Arquivo de outubro, 2013

Redação do Enem é a única a pedir proposta de intervenção; saiba o que significa

por Julia Carolina – iG São Paulo | 19/10/2013 11:00

Quinta competência da prova pede que aluno apresente uma solução para o problema apresentado no texto

Não adianta só discorrer sobre o tema, é preciso propor uma solução para o problema discutido. No Enem, é assim que funciona a redação. Quem descumpre essa competência (a última das cinco consideradas na correção do texto) perde 200 dos mil pontos possíveis. Para especialistas ouvidos pelo iG , essa é uma forma de fazer com que os estudantes assumam uma posição crítica.

Crédito: Amana Salles/Fotoarena
Candidatos devem fazer uma proposta de solução para tema discutido na redação

Rogério Chociay, professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista em redação, diz que sempre se posicionou “um tanto avesso” a essa competência. Porém, mudou de opinião nos últimos tempos.

“Atualmente, tenho a impressão de que com tanta informação que o aluno do Ensino Médio pode ter acesso, ele está em condição de propor a intervenção. O que é preciso entender é que o Enem não vai pedir um tratado ou uma tese de doutorado a respeito de um assunto. É uma dissertação e uma dissertação de um aluno de Ensino Médio”, pondera.

Chociay diz ainda que não é preciso que o aluno fique preocupado em sugerir uma intervenção inovadora e genial. “Não é o que se espera, pode ser uma proposta simples. Eles querem que o jovem se posicione diante daquele problema. Claro que podem surgir ótimas ideias, mas isso não deve ser levado como padrão na hora da correção”, completa.

Benedito Antunes, professor de Letras da Unesp, avalia que esse pedido de intervenção pode trazer dificuldade para os alunos, dependendo do tema e nível do estudante. Mesmo assim, ele avalia bem a existência dessa competência.

“Sempre entendi que o modelo de redação do Enem era uma novidade para nós, caracterizado por um avanço. O aluno teria que apresentar uma solução e essa solução viria de acordo com a maneira que o tema é abordado na prova. O pedido estimula a pessoa a pensar em um texto crítico”, completa.

Para o professor Francisco Platão Savioli, da Universidade de São Paulo (USP) e do Anglo, essa foi uma forma de cobrar que os alunos se preocupem em aplicar os ensinamentos da escola para sugerir “mudanças sociais”. E isso, ele complementa, não costuma estar na preocupação das escolas.

“É uma forma que a política educacional encontrou de incentivar as escolas a não só transmitir um conhecimento alienado, mas dar uma destinação social para esse conhecimento. De modo que o colégio não ensine só a fazer cálculos, não ensine só as letras, mas crie também nos estudantes sensibilidade de participação social, interesse no meio social em que ele está”, diz.

Competências avaliadas na correção da prova:

1. Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa.

2. Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa.

3. Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.

4. Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.

5. Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.

Obs.: Cada critério vale de 0 a 200 pontos.

Leia mais em: iG São Paulo

Está reunido aqui o conteúdo de três materiais publicados recentemente (sites Universia Brasil, O Globo – Educação, InfoEnem) com a finalidade de sugerir tópicos que, segundo profissionais da área, poderão ser abordados na proposta de redação da prova do Enem em 2013 ou mesmo nas questões objetivas. De modo geral, os temas apontados recaem sobre seis grandes grupos de assuntos debatidos e explorados densamente pela mídia neste ano, conforme segue:

ENERGIA – água, sustentabilidade, petróleo;

energia

Crédito: meioambiente.culturamix.com

JUVENTUDE – diversão e responsabilidade na juventude, a juventude no século XXI, supervalorização do corpo;

TRABALHO – leis trabalhistas no Brasil, relações trabalhistas no Brasil, regulamentação do trabalho doméstico;

SOCIEDADE – direitos humanos no Brasil, homofobia, participação social e trabalho voluntário;

PRIVACIDADE – violação da privacidade, espionagem norte-americana de dados brasileiros;

GEOPOLÍTICA – manifestações populares, mobilidade urbana, Mais Médicos, julgamento do Mensalão, identidade do povo brasileiro.

Argumentos para 3 temas que podem cair na redação (Universia Brasil)

DICA: desenvolver previamente argumentos para os possíveis temas da redação ajuda na hora de redigir o texto.

