Entre o riso e a crítica em textos sobre medicalização

Publicado: julho 3, 2013 em Linguística Textual, Material Didático
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Por conta de convite que recebi para participar de um simpósio sobre medicalização, promovido pelo Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, passei a reunir alguns textos (charges, histórias em quadrinhos, anúncios publicitários, entre outros) que abordam aspectos dessa questão pelos vieses do humor e/ou da crítica, numa tentativa de fazer minha própria leitura sobre o tema, enquanto não chega o dia do evento para que eu possa conhecer um pouco mais sobre o assunto. Segue o cartaz:

Cartaz de divulgação do evento em Curitiba

Cartaz de divulgação do evento em Curitiba

Para amparar minha leitura, tomo de empréstimo teorias da Linguística Textual que discorrem acerca da compreensão de textos. Começo dizendo que a leitura de qualquer texto requer do leitor a habilidade de recorrer a seu inventário de conhecimentos acumulados para construir uma interpretação textual dentre tantas outras possíveis. No processamento de textos durante a leitura realizamos “pequenos cortes que funcionam como entradas a partir dos quais elaboramos hipóteses de interpretação” (KOCH & ELIAS, 2008, p. 39). Por sua vez, a elaboração de hipóteses de interpretação só é viável pela captura e relação entre conhecimentos prévios e novos. Consideram-se como elementos do conjunto de conhecimentos que possibilitam ao leitor seguir diversos passos interpretativos: conhecimento linguístico, conhecimento enciclopédico ou de mundo, conhecimento interacional (KOCH & ELIAS, 2008; MARCUSCHI, 2008).

Observemos um texto humorístico que aborda a questão da medicalização da educação:

Charge

Charge de autoria desconhecida

Agora pergunto qual é a informação fundamental para interpretar esta charge e afirmar que trata da medicalização da educação? A qual tipo de conhecimento recorrer? O termo Ritalina é conhecido por todos? Eu diria que não, embora uma parcela de leitores consiga inferir que se trate de um medicamento com base no conhecimento linguístico de que o vocábulo “drogas” designa substâncias químicas ou remédios, cujos nomes podem ser compostos pelo sufixo do português brasileiro -ina (para nomes técnicos utilizados na ciência). Para alguém que faz parte do conjunto de usuários desse tipo de medicamento ou convive com sujeitos desse grupo, o processamento da leitura de tal texto ativa também conhecimentos enciclopédicos ou de mundo, além do conhecimento linguístico. É possível observar a junção das duas espécies de conhecimento neste outro texto humorístico:

puff

Mensagem que circula na internet

A mensagem apresenta uma inadequação ortográfica ou talvez uma falha de digitação (psquiatra ao invés de psiquiatra), porém este detalhe é menos importante do que os sentidos construídos através desse texto e é por isso que foi selecionado para compor o corpus da reflexão em curso. Ressalva feita, vamos ao ponto a ser evidenciado. O texto Ursinho Puff e amigos, no psquiatra remete de forma incisiva ao tema da medicalização, inclusive confirmando e ampliando o horizonte de compreensão dos sentidos da charge, justamente por explorar personagens do universo infantil (concebidos para público de faixa etária em escolarização na sua maioria), para os quais se atribuem diversos sintomas de doenças, dentre elas, certos transtornos psiquiátricos, indicando ainda os respectivos fármacos para tratamento, como se fosse algo bastante trivial.

Elementos como o símbolo de marca registrada ® ao lado dos nomes de medicamentos no texto da internet, bem como na charge as palavras NÃO e Sim (escritas, respectivamente, em caixa alta no quadro negro e em tamanho de fonte maior no balão com a resposta “positiva” dos alunos), a sentença com negação imperativa Digam NÃO às drogas e a sentença interrogativa Por que deixar o governo drogar as suas crianças? representam “sinais de articulação ou apoios textuais” (KOCH & ELIAS, 2008, p. 52) com a função metacomunicativa de garantir, ou melhor, direcionar a compreensão textual e sobretudo obter o engajamento do leitor quanto aos objetivos comunicativos.

