O mito da corrupção da língua na internet

Publicado: junho 27, 2013 em Material Didático, Piadas Linguísticas
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Sempre o mito da corrupção da língua.

Nem uma coisa nem outra.

Vale lembrar que não é bem assim como se ouve falar…

Não adianta, por exemplo, depreciar as práticas de linguagem por meio de variedades de textos com diferentes propósitos comunicativos que são escritos na internet, em mídias sociais como o Facebook e em toda infinidade de TICs mediante as justificativas de:

– destruição da língua materna só por causa da grafia de abreviaturas diferentes, pontuação abundante, acentuação e letras maiúsculas de modo deficiente;

– interferência negativa no aprendizado da língua escrita ilusoriamente tida como a certa;

– modificação “total” do português em uso por aqui, que muito antes do surgimento das TICs nem se parecia mais com aquele usado em Portugal;

– desconhecimento das regras gramaticais, mas de qual gramática? tradicional? descritiva? de usos? da língua falada?

– e por aí vai…

Pensar assim denota um posicionamento purista em relação à língua ou mesmo de negação/desconhecimento do fenômeno da variação linguística tão presente em nossa vida diária, nos falares e escritos que nos rodeiam, além de um olhar desequilibrado sobre a  prática de ensino de produção textual devido à fixação nas formas linguísticas em maior escala do que na construção dos sentidos textuais. Por fim, o pior de tudo é perceber que em muitos casos atribui-se “o fracasso metodológico do ensino de notação ortográfica para um fator externo à prática pedagógica que por si só não pode ser responsabilizado” (XAVIER, 2005, p. 13).

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comentários
  1. angelinoneto disse:

    Saudações,
    Caríssima!

    Muito interessante texto, me faz lembrar de uma campanha que ocorreu há alguns anos atrás, na qual os professores pediam que se abolisse histórias em quadrinhos como as do Chico Bento e do Cebolinha, pois eles “falavam errado”… na verdade, o Cebolinha fala “elado”.
    As crianças e os jovens são mais inteligentes que isso, conseguem perceber os níveis de linguagem e as situações nas quais se deve empregar um padrão mais culto e correto.
    Existem muito mais razões para a deterioração da língua, infelizmente é mais dificil do que se parece, resolver isso!
    Um abraço!

    • carlaedila disse:

      Olá. Argumento semelhante aplica-se para as histórias em quadrinhos, pois as do Chico Bento apresentam o dialeto caipira, também uma variedade linguística a ser considerada e estudada na escola, já o Cebolinha é um personagem que representa as crianças com desvio fonológico na fala, por substituir o “R” pelo “L” que é um som mais fácil de produzir. Essa espécie de atalho é só um dos casos de processos fonológicos identificados no português brasileiro por pesquisadores da aquisição da linguagem. Que bom que você tocou nesse aspecto!! pois estou vivenciando a questão na minha casa, tenho feito algumas leituras e pretendo investigar a respeito. Com relação à deterioração da língua, não tem como acontecer, o seu sistema é evolutivo, mutável, mas boa parte dos elementos estruturais são preservados; em outro momento vou escrever sobre o tema, até já separei uns exemplos. Conforme você comentou, os estudantes tem noção de que na internet dá para usar a língua de um jeito mais criativo (isso demonstra o quanto dominam sua língua materna, pois conseguem traduzi-la para outra modalidade sem dificuldade) e muitas vezes conseguem lidar com outras modalidades de linguagem em diferentes ambientes de comunicação. Há pesquisas que demonstraram isto, não anexei no post, mas é bem fácil de encontrar no Google Acadêmico, menciono para que outros leitores também acessem essas fontes se tiverem interesse. Agora quando a escrita da internet vai parar no caderno, quando a coisa se mistura na sala de aula, também não chega a ser um caos, não quer dizer que todos só vão usar a escrita “quase pictográfica” da internet em qualquer lugar ou para produzir qualquer variedade de texto. Aqui deve entrar o professor para mostrar o que é adequado em cada ambiente interativo. Enfim, seu comentário me permitiu expor outros pontos ligados ao assunto, valeu!

      • angelinoneto disse:

        Grato por sua gentil resposta!
        Já é fato histórico as grandes mudanças na linguagem, como os hieróglifos no Antigo Egito que evoluiram para os hieráticos, devido justamente ao caráter complexo dos primeiros. No Japão, a língua sempre sofreu grandes mudanças nos momentos em que recebiam estrangeiros, como primeiro com os chineses, depois os comerciantes portugueses e agora com os norte-americanos no pós guerra.
        O que seria dificil discernir é se essas mundanças sejam ou não benéficas!
        Um abraço!

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