Vejamos alguns exemplos:

A homofobia é um assunto muito tratado por levar o jovem a aceitar o diferente. É preciso que o candidato reflita sobre a intolerância de qualquer tipo, uma vez que campanhas contra a homofobia são vistas quase semanalmente na mídia brasileira. Esse tema tem apelo quanto aos direitos humanos, sendo muito valorizado pelo Enem.

A regulamentação do trabalho doméstico incentiva a inclusão social por indicar que a empregada doméstica passa a ser vista como uma verdadeira profissional. Com esse tema também é possível tratar os direitos humanos, bem como a conquista que vai querer ser ressaltada pelo governo.

A internet foi um tema abordado na redação da edição de 2011 do exame, porém, a espionagem norte-americana de dados brasileiros é um dos temas que pode cair na edição deste ano. É importante refletir sobre os motivos para essa espionagem, principalmente agora que o pré-sal pode fazer do Brasil um país autossuficiente em petróleo. Não deixe de desenvolver os seus argumentos para chegar com uma opinião formada no dia da prova.

Leia mais em: Universia Brasil

7 possíveis temas da redação Enem 2013 (InfoEnem)

por Rogerio de Souza**

As sugestões do site relacionam questões de menor dimensão a um tema mais  abrangente, estratégia que pode ser adotada na prova para estender a discussão do tema tendo em vista diversos contextos históricos.

DICAS: leitura da matéria seguida da escrita de redações sobre alguns dos temas citados, assim como a leitura de notícias sobre cada um dos temas. Com isso é possível adquirir alguma base de conhecimento sobre os assuntos que permitirá a construção de argumentos e proposta de intervenção no texto a ser produzido.

Vejamos quais temas e como podem ser abordados:

A juventude no século XXI – A partir de trechos ou imagens sobre a Tragédia de Santa Maria (Boate Kiss), Jornada Mundial da Juventude e a presença/protagonismo dos jovens nos Protestos de Junho de 2013.

Petróleo – A partir de trechos ou imagens sobre os 60 anos da criação da Petrobras, 40 anos da Primeira Crise do Petróleo e o Pré-Sal.

Mobilidade urbana – A partir de trechos ou imagens sobre os engarrafamentos na cidade de São Paulo (opção por transporte individual), problemas para ampliar as linhas de metrô/ônibus e os Protestos de Junho de 2013 exigindo melhoria na mobilidade urbana.

As leis trabalhistas no Brasil – A partir de trechos ou imagens sobre os 70 anos da CLT, a PEC das Domésticas e a diminuição das taxas de desemprego nos últimos anos (aumento do emprego formal).

Direitos humanos no Brasil – A partir de trechos ou imagens sobre o AI-5 (1968 – 45 anos), os abusos de autoridade em pleno século XXI e a atuação da Comissão da Verdade.

Violação da privacidade – A partir de trechos ou imagens sobre o ex-funcionário da CIA Edward Snowden, das revelações de Julien Assange (Wikileaks), das divulgações de grampos realizados pela justiça e fotos não autorizadas divulgadas na internet (ex. Carolina Dieckmann).

Água e sustentabilidade – A partir de trechos ou imagens sobre 2013 ser o ano internacional da água, o Brasil como um dos maiores reservatórios de água potável e a seca no nordeste (considerada uma das maiores de todos os tempos).

** Rogério de Souza é sociólogo formado pela Unesp e doutor pela Unicamp. Dentre outras atividades, é coordenador de curso pré-vestibular comunitário (CEP-SR) e professor de História e Sociologia.

Leia mais em: InfoEnem

10 assuntos que podem ser tema da redação do Enem (O Globo)

1- Água e sustentabilidade

Segundo o professor de Língua Portuguesa do Colégio Alfa Cem Bilíngue, Cosme Cunha, este é o tema mais aguardado, pois 2013 é o “ano da água”. Segundo ele, vale a pena os candidatos perceberem onde estão as reservas, de que maneira o aquecimento global interfere nelas, prejuízos trazidos pelo agronegócio e, por fim, medidas pessoais do cotidiano que podem minimizar o desperdício.

2- Energia

O professor Cosme Cunha lembra que o tema figura como um dos mais apostados pelos professores, nos últimos anos. Então, é importante estar por dentro da questão energética no Brasil. Saber de onde vem a energia consumida no país, os impactos ambientais gerados por elas e quais as fontes alternativas que podem ser usadas é de suma importância. Para Cosme, é importante que o aluno saiba debater a questão energética propondo soluções para os gargalos no setor.

