Linguagem coloquial e linguagem culta no ensino de português brasileiro

Publicado: fevereiro 18, 2014 em Linguística
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Nesta breve reflexão, exponho tópicos relacionados ao tratamento da linguagem coloquial e linguagem culta no ensino de português brasileiro. Dentre os tópicos contemplados neste texto estão: heterogeneidade da língua, influências das regras de escrita, adequação da linguagem, preconceito linguístico, distinção entre padrões culto/escrito, atividades de produção/reflexão linguística, contínuo de monitoramento, processos de gramaticalização, retextualização das modalidades de linguagem.

Norma culta charge-surfista
O ambiente de uma instituição de ensino constitui espaço ideal para se observar a convivência entre diferentes usos da língua. Conforme a sociolinguística laboviana, tal fato linguístico decorre de diversidade social, escolaridade, origem geográfica, isto é, decorre da heterogeneidade que particulariza a comunidade linguística de qualquer universidade, faculdade ou centro de ensino superior. Indo mais além, presumo que a convivência linguística tenha se intensificado nos últimos anos em decorrência da adoção do sistema de inclusão social para ingresso de estudantes.
Não deve ser difícil ouvir pelos corredores das instituições um conjunto de falas em certo contraste: “tu podes x tu pode”, “chegamos x chegamo”, “vina x salsicha”, “caRta com R aspirado x carta com r caipira”. O conjunto dessas falas representam variedades linguísticas, ou melhor, são amostras da realidade heterogênea, mutável e variável da fala. Apesar das diferenças sintáticas, morfológicas, lexicais e fonéticas, os usuários dessas variedades conseguem se comunicar sem dificuldades quando se encontram, quer pela linguagem coloquial, quer pela linguagem culta.
Difícil pode ser passar por cima de uma “confusão de conceitos” que, para Faraco e Tezza (no livro Prática de texto para estudantes universitários) levam à suposição de que a homogeneidade define a língua real. Segundo os dois linguistas, toda confusão vem das compreensões da língua apenas como código de escrita e da gramática enquanto fonte de regras corretas da língua, o que gramáticos tradicionais e leigos tomam como parâmetro para estimar o quanto um sujeito falante domina a linguagem culta. Subjacente a esse tipo de avaliação linguística está o preconceito de que só domina a linguagem culta quem fala exatamente conforme se escreve em registros documentais e literários, como se a linguagem espontânea ou coloquial resultasse de comportamento desviante do falante e fosse desprovida de regras.
Não é isto que sustenta, por exemplo, Heronides Moura no livro O direito à fala, em artigo intitulado “A língua popular tem razões que os gramáticos desconhecem” e diria que na esteira do normativismo colocam-se muitos falantes a discriminar usuários da língua na ilusão de que temos necessidade de usar a linguagem culta em todos os momentos de interação social. É nesse sentido que, na minha condição de professora de português brasileiro, estarei disposta a mostrar aos estudantes que a língua é falada antes de qualquer gramática publicada para prescrever regras e as diferenças existentes não representam desvios do padrão convencionado para a escrita, ao contrário, são variedades adequadas a diferentes usos, situações, motivos e necessidades.
Em A sombra do caos, Luiz Percival Leme Brito conscientiza quanto à força da atividade normativa nos ambientes letrados em decorrência da incorporação do prescritivismo pela tradição escrita, escola e todas as instâncias de prática linguística. É um comportamento usual em qualquer comunidade de fala, para determinar os usos adequados e valorar as formas linguísticas, recorrer a normas e atribuí-las à língua, pois a todo instante procuramos ajustar o que falamos, assim como julgamos os falares de outras pessoas.
Dentre os motivos que incidem no monitoramento da linguagem em uso, a sociolinguística variacionista de Labov elenca fatores de ordem geográfica, social, escolar (nível de contato com a cultura escrita ou letramento), situacional (onde, para quem, por que, quando e como falar). No entanto, o fato de o monitoramento ser usual não me isenta do papel de mediadora na desconstrução de julgamentos, se porventura ocorrerem em sala de aula no sentido de provocar exclusão social, que às vezes se torna quase imperceptível pela sutileza das atitudes e contrapõe a postura ética esperada de qualquer sujeito em formação para entrar no mercado de trabalho.
Outra confusão conceitual que vale a pena sublinhar recai sobre a indistinção entre norma da linguagem culta e norma da linguagem escrita. De modo geral, pode-se afirmar que a norma culta corresponde ao conjunto de regras da gramática prescritivista, enquanto padrão de língua culta ideal está presa à representação da escrita. Por outro lado, o autor de A sombra do caos defende que a norma da língua culta oral, representativa da fala usada em camadas de prestígio social, não traduz o padrão escrito, embora compartilhe algumas das regras de correção.
