Arquivo de fevereiro, 2014

Published 23/02/2014 | By IPOL

A língua pomerana tem sido o foco de importantes políticas linguísticas no Brasil. Tornou-se cooficial em cinco municípios no Espírito Santo (Santa Maria de Jetibá, Laranja da Terra, Pancas, Vila Pavão e Domingos Martins) e em Canguçu, no Rio Grande do Sul; e desde 2005 entrou nos programas educacionais das escolas desses municípios através do PROEPO – Programa de Educação Escolar Pomerana. Além disso, Santa Maria de Jetibá, em parceria com o IPOL, realizou o primeiro censo linguístico do município evidenciando a vitalidade e principais funções dessa língua ao lado de outras faladas na região. A instrumentalização, que acontece com a elaboração de dicionários, gramáticas, materiais didáticos diversos,  entre outros, em diálogo com essa expansão política, assume importante papel na consolidação dessa língua.

Projeto Pomerando tem repercussão na região
Foto: Divulgação

Foto: Divulgação  

O Livro “Projeto Pomerando: língua pomerana na escola Germano Hübner” recebeu um espaço na seção “Livros Raros e de Valor” da Biblioteca Pública Pelotense

Em um projeto realizado pelo professor Danilo Kuhn, na Escola de Ensino Fundamental Germano Hübner, o “Projeto Pomerando”, com a intenção de resgatar parte da escrita da língua pomerana, ainda bem enraizada em São Lourenço através da língua falada, começou a tomar forma através da publicação de um livro, com notas gramaticais, conjugações verbais, análises e até mesmo um pequeno dicionário. O resultado, além da repercussão na cidade, colocou em destaque a escrita pomerana, um dialeto da extinta Pomerânia, localizada na Alemanha.

Recentemente, Kuhn apresentou o projeto no I Seminário “Qualidade e Compromisso com a Educação em São Lourenço do Sul – RS: Vivências e Experiências Pedagógicas”, da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desporto, tendo o livro lançado e autografado nas Feiras do Livro de São Lourenço do Sul e Pelotas. Além de o projeto ter sido exposto em eventos como o III POMERbr, em Pomerode, Santa Catarina, ele também recebeu destaque no Congresso Internacional de História Regional da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Encontro da Associação Sul-Rio-Grandense de Pesquisadores em História da Educação realizado na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Simpósio Internacional em Memória e Patrimônio da UFPel, sendo publicado em formato de artigo no periódico Cadernos do Lepaarq da universidade. [continue lendo …]

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Caros leitores,
Crédito: Editora UEPG

Crédito: Editora UEPG

UniLetras acaba de publicar seu último número em
http://www.revistas2.uepg.br/index.php/uniletras. 
Convidamos a navegar no sumário da revista para acessar os artigos e itens de interesse.

Agradecemos seu interesse em nosso trabalho,
Marly Catarina Soares
UEPG

UniLetras
Vol. 34, No 2 (2012)
Sumário
http://www.revistas2.uepg.br/index.php/uniletras/issue/view/376

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Primeiras Páginas
	Marly Catarina Soares

Apresentação
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APRESENTAÇÃO
	Marly Catarina Soares

Dossiê temático
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As representações sociais de estudantes de Ensino Fundamental Público sobre o ensino de
Língua Inglesa (139-156)
	Ederson Henrique de Souza Machado,Didiê Ana Ceni Denardi

Em defesa da aprendizagem de inglês na escola pública: considerações sobre crenças de
alunos adolescentes (157-170)
	Fernando Silvério de Lima

FIGURAÇÕES DA IMPORTÂNCIA DO LATIM NA OBRA A REPÚBLICA DOS BUGRES DE RUY TAPIOCA (171-182)
	Oliveira Mello Mello

O APARTHEID NA LITERATURA: A MORTE DE UM FILHO (1996), DE NJABULO NDEBELE (183-195)
	Silvio Ruiz Paradiso, Samira Corrêa Chaim

