Dificuldades de leitura: síndrome de Irlen ou dislexia?

Publicado: junho 24, 2013 em Linguística
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ler é dificil

Quantos professores deparam-se com alunos que apresentam dificuldades de leitura não resolvidas na fase de alfabetização?

Quantos estudantes chegam à fase adulta e atuam profissionalmente tendo que driblar essas dificuldades sem saber exatamente do que se trata?

Quantas percepções leigas e diagnósticos são produzidos de forma equivocada sobre déficit de leitura?

Quantos estigmas estão por aí incrustados na vida de quem tem dificuldades de leitura e não recebeu o devido apoio para superá-las?

Com a leitura de coluna desta semana da revista Veja – As pupilas da sra. Irlen, assinada por Claudio de Moura Castro – recordei-me de reflexões em torno dos questionamentos acima expostos, muitos dos quais fizeram parte das discussões de que participei no núcleo de pesquisa “Aquisição e Funcionamento da Linguagem: implicações para a clínica fonoaudióloga”, da Universidade Tuiuti do Paraná durante o ano de 2009.

O que me proponho a destacar é que quando alguém apresenta dificuldade de leitura, o déficit a princípio pode ser tomado como dislexia que, em linhas gerais (pois são abundantes as nomenclaturas e definições na literatura), trata-se de um problema cognitivo de rendimento inferior da habilidade de leitura em relação à idade, inteligência e escolaridade da pessoa (FARIA, 2013), uma desordem da leitura de palavras e da fluência da leitura,  uma disfunção intelectual para a leitura.

Como sempre há o outro lado da história, há casos que podem ser explicados por um problema oftalmológico denominado síndrome de Irlen e assim definido:

A Síndrome de Irlen (S.I.) é uma alteração visuoperceptual, causada por um desequilíbrio da capacidade de adaptação à luz que produz alterações no córtex visual e déficits na leitura. A Síndrome tem caráter familiar, com um ou ambos os pais também portadores em graus e intensidades variáveis. Suas manifestações são mais evidentes nos períodos de maior demanda de atenção visual, como nas atividades acadêmicas e profissionais que envolvem leitura por tempo prolongado, seja com material impresso ou computador (MAGALHÃES, 2013).

A psicóloga Helen Irlen foi quem descobriu a síndrome que, dentre outras características, envolve o desordenamento da movimentação das pupilas. No Brasil, o Hospital de Olhos de Minas Gerais conta com uma equipe de oftalmologistas que se dedica à pesquisa da patologia, ao esclarecimento de profissionais de diferentes áreas sobre a questão e ao desenvolvimento de programa para tratamento dos casos.

Para os portadores da síndrome de Irlen, as letras do texto tremem, pulsam e até desaparecem.

Para os portadores da síndrome de Irlen, as letras do texto tremem, pulsam e até desaparecem.

Implicações decorrentes da falta de identificação correta desse problema que limita o processo de aprendizagem são, por exemplo, o diagnóstico equivocado de casos de Dislexia, DTA e TDAH, a indicação de medicamentos desnecessários, o comprometimento da vida escolar e profissional dos portadores, a percepção inconsciente do portador em relação às suas dificuldades de leitura, como alerta a Dra. Marcia Guimarães, para quem as disfunções aparecem muito mais quando se lê:

(…) sob excesso de luzes fluorescentes, contraste, cores fortes, muito volume de texto por página, letras menores e impressão em papel brilhante. O mais preocupante é que esta é exatamente a situação em que se aplica a prova do ENEM – centenas de estudantes com Síndrome de Irlen não identificada terão seu desempenho prejudicado pelo estresse visual e hipersensibilidade à luz, cansaço progressivo e dificuldade de manter a atenção por tempo prolongado, com erros na transferência de gabaritos e falta de compreensão por déficits na eficiência visual.

Para conhecer mais sobre o assunto, acesse: http://www.dislexiadeleitura.com.br

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comentários
  1. Guilherme disse:

    Assino Veja e li a coluna na revista dessa semana sobre a Síndrome de Irlen. Gostaria de ressaltar que há muita controvérsia em relação à síndrome e a efetividade dos filtros.

    Sergio Della Sala, prof. da Universidade de Edinburgh e um dos editores do prestigiado periódico científico Cortex (Elsevier), co-assina um artigo sobre esse tema. Esse artigo que não mostra a eficiência do filtro gerou uma réplica da Helen Irlen e uma tréplica dos autores.
    http://pediatrics.aappublications.org/content/128/4/e932/reply

    Esses autores fizeram uma novo estudo com um ano de uso e também não foi encontrado efeito positivo do filtro na leitura.

    http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1751-228X.2012.01139.x/abstract;jsessionid=B68FD1A5EEAD5469DA63896290612D49.d01t04

    Um outro estudo com outro grupo de pesquisadores que encontrou resultados negativos:

    http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1471-3802.2012.01237.x/abstract

    • carlaedila disse:

      Muito boa a sua colaboração, isto só enriquece a reflexão que propus, pois dá opções para cada um formar sua opinião. Na própria coluna mencionava a controvérsia existente na área e, em se tratando de ciência, isto é normal, não há teses incontestáveis. Não tive a intenção de defender a utilização dos filtros, tanto que nem me referi ao tratamento especificamente. O que de fato pretendia era chamar a atenção sobre o enganos que podem ser cometidos na avaliação de sujeitos com dificuldades de aprendizagem e para isto citei o exemplo em destaque na coluna da Veja.

      • Eu e minha filha usamos os oculos irlen e seu efeito foi fantastico,minha filha se desenvolveu muito com eles e sua escola pode comprovar esse resultado,ela só interpretava alguma coisa se alguém lesse para ela e hoje depois de ter usado os ´´oculos irlen ela interpreta tudo que ler sozinha juntamente com isso seu comportamento deu um salto surpreendente.

  2. carlaedila disse:

    Minha intenção não era contestar o tratamento da síndrome de Irlen que é adotado no Brasil pelo Hospital de Olhos de Minas Gerais, até porque não cabe a mim fazê-lo, não tenho condições de duvidar que 1500 pessoas foram tratadas com sucesso naquela instituição, nem mesmo desconfiar do que tu contas aqui, Rosangela, pois é tua experiência pessoal. Pelo que entendi dos artigos recomendados pela outra pessoa que comentou o post, alguns pesquisadores estrangeiros comprovaram a invalidade do método Irlen com o acompanhamento de um grupo menor de pessoas. Então fiquei pensando se os mesmos cientistas já conseguiram desenvolver outra alternativa de tratamento que proporcione resultados positivos ou ficaram apenas na contestação.

  3. […] e para a construção do meu modo de abordar a questão da medicalização. Quando escrevi sobre dislexia e síndrome de Irlen, acredito que assumi uma posição desalinhada com a perspectiva do Fórum, no entanto ressalto que […]

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