3- Manifestações populares

De acordo com a professora de Língua Portuguesa e Redação do Colégio Notre Dame-Recreio, Maria Carolina Oliveira, “o gigante acordou” foi, talvez, a expressão mais utilizada no cenário nacional em 2013. Por isso, é um forte candidato a tema de redação. “Milhares de pessoas, em todo o Brasil, foram às ruas reivindicar a construção de um país melhor, com saúde e educação, sem corrupção. No entanto, questiona-se a transformação da indignação popular em votos conscientes, quando as próximas eleições acontecerem no próximo ano”, destaca a professora.

4- Relações trabalhistas no Brasil

Outra dica da professora Maria Carolina. Como ela lembra, a consolidação das leis trabalhistas brasileiras completa 70 anos em 2013. Logo, todos os temas relacionados à situação atual do trabalhador no Brasil são possíveis. “Trabalho infantil, mercado informal e situações de trabalho escravo podem ser assuntos contemplados pela banca do Enem. Além disso, não se pode esquecer que a PEC das Domésticas motivou inúmeras discussões acerca das relações trabalhistas no começo deste ano”, comenta.

5- Supervalorização do corpo

Esta dica é do professor de Língua Portuguesa, Literatura e Redação do Colégio Liessin, Daniel Jorge. Segundo ele, vivemos numa sociedade cuja imagem tem muita força. Em função disso, não são raros os casos de jovens e adultos que se submetem aos mais excêntricos e perigosos recursos para alcançar a considerada forma perfeita. “E a mente? Será que acompanha o ritmo do corpo? Vale a pena refletir”, recomenda o professor.

6- Diversão e responsabilidade na juventude

Para o professor Daniel Jorge, o episódio da Boate Kiss, que causou a morte de 242 pessoas em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, trouxe uma reflexão sobre os riscos da diversão entre os jovens. “Será que é uma questão de ‘inconsequência juvenil’, como dizem por aí, ou mesmo uma questão de controle por parte das autoridades?”, questiona.

7- Identidade do povo brasileiro

“Como é construída a identidade do povo brasileiro?” Este é um tema que, segundo a professora de Língua Portuguesa e Redação do Colégio e Curso Pensi, Carolina Pavanelli, poderia facilmente ser cobrado no Enem. Ela justifica: “As vertentes sociais e culturais aparecem no edital do ENEM como possibilidades temáticas. Até hoje, ainda não foi discutido na redação o que faz de nós o que somos enquanto povo, cultural e socialmente.”

8- Participação social e trabalho voluntário

Como nota a professora Carolina Pavanelli, este tema também ainda não caiu nas redações do ENEM. Por isso, ela acha que tem chance de ser cobrado. Como ela exemplifica, o assunto pode vir aliado a uma reflexão sobre como as manifestações populares que ocorreram este ano ajudam a reforçar uma forte tendência ao questionamento do nosso papel enquanto sociedade.

9- Julgamento do Mensalão

Como avalia a professora de Língua Portuguesa do Mopi, Catarina Schumann, o julgamento e a punição de políticos por corrupção é um fato histórico no Brasil, até então. Por isso, segundo ela, o aluno tem que estar antenado com todo o cenário político que está por trás do julgamento, caso ele seja cobrado na prova.

10- Mais Médicos

Outra dica da professora Catarina Schumann é o recente programa lançado pelo governo federal, que trouxe médicos estrangeiros para suprir a carência de profissionais no país. De acordo com ela, é importante o aluno saber todos os aspectos que cercam essa política, como as baixas no serviço de saúde pública no Brasil

Leia mais em: O Globo – Educação

Oportunidade para aprender LIBRAS de um jeito inovador, uma opção de inclusão social sem custo.

Blog da Biblioteca Virtual

Curso de Libras Online

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo está com inscrições para um curso inédito, gratuito e online de linguagem brasileira de sinais (LIBRAS). O curso foi elaborado pela Escola Virtual de Programas Educacionais (Evesp). 

No total, são quatro mil vagas para alunos do Ensino Fundamental e Médio. A inscrição pode ser feita pela internet até o dia 28 de outubro. 

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Maria Esther Maciel
OFÍCIO
Escrever
a água
da palavra mar
o vôo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.