Reflexos de um cotidiano: Utilização da língua portuguesa pelos descendentes
italianos (197-205)
	Nauria Inês Fontana

A MELANCOLIA DO RISO: VIAGENS IMAGINÁRIAS DE UM NARRADOR (207-218)
	Eduarda da Matta

Artigos Tema Livre
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MARCADORES CONVERSACIONAIS DAS LÍNGUAS PORTUGUESA E ESPANHOLA: UM ESTUDO COMPARATIVO E
CONTRIBUIÇÕES PARA O ENSINO/APRENDIZAGEM DE LÍNGUAS (221-229)
	Valeska Gracioso Carlos

O ENSINO DA LEITURA COMO PROCESSO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA (231-241)
	José Aroldo Silva

Panorama das atividades propostas para as práticas de leitura nos LDs,segundo a concepção
de Bakhtin (243-253)
	Juliana Cemin

Vícios de Linguagem e Idiotismos: a fala como unidade de estudos nas gramáticas normativas
brasileiras em língua portuguesa – 1881-1959 (255-265)
	Ednei Souza Leal

Resenha
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RESENHA (269-272)
	Simone Maria Rosseto

Entrevista
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Helena Kolody – um século de poesia (275-278)
	Márcio Renato dos Santos

– Tópicos de linguagem: empréstimos linguísticos, estrangeirismos ou empréstimos vocabulares

– Temas transversais: dominação cultural, identidade nacional

– O texto na sala de aula:

CAPITULAÇÃO

Delivery
Até pra telepizza
É um exagero.
Há quem negue?
Um povo com vergonha
Da própria língua
Já está entregue.
Degradação da espécie humana

Degradação da espécie humana

 

 

Indicado não somente para professores de espanhol por ser um belo material para discurtir temas transversais dentro do eixo de valores éticos como Respeito Mútuo, Justiça, Diálogo, Solidariedade. Sendo assim, o tema do curta-metragem espanhol cabe para qualquer área da educação. Embora tenham retirado do YouTube, consegui o link de outro local, de um site português:

http://videos.sapo.pt/NpaSnzJBRH55PLLm1kFY

Falando em Literatura

Há alguns dias, vi esse vídeo lindíssimo, o curta- metragem que ganhou o Goya 2014 (que é a maior premiação do cinema espanhol). “Cordas” (“Cuerdas”) é baseado em fatos reais, vale a pena ver os quase 11 minutos. É uma criação de Pedro Solís, um desenhista que tem dois filhos: Alejandra, que quando tinha seis anos nasceu seu irmão Nicolás com paralisia cerebral, ele não se movimenta. O amor pelo irmão e as brincadeiras de Alejandra com ele inspiraram a criação dessa história. No final do vídeo, o pai o dedica à família: “à minha filha Alejandra, obrigado por inspirar- me essa história; ao meu filho Nicolás, quem dera nunca ter me inspirado essa história; à Lola, por tudo que você nunca chorou diante de mim.”

Eu fiz as legendas em português e coloquei no meu canal do Youtube, e para minha surpresa, espalhou feito pólvora, em três dias 117.774 visualizações! (até…

Ver o post original 14 mais palavras

GIZ

Não sou eu que escrevo. Escravo,
lavro este chão que não semeio.
Servo do verso, não o tenho
— faço ele vir como me veio

Não sou a luz. Espelho, espalho
a de outro sol que em mim se escoa.
Nem tenho a língua, só a voz,
vale por onde a língua ecoa.

Não sou eu que escrevo. Transcrevo
— tem algo maior que me guia.
Tímido giz, frágil me arrisco
nos quadros negros da Poesia.

Marcos Bagno. In: Vaganau.
Crédito: Revista Bula

Crédito: Revista Bula

Pedimos a 15 convidados — escritores, críticos, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de Paulo Leminski. Cada participante poderia indicar entre um e 15 poemas. Escritor, crítico literário e tradutor, Paulo Leminski foi um dos mais expressivos poetas de sua geração. Influenciado pelos dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos deixou uma obra vasta que, passados 25 anos de sua morte, continua exercendo forte influência nas novas gerações de poetas brasileiros. Seu livro “Metamorfose” foi o ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Entre suas traduções estão obras de James Joyce, John Fante, Samuel Beckett e Yukio Mishima. Na música teve poemas gravados por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Guilherme Arantes; e parcerias com Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik e Wally Salomão.

