 08/07 é ineficaz, pois provocará rotatividade de profissionais que serão obrigados a trabalhar no SUS por 2 anos sem obter uma capacitação ideal.

Por fim, faço questão de explicitar que sou favorável ao programa Mais Médicos. Manobra eleitoreira, populista ou não, prefiro não pensar como burguesa (status que não sustento), pelo simples e triste fato de que pessoas, independente de classe social, poderão finalmente receber um mínimo de atenção a sua saúde, um direito garantido pela Constituição Federal, a saber:

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Compartilho links de dois textos em que prós e contras do tema discutido aqui são apresentados conjuntamente. Para quem ainda tiver fôlego para continuar a leitura.

REVISTA ÉPOCA – Crise na saúde: entenda as propostas polêmicas para a área
O governo federal aprovou o “Programa Mais Médicos” e vetou trechos do Ato Médico sob protestos de entidades de classe por Amanda Polato e Nathalia Tavolieri.
JORNAL TRIBUNA DA BAHIA – Interior da Bahia espera por médicos por Naira Sodré.