Já a norma explícita da língua escrita representa uma convenção social, reúne regras ortográficas, de concordância, regência e usos lexicais das variedades de prestígio, é o que se encontra em gramáticas escolares ou pedagógicas, dicionários, manuais de estilo e redação de jornais. Além disso, outro argumento apresentado por Brito para desfazer o equívoco é a contribuição das pesquisas de sociolinguística e gramática de língua falada na comprovação de que a norma da língua escrita não demonstra graficamente nenhuma modalidade oral nem aquela tomada por linguagem culta.
De posse dos conhecimentos e esclarecimentos mencionados até aqui, considero-me em condições de propor atividades de produção oral e escrita que explorem de maneira produtiva o inventário linguístico do aluno, começando com a valorização de sua linguagem coloquial ou vernacular, como denomina Labov, até chegar a produções típicas de linguagem culta. Algo que não pode faltar na sala de aula é a conscientização sobre os erros, cujo melhor tratamento é como diferenças entre variedades linguísticas. Essa postura pedagógica é sugerida por Bortoni-Ricardo na obra Educação em língua materna, visto que as diferenças refletem todo um contexto histórico e cultural, sendo inadmissível se tornarem alvo de exclusão e preconceito linguístico.
Em termos de produção oral, considero que as propostas de Faraco e Tezza dão conta não só a produção, mas também da reflexão sobre variações linguísticas. Destaco algumas atividades que adaptei a fim de comparar linguagens culta e coloquial, dentre elas, a realização de discussões em torno de amostras de fala em diferentes variedades e contextos interativos. Como mediador, o professor pode apresentar questões para a turma: avaliar a aceitabilidade das amostras como unidades constituintes do português brasileiro, estimar a adequação dessas falas quanto ao grau de formalidade, identificar prováveis causas para as diferenças, descrever a reação frente a uma fala inadequada no que diz respeito à situação de interação ou a uma fala de usuário de outra comunidade linguística.
Observações de como programas humorísticos exploram o trânsito entre linguagem culta e linguagem coloquial para provocar o riso é outro exemplo de atividade centrada no “contínuo de monitoração estilística”. Trata-se de escala que, para Bortoni-Ricardo, situa interações desde o nível de espontaneidade total (coloquial) até aquelas previamente planejadas que exigem mais atenção do falante (culta). Inclusive um desses programas pode ser exibido em sala para alimentar as reflexões.
Em outra etapa podem entrar atividades de reflexão sobre processos de gramaticalização da língua coloquial em sua modalidade oral, os quais mudam características sintáticas, semânticas ou discursivo-pragmáticas de elementos da língua (Weinreich, Labov e Herzog em Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística). Exemplificam tais mudanças alguns usos pronominais (a alternância entre “a gente” e “nós”), verbais (passagem de verbo pleno para verbo auxiliar, “vive cantando”, “anda fazendo”, etc.) e de deslocamento sintático à esquerda (em orações relativas: O teatro, eu não sei onde fica bilheteria dele/Eu não sei onde fica a bilheteria do teatro.)
Quanto à produção escrita, parece-me válido desenvolver propostas que derivem daquelas realizadas com ênfase na produção oral. Como justificativa da integração, vislumbro a oportunidade de relacionar as configurações possíveis entre as modalidades. Ainda que a escrita não represente a língua oral, cabe o trabalho de retextualização da língua falada para a língua escrita, sugerido por Marcuschi em Da fala para a escrita por propiciar uma visão abrangente acerca do processamento diferenciado de textos em linguagens coloquial e culta, ambas com as correspondências de oralidade e escrita.
No caso do texto oral, temos como característica principal a elaboração online em que reformulações, interposições e expansões ocorrem simultaneamente à produção, enquanto que no texto escrito não há todas essas operações nem sempre no mesmo momento de criação, uma vez que o caráter parcialmente estático do texto escrito (exceto hipertexto por sua volatilidade) possibilita revisões posteriores. Quais seriam as propostas de produção escrita? Produzir um relatório sobre as discussões, escrever uma peça de teatro em que personagens usem variedades coloquiais e cultas, produzir comentários sobre publicações na mídia que se reportem a questões de linguagens culta e coloquial, observando se há exposição de opiniões equivocadas nas publicações.
Enfim, propostas diversas podem ser idealizadas com o objetivo de tornar o aluno um sujeito consciente quanto à heterogeneidade da língua e de todas as implicações dessa conduta. Há como avaliar o desenvolvimento dessa postura pela manifestação da aceitabilidade, pela incorporação da noção de adequação linguística e pelo aprimoramento da competência linguística, uma consequência do contato com produções em níveis diversificados de linguagem coloquial e linguagem culta.

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