Uma leitura possível dos objetivos comunicativos seria que pela via do humor, evidentemente crítico, segue a expressão do combate e da conscientização em relação ao que está envolvido – a aceitação passiva, a trivialidade e ainda o caráter incontestável?? – na medicalização da educação (na charge) e também da sociedade (na mensagem da internet). Neste caso, os apoios textuais dizem respeito a conhecimentos interacionais que auxiliam no avanço da compreensão ou da abstração desse tema mais profundo do texto, seja pelos elementos verbais, mencionados no parágrafo anterior, seja pelos elementos visuais: ilustrações do ambiente escolar com seus atores fundamentais – professora e alunos, dos personagens infantis e de amostras de comprimidos dos medicamentos nomeados.

A estratégia de recorrer ao conhecimento linguístico também se aplica na formulação de hipótese de interpretação do próprio cartaz do evento, acima em destaque, pois eu mesma não sabia a diferença entre os termos MEDICALIZAR e MEDICAR, a qual é apresentada em outro material de divulgação do evento através do seguinte esquema gráfico:

Esquema gráfico de diferenciação entre os termos

Esquema gráfico de diferenciação entre os termos

Para quem já possui familiaridade com as discussões produzidas em torno do tema, o conceito de MEDICALIZAÇÃO faz parte de seu conhecimento de mundo, ou seja,  o processo em que pontos da vida social e política, de ordem complexa, multifatorial e particularizados por meio da cultura e do tempo histórico, são subestimados e limitados à lógica médica, pela qual o comportamento desajustado às normas sociais relaciona-se supostamente à causalidade orgânica, cuja manifestação se dá através de doenças no indivíduo (MOYSÉS, 2013).

Pelo que foi possível entender até aqui, existe uma espécie de mobilização coletiva ou movimento contra a medicalização que questiona e combate a “lógica médica”, não aceita a subestimação de condutas supostamente anormais de alunos e outros sujeitos nem a rotulação dessas condutas pelo diagnóstico de patologia passível de ser medicada. A produção de textos com tais construções de sentido leva-me a concluir que tudo isto parece ser fonte de incompreensões por vários setores da sociedade e é preocupante pelo fato de muitos não saberem o que fazer ou pensar a respeito, como eu que estou aqui tentando construir meu entendimento. Sem dúvidas os textos que selecionei foram produzidos por quem tem interesse em chamar a atenção para a questão da medicalização e sinalizar que este processo não pode ser visto como algo banal . A urgência de esclarecimento a respeito aparece nos demais textos a seguir:

Anúncio publicitário

Anúncio publicitário do Conselho Federal de Psicologia

História em quadrinhos com diálogos adaptados.

Quadrinhos do personagem infantil Calvin com diálogos adaptados

calvin-e-haroldo-final

Versão original da história em quadrinhos de Calvin e Haroldo

transtornos psiquiátricos da infancia

Charge com referência a transtornos psiquiátricos da infância e a lógica médica

Charge em referência ao uso de medicamento para controlar a hiperatividade.

Charge com referência ao uso de medicamento para controlar a hiperatividade

Folder do Fórum sobre Medicalização da Educação e Sociedade

Folder do Fórum sobre Medicalização da Educação e Sociedade

Charge em inglês contra a medicalização.

Charge em inglês contra a medicalização

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

KOCH, Ingedore Villaça e ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2008.

MARCUSCHI, Luiz Antonio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editoria, 2008.

MOYSÉS, Maria Aparecida Affonso. Medicalização na educação infantil e no ensino fundamental e as políticas de formação docente. Disponível em: <http://www.anped.org.br/reunioes/31ra/4sessao_especial/se%20-%2012%20-%20maria%20aparecida%20affonso%20moyses%20-%20participante.pdf. >Acesso em: 03 jul. 2013.

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comentários
  1. […] No dia 23/07/2013 participei do Simpósio Medicalização: nova face do obscurantismo, promovido pelo Núcleo Curitiba e Região Metropolitana do Fórum sobre a Medicalização. A experiência de conhecer o debate profícuo deste grupo e o trabalho da profª Dra. Maria Aparecida Moysés (UNICAMP) fez diferença para mim e para a construção do meu modo de abordar a questão da medicalização. Quando escrevi sobre dislexia e síndrome de Irlen, acredito que assumi uma posição desalinhada com a perspectiva do Fórum, no entanto ressalto que naquela ocasião eu não dispunha da percepção que estou construindo desde o momento em que recebi o convite para o simpósio, a qual foi tema de outra publicação no blog – Entre o riso e a crítica em textos sobre medicalização. […]

  2. […] Entre o riso e a crítica em textos sobre medicalização (mundotexto.wordpress.com) […]

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