Medicalização da vida seria cômica, se não fosse trágica

Publicado: julho 25, 2013 em Divulgação científica
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No dia 23/07/2013 participei do Simpósio Medicalização: nova face do obscurantismo, promovido pelo Núcleo Curitiba e Região Metropolitana do Fórum sobre a Medicalização. A experiência de conhecer o debate profícuo deste grupo e o trabalho da profª Dra. Maria Aparecida Moysés (UNICAMP) fez diferença para mim e para a construção do meu modo de abordar a questão da medicalização. Quando escrevi sobre dislexia e síndrome de Irlen, acredito que assumi uma posição desalinhada com a perspectiva do Fórum, no entanto ressalto que naquela ocasião eu não dispunha da percepção que estou construindo desde o momento em que recebi o convite para o simpósio, a qual foi tema de outra publicação no blog – Entre o riso e a crítica em textos sobre medicalização.

Evento do Núcleo Curitiba e Região Metropolitana no APP Sindicato

Crédito: Andreia Moessa de Souza Coelho, Gioconda Ghiggi

De tudo que ouvi no evento,  considero relevante compartilhar a compreensão de que a medicalização de nossas vidas é uma tendência mundial que se alastra na sociedade há certo tempo. Muitas vezes é acentuada pela judicialização de nossa existência, pois hoje quase tudo se resolve por meio do discurso jurídico, seus gêneros textuais ou instrumentos legais, como denúncias, processos, liminares, etc. Parece que poucos ainda preferem ou conseguem dispor de argumentação e intermediação própria para resolver os problemas pessoais.

Não parece demais mencionar o exemplo histórico que foi dado pela professora da Unicamp e com o qual me identifiquei, visto que contempla uma “verdade científica” construída em 1851. Graças ao médico norte-americano Samuel A. Cartwright, Zumbi dos Palmares poderia ser diagnosticado como portador de transtorno psiquiátrico denominado DRAPETOMANIA (ver artigo de Cartwrigth). Os sintomas dessa doença são a vontade de correr por aí, a fuga, tendência patológica comum entre pessoas negras do continente americano. A concepção do médico, membro da Louisiana Medical Association, foi desenvolvida no século XIX em pleno período da escravidão norte-americana e explicava a conduta reincidente de escravos fugitivos, para a qual cabia o tratamento através de chicotadas e amputação dos dedos dos pés em casos gravíssimos da doença mental.

Cartwright publicou artigo sobre a Drapetomania no New Orleans Medical and Surgical Journal

Crédito: blog Opus Daimon

Quando ouvi a definição da doença no Simpósio, de imediato me encaixei na caracterização anunciada: adoro correr por aí (pratico atletismo, especificamente, corrida de rua), tenho ascendência negra e vivo na América do Sul. Pronto! seria eu uma potencial drapetomaníaca? Ou pior, tenho chance de ser portadora de TDAH. Evidencio que esta não é uma pergunta, é uma afirmação mesmo, tendo em vista o resultado do teste ASRS-18 que fiz para diagnóstico do transtorno. Obtive 7 respostas “frequente” e 4 respostas “muito frequente” dentre as 18 perguntas do questionário que busca tipificar comportamentos despadronizados. É evidente que meus casos de medicalização são cômicos, no entanto os de outras pessoas podem ser bem distintos e inclusive trágicos, para fugir de qualquer eufemismo descabido.

Na verdade, é polêmico, revoltante e difícil de conceber que o adoecimento se impõe em função do exercício da dominação coercitiva da sociedade, pelo que defende a Dra. Maria Aparecida. No meio desse conflito de interesses, temos de um lado, o Estado, a indústria, grupos econômicos dominantes e, de outro lado, parcelas da sociedade condenadas à desinformação, à desigualdade e ao engano de que são doentes por não serem tão produtivas quanto o sistema capitalista exige, só para citar alguns limites do obscurantismo impostos pela medicalização.

Crédito: Gioconda Ghiggi

Crédito: Gioconda Ghiggi

Concordo que há muito por fazer, pois certos comportamentos diferentes, contestadores ou fora da normalidade convencionada para o meio social vem recebendo o carimbo de doença mental ou transtorno psiquiátrico de um modo tranquilo demais, como se o normal fosse não sofrer por nossos problemas ou não contestar a própria realidade. A questão é profunda e, como apareceu nas falas dos comunicadores do evento, é de ordem acadêmica e política, sobretudo porque “cutuca” setores imperiosos da sociedade: classe médica, indústria farmacêutica, governantes, legisladores, juristas.

A luta é árdua e, acima de qualquer coisa, a urgência é de todos.

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Textos recomendados durante o evento:

Knock ou Le Triomphe de la Médecine: Pièce en trois actes

MOYNIHAN, Ray e WASME, Alain. Vendedores de doença. Estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros. In: PELIZZOLI, M. L. Bioética como novo paradigma. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2007.

GERAÇÃO RITALINA. Falta de atenção virou doença. O nome? TDAH. A suposta solução? Um remédio tarja preta por Millos Kaiser, Revista TRIP.

Why French Kids Don’t Have ADHD por Marilyn Wedge, Psichology Today.

Tradução: Por que as crianças francesas não têm Deficit de Atenção?, site Cultivando o Equilíbrio.

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comentários
  1. angelinoneto disse:

    Saudações!!!
    Desde a Grécia antiga, o trágico e o cômico são duas faces da mesma moeda!!! Interessante seu artigo, imagino haver no futuro próximo alguma doença relacionado a pessoas que tenham aversão a usar computadores ou outros aparelhos como celulares, as pessoas desdenham aquilo que não conhecem ou entendem. Me lembra uma obra de Machado de Assis, “O Alienista”, onde o diretor do Manicômio prende todos que julga loucos mas percebe no final que o mais louco é ele mesmo!
    Um abraço!!!

    • carlaedila disse:

      Olá! Uma das coisas também ditas no evento foi que no fundo quem exerce a coerção tem medo do que as pessoas possam fazer, por não compartilharem os mesmos interesses políticos e econômicos. Lembro de uma professora de literatura que tive universidade, pois ela dizia que era recorrente nas obras literárias, na dramaturgia a interdição de um personagem como louco, por ser alguém diferente dos demais, por dizer o que ninguém queria ouvir: a verdade. Ela relembrou ainda que casos como a interdição do irmão denunciante de Fernando Collor ilustram a transposição desse recurso para a vida real. Agradeço o acréscimo trazido por você.

  2. Marcos de Brito disse:

    Oi, foi um prazer conhecer este blog! Gostaria simplesmente de acrescentar às respostas acima o relato da personagem Winston, do romance 1984, de George Orwell. Em meio a uma uma sociedade totalmente dominada pelo Grande Irmão (Big Brother), na qual o incentivo ao livre pensamento é plenamente coibido, Winston se vê, em certo instante, como um doente mental. Isso decorre do simples fato dele organizar seus pensamentos e contestar o domínio totalitário de seus governantes.

    Acho que é exatamente esse tipo de debates e simpósios que um governo totalitário ou grandes corporações industriais odeiam. O livre pensamente é um direito tão comum à sociedade brasileira que às vezes é apagado da memória de alguns. Exercer esse direito através de um blog é um grande passo ao meu ver. Abraço!

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