Jornal Estado de Minas – Embargos infringentes está na boca do povo

Publicado: setembro 23, 2013 em Linguística
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De tempos em tempos, os brasileiros incorporam em seu vocabulário termos e expressões técnicas exaustivamente repetidos nos noticiários. Embargos infringentes é a moda da vez

por Felipe Canêdo

Quem nunca ouviu falar de embargos infringentes? Em uma semana, o instrumento jurídico de sonoridade pouco amigável saiu do conspícuo regimento interno do Supremo Tribunal Federal (STF) e das cátedras de escolas de direito para cair no gosto popular, virando piada na internet e se tornando parte de vocabulário corrente nos locais mais inusitados, como padarias e salões de beleza. Antes restrito à mais alta Corte do país, ele é um exemplo de termo técnico que se popularizou rapidamente durante um fato marcante no país – neste caso, o julgamento do mensalão.

Como ele, muitos termos pouco conhecidos foram assimilados pela população de uma hora para outra ao longo dos anos, mesmo que, na maioria das vezes, muita gente não saiba seus reais significados. Os exemplos são vários: impeachment, moratória, medidas heterodoxas, câmbio flutuante, CPMF, PEC 37 e URV. Cada um deles se relaciona a algum episódio da política ou da economia brasileira amplamente discutido pela mídia e foi incorporado pelo povo, quase sempre com irreverência.

Os embargos infringentes, acatados no julgamento do mensalão pelo STF na quarta-feira, permitirão que questões específicas de 12 réus do processo sejam julgadas novamente. De acordo com o regimento da Corte, eles são permitidos para decisões não unânimes do plenário. Na questão que foi decidida pelo ministro Celso de Mello, após o empate de cinco votos a favor e cinco contra no dia 11 e a decisão do decano da Corte na quarta-feira, o termo embargos infringentes praticamente saiu do anonimato e foi alçado ao estrelato. Na internet, foi sugerido como nome de banda punk e de pizzaria, por exemplo.

Se ele será assimilado pela população é uma questão que demandará tempo para ser respondida. Segundo o professor de linguística da Universidade Federal de Minas Gerais Lorenzo Vitral, um fator importante para que isso aconteça é o tempo de exposição na mídia, outro seria o uso que será feito da expressão. “Normalmente, qualquer palavra sofre mudança de significado ao longo do tempo. Se a gente compara o português de hoje e o de 1900, vê que os significados das palavras mudaram. É normal que mudem”, ele diz.

(…)

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comentários
  1. angelinoneto disse:

    Infelizmente, nem sempre essa incorporação é positiva para a língua, pois as expressões são niveladas abaixo de seu significado original.

    • carlaedila disse:

      Da mesma forma que o linguista comenta no texto, penso que as mudanças nos significados das palavras são normais, assim como outras mudanças (fonéticas, sintáticas, morfológicas) decorrentes de atualizações sociais e histórias que ocorrem por acaso ou por necessidade não só na língua, mas também em diversas áreas de conhecimento, como a medicina, informática, economia, direito. Com isto quero dizer que sustento opinião diferente da sua, Angelino. Se eu não pensasse assim, seria incoerente me assumir como linguista e defender posição conservadora diante da evolução histórica das línguas, que não é algo controlável porque deriva dos usos correntes das comunidades linguísticas, conforme estudos feitos por Carlos Faraco, Marcos Bagno, Yonne Leite, Bortoni-Ricardo, Rosa Virginia Mattos, Mª Helena Mateus, entre outros. A meu ver, só temos a ganhar como usuários da língua quando conseguimos explorar cada vez mais os significados, pois isso demonstra nossa competência linguística em diferentes níveis, o que também implica que cada falante aos poucos aprenda a identificar o nível de adequação dos significados que escolhe usar através das práticas cotidianas de linguagem, da leitura e escrita, do processo de escolarização.

      • angelinoneto disse:

        Correto, contudo sou um saudosista e para mim as formas que desaparecem são de um grande pesar. Orgulho me ler um Camões em sua forma original. Como diz a filologia, “As línguas são organismos que nascem, se desenvolvem, se reproduzem e morrem.” estudo de Aldo Luiz Bizzocchi
        (Universidade de Santo Amaro) intitulado A EVOLUÇÃO LINGÜÍSTICA
        DE UM PONTO DE VISTA DARWINIANO.
        Agradeço vossa correção, mas como dizia Antoine de Saint-Exupéry, “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. E se você cativas as “palavras”…
        Um abraço!!!

  2. carlaedila disse:

    Não se trata de correção, somente da exposição de opiniões diferentes, como mencionei. Ontem mesmo li alguma coisa sobre a aplicação da teoria darwiniana em pesquisas da indústria farmacêutica, o que não me surpreendeu tanto quanto a sugestão de leitura feita por você. Obrigada!

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