Arquivo de julho 25, 2013

Sobre os tão conhecidos e até esperados desencontros entre a linguagem do texto literário e do cinema. Sobressai-se aqui a discussão filosófica quanto a tópicos como a “razão manipulatória”, o “pensamento dialético”, a “negação do humanismo”. A crítica que o filme/livro O Leitor não faz sobre “os fundamentos estruturais da sociedade” tem lugar neste artigo de Henrique Wellen para o blog da Revista Espaço Acadêmico.

blog da Revista Espaço Acadêmico

wellenHENRIQUE WELLEN*

 

Via de regra, existe uma tendência de que o processo de adaptação de obras literárias para o cinema repercute em perda de qualidade artística. Seja na impossibilidade de exibição dos detalhes presentes nos livros, seja, especialmente, nas dificuldades em expor qualidades subjetivas dos personagens, os leitores costumam acusar alguma frustração quando se deparam com as transformações dos textos romanescos em filmes. Esse não é, todavia, o caso do filme O Leitor que, inspirado no livro homônimo de Bernard Schlink, tem muito mais a oferecer que a peça original. O filme dirigido por Stephen Daldry não somente consegue narrar melhor a história contida no livro, entrelaçando mais precisamente os tempos narrados, como é capaz de superar algumas das limitações de forma e conteúdo que travejam o texto de Schlink.

A narrativa, que se passa na Alemanha, e que se reparte em tempos históricos distintos, intenta, a partir…

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No dia 23/07/2013 participei do Simpósio Medicalização: nova face do obscurantismo, promovido pelo Núcleo Curitiba e Região Metropolitana do Fórum sobre a Medicalização. A experiência de conhecer o debate profícuo deste grupo e o trabalho da profª Dra. Maria Aparecida Moysés (UNICAMP) fez diferença para mim e para a construção do meu modo de abordar a questão da medicalização. Quando escrevi sobre dislexia e síndrome de Irlen, acredito que assumi uma posição desalinhada com a perspectiva do Fórum, no entanto ressalto que naquela ocasião eu não dispunha da percepção que estou construindo desde o momento em que recebi o convite para o simpósio, a qual foi tema de outra publicação no blog – Entre o riso e a crítica em textos sobre medicalização.

Evento do Núcleo Curitiba e Região Metropolitana no APP Sindicato

Crédito: Andreia Moessa de Souza Coelho, Gioconda Ghiggi

De tudo que ouvi no evento,  considero relevante compartilhar a compreensão de que a medicalização de nossas vidas é uma tendência mundial que se alastra na sociedade há certo tempo. Muitas vezes é acentuada pela judicialização de nossa existência, pois hoje quase tudo se resolve por meio do discurso jurídico, seus gêneros textuais ou instrumentos legais, como denúncias, processos, liminares, etc. Parece que poucos ainda preferem ou conseguem dispor de argumentação e intermediação própria para resolver os problemas pessoais.

Não parece demais mencionar o exemplo histórico que foi dado pela professora da Unicamp e com o qual me identifiquei, visto que contempla uma “verdade científica” construída em 1851. Graças ao médico norte-americano Samuel A. Cartwright, Zumbi dos Palmares poderia ser diagnosticado como portador de transtorno psiquiátrico denominado DRAPETOMANIA (ver artigo de Cartwrigth). Os sintomas dessa doença são a vontade de correr por aí, a fuga, tendência patológica comum entre pessoas negras do continente americano. A concepção do médico, membro da Louisiana Medical Association, foi desenvolvida no século XIX em pleno período da escravidão norte-americana e explicava a conduta reincidente de escravos fugitivos, para a qual cabia o tratamento através de chicotadas e amputação dos dedos dos pés em casos gravíssimos da doença mental.

Cartwright publicou artigo sobre a Drapetomania no New Orleans Medical and Surgical Journal

Crédito: blog Opus Daimon

Quando ouvi a definição da doença no Simpósio, de imediato me encaixei na caracterização anunciada: adoro correr por aí (pratico atletismo, especificamente, corrida de rua), tenho ascendência negra e vivo na América do Sul. Pronto! seria eu uma potencial drapetomaníaca? Ou pior, tenho chance de ser portadora de TDAH. Evidencio que esta não é uma pergunta, é uma afirmação mesmo, tendo em vista o resultado do teste ASRS-18 que fiz para diagnóstico do transtorno. Obtive 7 respostas “frequente” e 4 respostas “muito frequente” dentre as 18 perguntas do questionário que busca tipificar comportamentos despadronizados. É evidente que meus casos de medicalização são cômicos, no entanto os de outras pessoas podem ser bem distintos e inclusive trágicos, para fugir de qualquer eufemismo descabido.

Na verdade, é polêmico, revoltante e difícil de conceber que o adoecimento se impõe em função do exercício da dominação coercitiva da sociedade, pelo que defende a Dra. Maria Aparecida. No meio desse conflito de interesses, temos de um lado, o Estado, a indústria, grupos econômicos dominantes e, de outro lado, parcelas da sociedade condenadas à desinformação, à desigualdade e ao engano de que são doentes por não serem tão produtivas quanto o sistema capitalista exige, só para citar alguns limites do obscurantismo impostos pela medicalização.

Crédito: Gioconda Ghiggi

Crédito: Gioconda Ghiggi

Concordo que há muito por fazer, pois certos comportamentos diferentes, contestadores ou fora da normalidade convencionada para o meio social vem recebendo o carimbo de doença mental ou transtorno psiquiátrico de um modo tranquilo demais, como se o normal fosse não sofrer por nossos problemas ou não contestar a própria realidade. A questão é profunda e, como apareceu nas falas dos comunicadores do evento, é de ordem acadêmica e política, sobretudo porque “cutuca” setores imperiosos da sociedade: classe médica, indústria farmacêutica, governantes, legisladores, juristas.

A luta é árdua e, acima de qualquer coisa, a urgência é de todos.

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Textos recomendados durante o evento:

Knock ou Le Triomphe de la Médecine: Pièce en trois actes

MOYNIHAN, Ray e WASME, Alain. Vendedores de doença. Estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros. In: PELIZZOLI, M. L. Bioética como novo paradigma. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2007.

GERAÇÃO RITALINA. Falta de atenção virou doença. O nome? TDAH. A suposta solução? Um remédio tarja preta por Millos Kaiser, Revista TRIP.

Why French Kids Don’t Have ADHD por Marilyn Wedge, Psichology Today.

Tradução: Por que as crianças francesas não têm Deficit de Atenção?, site Cultivando o Equilíbrio.