Paulo Leminski morreu no dia 7 de junho de 1989, em consequência de uma cirrose hepática que o acompanhou por vários anos. Os poemas citados pelos participantes convidados fazem parte do livro “Melhores Poemas de Paulo Leminski”, organização de Fred Góes, editora Global. Abaixo, a lista baseada no número de citações obtidas.

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Invernáculo

Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

O que quer dizer

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

M. de memória

Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

Parada cardíaca

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

Amar você é
coisa de minutos…

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

Poesia:

“words set to music” (Dante
via Pound), “uma viagem ao
desconhecido” (Maiakóvski), “cernes
e medulas” (Ezra Pound), “a fala do
infalável” (Goethe), “linguagem
voltada para a sua própria
materialidade” (Jakobson),
“permanente hesitação entre som e
sentido” (Paul Valery), “fundação do
ser mediante a palavra” (Heidegger),
“a religião original da humanidade”
(Novalis), “as melhores palavras na
melhor ordem” (Coleridge), “emoção
relembrada na tranquilidade”
(Wordsworth), “ciência e paixão”
(Alfred de Vigny), “se faz com
palavras, não com ideias” (Mallarmé),
“música que se faz com ideias”
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
fingimento deveras” (Fernando
Pessoa), “criticismo of life” (Mathew
Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
“linguagem em estado de pureza
selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
inspire” (Bob Dylan), “design de
linguagem” (Décio Pignatari), “lo
impossible hecho possible” (Garcia
Lorca), “aquilo que se perde na
tradução (Robert Frost), “a liberdade
da minha linguagem” (Paulo Leminski)…

Adminimistério

Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.

Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?

Sintonia para pressa e presságio

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

Não discuto

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

A lua no cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!

Sem título

Eu tão isósceles
Você ângulo
Hipóteses
Sobre o meu tesão

Teses sínteses
Antíteses
Vê bem onde pises
Pode ser meu coração

 

Nesta breve reflexão, exponho tópicos relacionados ao tratamento da linguagem coloquial e linguagem culta no ensino de português brasileiro. Dentre os tópicos contemplados neste texto estão: heterogeneidade da língua, influências das regras de escrita, adequação da linguagem, preconceito linguístico, distinção entre padrões culto/escrito, atividades de produção/reflexão linguística, contínuo de monitoramento, processos de gramaticalização, retextualização das modalidades de linguagem.

