Arquivo de julho, 2013

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Para a gramática tradicional, a metáfora é colocada como um tipo de figura de linguagem, “muito encontrada em obras de autores clássicos e consagrados pela crítica”. Porém isto não nos interessa aqui, porque prefiro afirmar que a metáfora está em quase tudo que qualquer sujeito diz por aí, esse papo de linguagem dos clássicos e usos consagrados já era! Por conseguinte, prefiro tratar a metáfora como um processo de significação cuja compreensão das expressões linguísticas envolve algum tipo de relação inferencial.

Vamos ver então de onde vem o efeito do riso metafórico que a tirinha do nosso motoqueiro Bugio produz. Para tanto, com base no que diz Ferreira (2009), apresento 4 propriedades básicas encontradas em uma metáfora. Pode ser que existam outras propriedades ou mesmo que o recorte feito seja discutível, mas por ora ficamos com estas:

1) duplicação dos empregos – a metáfora funciona como expressão substituta possível (cair na estrada =  partir para outro lugar ou em viagem conduzindo um veículo por caminho terrestre) de um termo com sentido próprio ou literal (cair na estrada = sofrer uma queda ou tombar em via terrestre, ir ao chão);

2) mudança de sentido – o uso da expressão metafórica (com sentido simbólico, figurado, modificado) evoca um sentido diferente daquele primeiro que o termo apresenta na língua (com sentido próprio ou literal, a primeira entrada lexical no dicionário);

3) hipótese da transferência – a expressão linguística no uso metafórico troca de sentido porque é transferida do contexto habitual (referência ao movimento de queda em sentido literal) para um contexto de uso incomum (referência a uma forma de deslocamento em sentido discursivo);

4) hipótese da similitude ou da analogia – a relação de similaridade na construção de metáforas é uma propriedade preexistente nos referentes selecionados pelo falante, como ocorre no exemplo do Bugio, em que a analogia entre as expressões decorre de suas aproximações dentro do campo semântico que engloba os sentidos de movimentação e deslocamento.

E o efeito de riso metafórico? Este vem da exploração que o autor faz dos sentidos (i) discursivo por meio da voz do personagem Bugio no primeiro quadro da tirinha e (ii) literal através da voz do personagem Tucano na finalização dessa história rápida, assim como das ilustrações associadas a cada um dos sentidos.

Leia mais sobre metáfora: FERREIRA, Alice Maria de Araújo. Questões sobre a metáfora: definições e discussões. Polifonia, n. 18, p. 131-144, 2009.
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Interessante para revisores, professores de português brasileiro, escritores, redatores e todos que se envolvem com a produção e leitura de textos.

A poesia Pró-ficção de Pirosfera Cândida é um Texto inVerso & Prosa no mundotexto!

JULHO

10 a 12 – 61º Seminário do Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo (GEL), na Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

11 e 12 – II Seminário Internacional sobre História do Ensino de Leitura e Escrita (II SIHELE), na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte/MG.

16 a 18 – 2º Congresso Luso-Brasileiro em Investigação Qualitativa, nas instalações do Departamento de Educação, da Universidade de Aveiro, Portugal.

17 a 21 – II Encontro Lationoamericano de Tradutores Intérpretes e Guia-intérpretes de Língua de Sinais (ELATILS), será realizado na Universidade Presbiteriana Mackenzie – Rio, na cidade do Rio de Janeiro-RJ.

22 a 26 – Escola de Inverno em Linguística Formal (EILIN 2013) – UNICAMP, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

23 a 26 – XV Congresso Brasileiro de Professores de Espanhol, acontecerá na Universidade Federal de Pernambuco, Recife, no Centro de Convenções e no Centro de Artes e Comunicação (CAC) da instituição.

30/07 a 01/08 – IV Simpósio sobre o Livro Didático de Língua Materna e Língua Estrangeira (IV SILID) e III Simpósio sobre Materiais e Recursos Didáticos (III SIMAR), serão realizados na PUC-Rio, Rio de Janeiro-RJ.


AGOSTO
01 e 02 – I Encontro Intermediário do GT de Fonética e Fonologia da ANPOLL, na UFRGS, Campus do Vale, Instituto de Letras, Auditório Celso Pedro Luft, Porto Alegre-RS.

facebook-generos-2013

06 e 07 – IV Encontro Gêneros na Linguística e na Literatura, no auditório do CCSA da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

06 a 09 – II Colóquio Nacional A Produção do Conhecimento em Educação Profissional , organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional (PPGEP) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), Campus Natal-Central.