TRIZ, de Maria Esther Maciel
(Belo Horizonte: Orobó Edições, 1998/1999, 2 edições)

Dora Ferreira da Silva
Boneca

A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio.
Quem a aninhará nos braços
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil
mais frágil que o de pássaro.
Confia. Assim passiva
o vento brincará contigo
franzirá teu avental
dirá coisas que entendes
desde a aurora das coisas:
foste um caroço de manga
uma forma de nuvem
ou um galho com braços
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim.
Para ser embalada nos braços
da menina que houver.

IEDA ESTERGILDA DE ABREU

IDEÁRIO (1)

A palavra passa
o gesto fica
o carro passa
o pé fica
o foguete passa
a estrela fica
o adeus passa
a mão fica
o abraço passa
o calor fica
a guitarra passa
a música fica
a bola passa
o jogo fica
o cabelo passa
a cabeça fica
os navios passam
o mar fica
os deuses passam
o homem-deus fica.

MARIANA BOTELHO

Nascente

córrego
cachoeira
ribeirão

eu choro
pra pertencer à paisagem

ANGELICA TORRES

AO NAVEGANTE

Desveste o coração
das plumas e dos pesos
da existência

Deste portal em diante
só existem paisagens:
os riscos esboçados
dos pórticos do olhar

Neles não cabe ciência,
sequer filosofia,
mas o simples gozo
de vagar

LENILDE FREITAS
Bilhete

Se você dobrar à esquina
da rua detrás da minha
e se não tiver preguiça
de atravessá-la todinha,
encontrará na esquina oposta
num muro alto caiado
uma frase escrita em sânscrito
como se fosse um recado
para ninguém sabe quem
e por ninguém decifrado.
Se conseguir decifrá-la
responda seja o que for
lá mesmo no espaço ao lado
faça-me este favor
que não vai lhe faltar nada.
Era só isso. Obrigada
MARIA THEREZA NORONHA

Seis

Seis palavras à procura de um poema
— pirotécnicas e pirandellianas —
passeiam pela noite descuidada.
Dadas as mãos, atravessam a praça,
olham o céu, buscando comovidas
da lua cheia a face sextavada.
Contam estrelas, meio envergonhadas:
bem sabem o banal deste recurso
e vão-se afastando, cabeças baixas.
Seis palavras flutuam, indecisas,
em demanda de estrofe onde se encaixem.
Soltas, nada mais são que sopro, brisa.
Soltas, nada mais são que folhas novas
brotando da videira, pressurosas:
furam o tronco e ainda não são uvas.

ADELIA PRADO

AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

CORA CORALINA

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

CECILIA MEIRELES

O mosquito escreve

O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.

O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.

Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.

Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.

Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?

E ele está com muita fome.

See on Scoop.itPer linguam

Communication, lettres et sciences du langage est une revue scientifique étudiante diffusée exclusivement en ligne, publiant des travaux d’étudiantes et d’étudiants des 2e et 3e cycles universitaires des disciplines associées à la communication, à la littérature et aux sciences du langage. La revue est publiée une fois par année.

Depuis 7 années, avec 52 articles déjà parus et un 8e volume en préparation, la revue a favorisé la circulation de la recherche étudiante et la collaboration interuniversitaire. Forte de cette vitalité, elle lance son 8e appel de textes.

Les étudiantes et étudiants de 2e et de 3e cycles sont invités à soumettre des articles portant sur une recherche en cours ou sur les résultats d’une recherche terminée. À noter que les projets de mémoire ou de thèse ne sont pas acceptés pour publication.

Articles et résumés doivent être envoyés à l’adresse clsl@usherbrooke.ca, avant le 15 janvier 2014. 

See on www.fabula.org

PIADA LINGUÍSTICA 2007

De modo geral, a mídia presta o desfavor de disseminar a ideia de que “fala bem” a língua quem fala conforme as regras da língua escrita ou usa um vocabulário “difícil”, “rebuscado”. Ninguém precisa exclusivamente de tais recursos para conseguir se comunicar e ninguém fala “bem ou mal” a sua língua materna. O que se pode afirmar é que há usuários mais ou menos competentes, só isso. E sob o intuito de formar opiniões, em algumas vezes a mídia tem disseminado julgamentos negativos sobre a competência linguística dos falantes, confundindo a cabeça de todo mundo ao colocar fala e escrita no mesmo ponto de observação. Fazer o quê? O linguista é sempre a último sujeito consultado quando a mídia se propõe a falar da língua, pois a preferência é por outros “pseudo-especialistas”, como jornalistas, escritores, gramaticistas…