Norma culta charge-surfista
O ambiente de uma instituição de ensino constitui espaço ideal para se observar a convivência entre diferentes usos da língua. Conforme a sociolinguística laboviana, tal fato linguístico decorre de diversidade social, escolaridade, origem geográfica, isto é, decorre da heterogeneidade que particulariza a comunidade linguística de qualquer universidade, faculdade ou centro de ensino superior. Indo mais além, presumo que a convivência linguística tenha se intensificado nos últimos anos em decorrência da adoção do sistema de inclusão social para ingresso de estudantes.
Não deve ser difícil ouvir pelos corredores das instituições um conjunto de falas em certo contraste: “tu podes x tu pode”, “chegamos x chegamo”, “vina x salsicha”, “caRta com R aspirado x carta com r caipira”. O conjunto dessas falas representam variedades linguísticas, ou melhor, são amostras da realidade heterogênea, mutável e variável da fala. Apesar das diferenças sintáticas, morfológicas, lexicais e fonéticas, os usuários dessas variedades conseguem se comunicar sem dificuldades quando se encontram, quer pela linguagem coloquial, quer pela linguagem culta.
Difícil pode ser passar por cima de uma “confusão de conceitos” que, para Faraco e Tezza (no livro Prática de texto para estudantes universitários) levam à suposição de que a homogeneidade define a língua real. Segundo os dois linguistas, toda confusão vem das compreensões da língua apenas como código de escrita e da gramática enquanto fonte de regras corretas da língua, o que gramáticos tradicionais e leigos tomam como parâmetro para estimar o quanto um sujeito falante domina a linguagem culta. Subjacente a esse tipo de avaliação linguística está o preconceito de que só domina a linguagem culta quem fala exatamente conforme se escreve em registros documentais e literários, como se a linguagem espontânea ou coloquial resultasse de comportamento desviante do falante e fosse desprovida de regras.
Não é isto que sustenta, por exemplo, Heronides Moura no livro O direito à fala, em artigo intitulado “A língua popular tem razões que os gramáticos desconhecem” e diria que na esteira do normativismo colocam-se muitos falantes a discriminar usuários da língua na ilusão de que temos necessidade de usar a linguagem culta em todos os momentos de interação social. É nesse sentido que, na minha condição de professora de português brasileiro, estarei disposta a mostrar aos estudantes que a língua é falada antes de qualquer gramática publicada para prescrever regras e as diferenças existentes não representam desvios do padrão convencionado para a escrita, ao contrário, são variedades adequadas a diferentes usos, situações, motivos e necessidades.
Em A sombra do caos, Luiz Percival Leme Brito conscientiza quanto à força da atividade normativa nos ambientes letrados em decorrência da incorporação do prescritivismo pela tradição escrita, escola e todas as instâncias de prática linguística. É um comportamento usual em qualquer comunidade de fala, para determinar os usos adequados e valorar as formas linguísticas, recorrer a normas e atribuí-las à língua, pois a todo instante procuramos ajustar o que falamos, assim como julgamos os falares de outras pessoas.
Dentre os motivos que incidem no monitoramento da linguagem em uso, a sociolinguística variacionista de Labov elenca fatores de ordem geográfica, social, escolar (nível de contato com a cultura escrita ou letramento), situacional (onde, para quem, por que, quando e como falar). No entanto, o fato de o monitoramento ser usual não me isenta do papel de mediadora na desconstrução de julgamentos, se porventura ocorrerem em sala de aula no sentido de provocar exclusão social, que às vezes se torna quase imperceptível pela sutileza das atitudes e contrapõe a postura ética esperada de qualquer sujeito em formação para entrar no mercado de trabalho.
Outra confusão conceitual que vale a pena sublinhar recai sobre a indistinção entre norma da linguagem culta e norma da linguagem escrita. De modo geral, pode-se afirmar que a norma culta corresponde ao conjunto de regras da gramática prescritivista, enquanto padrão de língua culta ideal está presa à representação da escrita. Por outro lado, o autor de A sombra do caos defende que a norma da língua culta oral, representativa da fala usada em camadas de prestígio social, não traduz o padrão escrito, embora compartilhe algumas das regras de correção.
Já a norma explícita da língua escrita representa uma convenção social, reúne regras ortográficas, de concordância, regência e usos lexicais das variedades de prestígio, é o que se encontra em gramáticas escolares ou pedagógicas, dicionários, manuais de estilo e redação de jornais. Além disso, outro argumento apresentado por Brito para desfazer o equívoco é a contribuição das pesquisas de sociolinguística e gramática de língua falada na comprovação de que a norma da língua escrita não demonstra graficamente nenhuma modalidade oral nem aquela tomada por linguagem culta.