07 a 09 – I Colóquio Internacional Mídia e Discurso na Amazônia (DCIMA) e II Encontro de Análise do Discurso da Amazônia (EDIA) – Desafios contemporâneos: Apropriações e Regimes de Visualidades, na Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém-PA.

12 a 14 – XV Seminário Nacional e VI Seminário Internacional Mulher e Literatura – As relações entre gênero e violência: pela busca do empoderamento, na Universidade Federal do Ceará/UFC – CHI, Campus Benfica.

14 a 16 – II Simpósio Internacional de Linguística Funcional (II SILF), na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR),  São Carlos-SP.

14 a 17 – IV Encontro em Análise do Discurso: Fundamentos epistemológicos e abordagens metodológicas, na Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP/Câmpus de Araraquara, SP).

21 – I Jornada de Estudos (Auto)Biográficos e de narrativa de vida: a escrita de si e do outro, na Universidade Federal de São João Del-Rei, Campus Dom Bosco, Praça Dom Helvécio nº 74, Dom Bosco, São João Del Rei-MG.

21 a 24 – 4º Simpósio de Literatura Brasileira Contemporânea (4º SILIC) & III Seminário de Integração de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UNIR, na Universidade Federal de Rondônia,  Porto Velho – RO.

23 e 24 – XVI Encontro de Professores de Inglês – A hora e a vez dos professores de inglês da escola pública: o professor como criador-de-sentidos (XVI EPI) , na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Rondonópolis/MT.

26 a 30 – VII Congresso Nacional de Linguística e Filologia, no Instituto de Letras da UERJ, com a participação especial do Laboratório de Idiomas do Instituto de Letras.

27 a 30 – VIII Jornada Internacional e VI Conferência Brasileira sobre Representações Sociais, no Mar Hotel Recife Rua Barão de Souza Leão nº 451, Boa Viagem,  Recife – PE.

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The II International Conference of the School of Languages and Literatures (II CIFALE), entitled Languages, Literatures, Dialogues will be held from September 02 to 05, 2013 at Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ), School of Languages and Literatures, campus Cidade Universitária.

This second edition of CIFALE aims at promoting a wide interchange among researchers, writers, translators, teachers and students on issues that have roused national and international debate in linguistic and literary studies.

The title of our Conference – “Languages, Literatures, Dialogues” – proposes the first coordinates for the construction of a collaborative network amid its participants, whose goal is a permanent reflection on the new sociocultural, aesthetic, political, scientific and technologic scenes and the implications they bring to our field of knowledge.

For more information about the II International Conference of the School of Languages and Literatures (II CIFALE): http://www.cifale.letras.ufrj.br/index.html.

Citações ilustradas por um designer, um jeito interessante de combinar imagens e conteúdos. Imagino este material em uma aula de leitura e produção de textos em língua inglesa, pois teria muito o que explorar com os alunos. Fica aqui uma sugestão para trabalhar língua estrangeira através do gênero textual cartaz  ou poster na sala de aula.

Ouvidoria

O designer Ryan McArthur elegeu alguma citações das mais interessantes, verdadeiros clássicos, e criou posters minimalistas, sensíveis e inteligentes. Para descansar e arejar a mente.

edison

fyodor

leo

marcus

ralph

rumi

Ver o post original

I think the poster below would be a great tool for reading and creating infographics in the classroom. For example, infographics can be used by students to share their research projects, as well to furnish a representation of their knowledge and application of a topic.

See on Scoop.itDigital Humanities for beginners

The 2013 Kantar Information is Beautiful Awards is now open for entries. The deadline for entries is midnight on Friday 30 August 2013, GMT.

See on www.informationisbeautifulawards.com

Le blogue et l’apprentissage de l’écriture

Le blogue comme outil de développement de la compétence à écrire au primaire: identifier son intention d’écriture pour mieux se faire comprendre

Via Scoop.itAcquisition de l’écriture

par Stéphane Allaire, Pascale Thériault, Evelyne Lalancette, Vincent Gagnon, Université du Québec à Chicoutimi.

L’écriture, une compétence complexe à développer de façon stratégique

L’écriture est une compétence cruciale pour la réussite scolaire et l’émancipation en société d’un individu. Or, écrire est un acte complexe qui exige l’organisation et la réorganisation, et la mobilisation et la construction de connaissances, tant sur l’écriture que sur le monde (…)

En lire plus: rire.ctreq.qc.ca

Em Linguística textual: memória e representação, a professora Leonor Lopes Fávero – uma pesquisadora dedicada à área de Linguística Textual  (LT) da Universidade de São Paulo e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – apresenta um retrospecto da disciplina no que diz respeito aos primeiros trabalhos publicados no país de autoria de Ignácio Antônio Neis, Luiz Antonio Marcuschi e, por fim, a produção conjunta de Leonor Lopes Fávero e Ingedore Villaça Koch. Dentre os tópicos contemplados estão:

(i) os estudos de conceituação e propriedades do texto,

(ii) a passagem da teoria da frase à teoria do texto,

(iii) as causas do aparecimento da teoria do texto,

(iv) outras questões relevantes para a LT.