O curioso é que se o assunto for saúde, médicos são entrevistados, se for futebol, jogadores e técnicos são procurados, se for lei, advogados são consultados. Agora, quanto à língua, chama qualquer um!! Na verdade, é até melhor que nem consultem linguistas mesmo, porque no final das contas as concepções da Linguística acabam distorcidas. Volta e meia vejo a divulgação de discursos sobre “o caos” que poderia se estabelecer se passássemos a respeitar os diferentes jeitos de falar das pessoas ou ainda a perguntinha redutora de opinião: “então quer dizer que pela Linguística pode tudo?”.

Falta ainda atingir a consciência de que as regras de escrita são ensinadas na escola  simplesmente para que possamos compartilhar um padrão mínimo e comum de língua escrita e através dele ter condições de interagir como cidadãos na sociedade letrada, que formaliza boa parte de seus atos por meio de produções escritas. Falta compreender que existem momento e local adequados para usar as variedades da língua. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, é nesse sentido que apontam os parâmetros curriculares nacionais (PCNS) para o ensino de português, porém nem todos os profissionais envolvidos conseguem trabalhar dessa forma, muitas vezes porque entendem a língua como sistema estático a ser preservado e sobretudo pelo desconhecimento da teoria linguística que fundamenta os PCNS.

No meu caso, como professora de português, com algum conhecimento de Linguística, e autora deste blog,  não faria o menor sentido escrever aqui em um padrão coloquial, técnico demais ou regional, porque não me disponho a estabelecer “o caos” conforme a mídia insiste em atribuir ao trabalho do linguista. Mais do que isto, quero ser compreendida pelo maior números de leitores e entendo que o emprego da variante padrão é justificável neste contexto. As minhas escolhas são bem diferentes em interações familiares, nos bilhetes que escrevo para meu filho, nas conversas informais (escritas) através de redes sociais e mesmo nos comunicados redigidos ou oralizados por mim em meu ambiente de trabalho. No blog busco manter certa credibilidade como autora diante do público a que me dirijo e por isso assumo a necessidade de manter determinada postura não só como usuária, mas também como estudiosa da língua.

Além do mais, se cada pessoa desenvolvesse e usasse regras de escrita próprias ou se limitasse a regras em desuso ou obsoletas para falar e escrever, as interações e a compreensão seriam dificultadas. É com a finalidade de possibilitar a comunicação que se estabelecem padrões para a variedade escrita de uma língua, os quais não deveriam ser confundidos com as diferentes variedades de fala. O emprego adaptado das variedades da língua às situações, ao público e às necessidades comunicativas, dentre outros aspectos, demonstra habilidade e conhecimento linguístico. Refiro-me a uma flexibilidade a ser desenvolvida por muitos de nós, a qual passa primeiro pela compreensão e depois pelo abandono de preconceitos linguísticos. Preconceitos que, assim como muitos outros julgamentos prévios, são consequência do culto a valores burgueses, dentre os quais, está também o consumismo ilustrado na tira de Luis Fernando Veríssimo e o desprezo pelos cursos de Letras e Linguística, abordado no artigo Afinal, pra servem os cursos de Letras e Linguística?

Aula inaugural do curso de Linguística da UFSCar que foi ministrada pelo profº José Luiz Fiorin. Alguns dos tópicos tratados pelo linguista:

Quem escolhe o curso de Letras é porque não teve capacidade de escolher um curso considerado de maior prestígio como Medicina, Direito, Engenharia?

Será que nós temos que aceitar o valor atribuído ao curso de Letras, ao curso de Linguística pelo mercado acadêmico?

Ao mesmo tempo que há um debate, em que há um certo desprezo pelo curso de Letras, pelo curso de Linguística, ao mesmo tempo as questões sobre linguagem apaixonam a sociedade.

A linguagem é uma coisa onipresente na vida de todos nós.

A linguagem paixona porque nos acompanha em todos os fatos de nossa vida.

A exploração da polissemia da língua pela mídia, de certa forma a poesia está dentro
desse lugar [do fazer] da linguagem.

Sobre a linguagem do personagem Analista de Bagé de Luis Fernando Veríssimo.

Ridicularizar a forma de falar de uma pessoa é admitir a própria identidade da pessoa.

O preconceito linguístico existe, é regional, social …