De posse dos conhecimentos e esclarecimentos mencionados até aqui, considero-me em condições de propor atividades de produção oral e escrita que explorem de maneira produtiva o inventário linguístico do aluno, começando com a valorização de sua linguagem coloquial ou vernacular, como denomina Labov, até chegar a produções típicas de linguagem culta. Algo que não pode faltar na sala de aula é a conscientização sobre os erros, cujo melhor tratamento é como diferenças entre variedades linguísticas. Essa postura pedagógica é sugerida por Bortoni-Ricardo na obra Educação em língua materna, visto que as diferenças refletem todo um contexto histórico e cultural, sendo inadmissível se tornarem alvo de exclusão e preconceito linguístico.
Em termos de produção oral, considero que as propostas de Faraco e Tezza dão conta não só a produção, mas também da reflexão sobre variações linguísticas. Destaco algumas atividades que adaptei a fim de comparar linguagens culta e coloquial, dentre elas, a realização de discussões em torno de amostras de fala em diferentes variedades e contextos interativos. Como mediador, o professor pode apresentar questões para a turma: avaliar a aceitabilidade das amostras como unidades constituintes do português brasileiro, estimar a adequação dessas falas quanto ao grau de formalidade, identificar prováveis causas para as diferenças, descrever a reação frente a uma fala inadequada no que diz respeito à situação de interação ou a uma fala de usuário de outra comunidade linguística.
Observações de como programas humorísticos exploram o trânsito entre linguagem culta e linguagem coloquial para provocar o riso é outro exemplo de atividade centrada no “contínuo de monitoração estilística”. Trata-se de escala que, para Bortoni-Ricardo, situa interações desde o nível de espontaneidade total (coloquial) até aquelas previamente planejadas que exigem mais atenção do falante (culta). Inclusive um desses programas pode ser exibido em sala para alimentar as reflexões.
Em outra etapa podem entrar atividades de reflexão sobre processos de gramaticalização da língua coloquial em sua modalidade oral, os quais mudam características sintáticas, semânticas ou discursivo-pragmáticas de elementos da língua (Weinreich, Labov e Herzog em Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística). Exemplificam tais mudanças alguns usos pronominais (a alternância entre “a gente” e “nós”), verbais (passagem de verbo pleno para verbo auxiliar, “vive cantando”, “anda fazendo”, etc.) e de deslocamento sintático à esquerda (em orações relativas: O teatro, eu não sei onde fica bilheteria dele/Eu não sei onde fica a bilheteria do teatro.)
Quanto à produção escrita, parece-me válido desenvolver propostas que derivem daquelas realizadas com ênfase na produção oral. Como justificativa da integração, vislumbro a oportunidade de relacionar as configurações possíveis entre as modalidades. Ainda que a escrita não represente a língua oral, cabe o trabalho de retextualização da língua falada para a língua escrita, sugerido por Marcuschi em Da fala para a escrita por propiciar uma visão abrangente acerca do processamento diferenciado de textos em linguagens coloquial e culta, ambas com as correspondências de oralidade e escrita.
No caso do texto oral, temos como característica principal a elaboração online em que reformulações, interposições e expansões ocorrem simultaneamente à produção, enquanto que no texto escrito não há todas essas operações nem sempre no mesmo momento de criação, uma vez que o caráter parcialmente estático do texto escrito (exceto hipertexto por sua volatilidade) possibilita revisões posteriores. Quais seriam as propostas de produção escrita? Produzir um relatório sobre as discussões, escrever uma peça de teatro em que personagens usem variedades coloquiais e cultas, produzir comentários sobre publicações na mídia que se reportem a questões de linguagens culta e coloquial, observando se há exposição de opiniões equivocadas nas publicações.
Enfim, propostas diversas podem ser idealizadas com o objetivo de tornar o aluno um sujeito consciente quanto à heterogeneidade da língua e de todas as implicações dessa conduta. Há como avaliar o desenvolvimento dessa postura pela manifestação da aceitabilidade, pela incorporação da noção de adequação linguística e pelo aprimoramento da competência linguística, uma consequência do contato com produções em níveis diversificados de linguagem coloquial e linguagem culta.