A leitura completa do artigo pode ser feita através do link no final deste post.

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Linguística textual: memória e representação

por Leonor Lopes Fávero, Filolologia e Linguística Portuguesa e-ISSN 2176-9419.

Resumo: A Linguística Textual inicia-se no Brasil na década de 80 do século XX. O primeiro
trabalho de que se tem notícia é de 1981 , de autoria do Prof. Ignácio Antônio Neis,  intitulado Por uma gramática textual, ao qual se seguiram dois outros, em 1983:  Linguística textual: o que é e como se faz, do Prof. Luiz Antônio Marcuschi e Linguística textual: introdução de Leonor Lopes Fávero e Ingedore Villaça Koch. O prof. Neiss mostra como as tentativas iniciais da linguística textual estavam, de modo geral, ligadas às gramáticas estruturais e gerativas. A obra do Prof. Marcuschi concentra-se na análise de algumas definições de texto e no estudo de aspectos teóricos em função de sua aplicabilidade. Já Leonor Lopes Fávero e Ingedore V. Koch têm como objetivo apresentar ao leitor brasileiro uma visão da linguística textual na Europa, então um recente ramo da ciência da linguagem. O trabalho insere-se na História das Ideias Linguísticas, parte da História Cultural, que procura identificar o modo como em diferentes momentos, uma realidade social é construída, pensada, dada a luz (Chartier, 1990).

Palavras-chave: linguística textual – causas do surgimento – conceituação de texto – linguística textual no Brasil

Leia o artigo na íntegra em: Filol. linguíst. port., n. 14(2), p.225-233, 2012.

Ferreira Gullar

O poeta Ferreira Gullar

Os 10 maiores poemas brasileiros de todos os tempos

por Carlos Willian Leite, Revista Bula.

A Máquina do Mundo
(Carlos Drummond de Andrade)

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.

(Trecho de A Máquina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade).


Vou-me Embora pra Pasárgada

(Manuel Bandeira)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


Poema Sujo

(Ferreira Gullar)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos

menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia

(Trecho de Poema Sujo, de Ferreira Gullar).


Soneto da Fidelidade

(Vinícius de Moraes)

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Via Láctea

(Olavo Bilac)

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”


O Cão Sem Plumas

(João Cabral de Melo Neto)

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.


Canção do Exílio

(Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


As Cismas do Destino

(Augusto dos Anjos)

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia… O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!

Tal uma horda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com a boca aberta,
A matilha espantada dos instintos!

Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.

E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do Futuro.

(Trecho de As Cismas do Destino, de Augusto dos Anjos).


As Pombas

(Raimundo Correia)

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.


Invenção de Orfeu

(Jorge de Lima)

1.
Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.

Nobre apenas de memórias,
vai lembrando de seus dias,
dias que são as histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.

Alegrias descobertas
ou mesmo achadas, lá vão
a todas as naus alertas
de vaia mastreação,
mastros que apoiam caminhos
a países de outros vinhos.
Está é a ébria embarcação.

Barão ébrio, mas barão,
de manchas condecorado;
entre o mar, o céu e o chão
fala sem ser escutado
a peixes, homens e aves,
bocas e bicos, com chaves,
e ele sem chaves na mão.

2.
A ilha ninguém achou
porque todos o sabíamos.
Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia.

Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim.

Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
há sempre um copo de mar
para um homem navegar.

Nem achada e nem não vista
nem descrita nem viagem,
há aventuras de partidas
porém nunca acontecidas.

Chegados nunca chegamos
eu e a ilha movediça.
Móvel terra, céu incerto,
mundo jamais descoberto.

Indícios de canibais,
sinais de céu e sargaços,
aqui um mundo escondido
geme num búzio perdido.

Rosa-de-ventos na testa,
maré rasa, aljofre, pérolas,
domingos de pascoelas.
E esse veleiro sem velas!

Afinal: ilha de praias.
Quereis outros achamentos
além dessas ventanias
tão tristes, tão alegrias?

(Trecho de Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima).

Leia como foi a escolha…