Respeito

O que está sendo feito
Pode ser de outro jeito
O que já se fez e bem feito
O que está sendo feito
Pode não estar direito
O que passou é perfeito
O que está acontecendo
Pode ter defeito
O que já foi eu aceito
O que está acontecendo
Pode ser de outro jeito
O que passou merece
Respeito

(Arnaldo Antunes)

Crédito: Carolina Santos

Crédito: Carolina Santos

Ser Diferente É Normal

Todo mundo tem seu jeito singular
De crescer, aparecer e se manifestar
Se o peso na balança é de uns quilinhos a mais
E daí, que diferença faz?

Todo mundo tem que ser especial
Em seu sorriso, sua fé e no seu visual
Se curte tatuagens ou pinturas naturais
E daí, que diferença faz?

Já pensou, tudo sempre igual?
Ser mais do mesmo o tempo todo não é tão legal
Já pensou, sempre tão igual?
Tá na hora de ir em frente:
Ser diferente é normal!

(Preta Gil)

Correção de redação na escola
por Cristina Ramos

Corrigir redações – esse sempre foi um problema crucial nas escolas para os professores e pior ainda, para os alunos. Parece que estou vendo. A professora sentada na cadeira de sua mesa, os alunos começam a levantar-se e a colocar seus textos sobre o móvel, dizendo assim: “Não olhe agora, heim, professora?!” E vão colocando seus trabalhos sob aqueles que lá já se encontram. Sem nenhum medo de errar, afirmo que até nossos alunos de nível superior fazem isso ao entregarem seus trabalhos.

Pensando nisto escrevo este artigo que tentará fazer uma breve reflexão sobre o problema de corrigir redações escolares; faço isso após ter lido um livro de Eliana Ruiz, que versa superficialmente sobre o assunto. Tentarei fazer um “entremeio” entre as ideias da autora e as minhas próprias ideias e vamos ver no que vai dar.

Então, como é que se corrige redação na escola? Sempre pensei que o trabalho de reescrita do aluno é decorrente de uma interferência que, fatalmente, o professor fará em seu texto. E aí estava o problema – no modo como o professor intervém no texto do aluno. Minha “grande” sabedoria sabia que a mediação do professor é um dos fatores determinantes do sucesso que o aluno possa ter em seu processo de aquisição da escrita, lógico, entendida aqui como a capacidade de redigir bem, com todos os aspectos que um bom texto requer.

Justamente porque pensava na questão interferência positiva do trabalho de correção, procurava encontrar respostas para:

  • o que é que torna uma correção de redação eficiente?
  • que tipos de estratégias de intervenção escrita é mais produtivo para o aluno?
  • como podemos contribuir para uma produção escrita de maior qualidade?
  • como corrigir uma redação, de modo a levar nosso aluno a progressos significativos na aquisição da escrita?

Afinal, até hoje dizemos aos nossos alunos que um dos principais motivos do seu marasmo em sala de aula do nível superior, o fato de ele não querer mais escrever, de não ter idéias fluindo para produzir um texto – todos esses aspectos são frutos da má estratégia do professor ao corrigir redações, principalmente nas séries iniciais. Será isso verdadeiro? Todas essas indagações fizeram-me realizar um trabalho de análise de redações escolares durante o tempo em que estive em Araraquara/SP, cursando o doutorado. Relato, a partir desse artigo, as minhas conclusões precedidas, é claro, de algum embasamento teórico.

Vamos pensar um pouco, primeiramente nas condições de produção das redações na escola.

Em primeiro lugar, acho que não é a correção de erros gramaticais que induzem o aluno a ser um produtor de bons textos. Acho, numa primeira tentativa de encontrar uma solução, que o que leva ao sucesso a correção de redação e leva o aluno a uma escrita qualitativamente melhor é exatamente a leitura que o professor faz dela. Leituras que tomam o texto todo como uma unidade de sentido são mais produtivas que as que focalizam apenas partes do texto ou unidades menores do que o texto. O que menos interessa, no momento, é a sua análise linguística. Não nos interessa, de modo algum, e aliás condenamos o estilo de correção que consiste em tingir de vermelho o texto e devolvê-lo ao aluno, dando fim ao processo nessa etapa. [Continuar lendo…]

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Sobre o livro: Como Corrigir Redações na Escola, uma proposta textual-interativa (Eliana Donaio Ruiz), leia o sumário e a apresentação.

Os buracos do espelho
Arnaldo Antunes
O Globo: 27/07/2009

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora