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Um momento da aula de português brasileiro em que dificuldades de aprendizado aparecem bastante é durante a produção de texto, até mesmo para alunos que, a princípio, não requerem atendimento especial. Para essa situação, considero viável a aplicação da teoria da “inteligência plena”, conforme propõem Sternberg e Grigorenko (2003, p. 113), pela qual a adequação das atividades ao que o aluno tem de melhor torna-se uma habilidade a ser buscada, por exemplo, valorizando mais o conteúdo do texto do que a correção ortográfica e gramatical, que requerem um trabalho mais específico para aprendizado.

Um exemplo de atividade apresentado por Sternberg e Grigorenko (2003, p. 115) consiste na produção de poesias com a opção de fazer um haicai (estilo de poema japonês com 3 linhas) para quem não consegue escrever muito. Imagino que poderia ser também uma poesia concreta, que explore a forma e o significado das palavras, sendo indicado para quem gosta de desenhar e brincar com o sentido das palavras. Desse modo, a atividade não se restringiria ao formato convencional de poesia em estrofes com 4 versos ou linhas, talvez melhor alternativa para quem consegue escrever com alguma facilidade.

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No que diz respeito à prática pedagógica, passei pela experiência de auxiliar dado grupo de alunos do 9º ano (três eram supostamente hiperativos e um apresentava déficit de atenção) em atividade de produção de texto opinativo. Esses estudantes não queriam fazer a atividade porque: não gostavam de escrever, não sabiam como começar nem relacionar uma ideia com outra para expressar suas opiniões de um jeito organizado. A dificuldade eu já sabia qual era e a capacidade de cada um também foi identificada, pois todos apresentavam boa competência comunicativa em linguagem falada, só faltava ajuda para expressarem-se no papel em linguagem formal e incentivo para que se mantivessem focados na tarefa.

A estratégia foi atender tanto individualmente, quanto em duplas, enquanto o restante da turma produzia. Primeiramente conversamos sobre o tema proposto de modo descontraído para que conhecessem opiniões diferentes, comparassem com alguma vivência anterior e formulassem oralmente certas conclusões sobre o assunto, até que percebessem qual era a própria opinião. Houve momentos mais complicados em que precisei conduzir mais o processo de escrita, sugerindo ideias relacionadas ao tema, apresentando palavras-chaves para estimular a criatividade e a associação com outras informações já conhecidas. Aos poucos foi saindo o texto, demorou bastante, construímos algumas frases juntos e outras por conta dos alunos. Foi exigido mais envolvimento da professora, mas foi bom ver o quanto ficaram contentes e motivados por receberem esse tipo de atenção.

No relato desse processo de ensino é possível reconhecer a atuação conjunta dos princípios da inteligência plena, conforme destaca Mendonça (2014, p. 18) ao abordar a teoria concebida por Robert Sternberg. Em outras palavras, houve a realização de: análise com a discussão e comparação de ideias adequadas ao tema do texto; criatividade quando surgiram ideias a partir das palavras-chaves sugeridas e conclusões a partir do que foi conversado; prática com a escolha de determinado vocabulário, formulação de frases e expressão por escrito de opiniões.

 

Referências:
MENDONÇA, Fernando Wolff. Dificuldades de aprendizagem e distúrbios de aprendizagem: leitura, escrita e matemática. Maringá – PR: UniCesumar – NEAD, 2014.

STERNBERG, Robert J.; GRIGORENKO, Elena L. Inteligência plena: ensinando e incentivando a aprendizagem e a realização dos alunos. Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artmed, 2003.

Nesta reflexão, tento abordar aspectos a serem considerados pelo professor de português brasileiro que se propõe a relacionar literatura e cultura na sala de aula em detrimento de uma prática limitada a leituras superficiais e descontextualizadas do texto literário. Para tanto, volto-me a aspectos como: materialidade linguística, conexão entre literatura e língua, linguagem literária, significação cultural, patrimônio cultural, leitura e produção, história sociocultural, intra e intertextualidade, abordagens de leitura e responsividade.

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Crédito: © ra2 studio

O uso de textos literários no ensino de língua materna é visto como de maior importância por José Luiz Fiorin em seu artigo “Linguística e pedagogia da leitura” (2004), publicado na revista Scripta. A relevância apontada pelo linguista recai muito mais sobre a materialidade linguística do texto literário do que sobre questões estéticas, que ficariam em segundo plano. Aqui se tem a leitura focada na língua em uso, acima da beleza das palavras escolhidas pelo escritor.

De certo modo alinhada com Fiorin, no livro “O texto na sala de aula” (2011), Ligia Leite atribui ao avanço dos estudos em Linguística e Teoria Literária a possibilidade de reconhecer que a literatura trabalha com as palavras e, por isso, quem estuda literatura também estuda língua. Particularmente, identifico-me com essa posição na condição de professora de português brasileiro (PB), cuja especialidade é a Linguística Textual.

Pelo mesmo motivo apresentado, Leite (2011) produz sua crítica ao ensino compartimentado de língua e literatura, como se as duas disciplinas fossem saberes desintegrados. A autora inclusive pontua que, dentre todos os usos possíveis, a linguagem literária é uma das opções, assim como o uso referencial no cotidiano, o uso culto ensinado nas escolas. Outra observação interessante de Leite concerne à construção da verossimilhança nas falas de personagens de ficção, efeito buscado pela literatura no tocante a especificidades (classe social, escolaridade, cultura, idade, etc.) da linguagem oral.

Nas palavras de Fiorin (2011), o texto literário mobiliza todas as dimensões e funções da linguagem e com isso tem potencial de tratar da realidade tal como é ou subvertê-la. Ensinar PB com textos literários nessa perspectiva implica uma compreensão macrossemiótica gerada por simbologias culturais acerca de sistemas de significação: do mundo natural e das línguas naturais. Neste ponto, através de Fiorin dialogo com a teoria greimasiana para sustentar que a literatura e outras artes funcionam como “reservatório de signos”, sendo multiplicadores de significação.

Para explorar a significação de textos literários na aula de PB, por exemplo, não cabe apenas tratá-los como patrimônio cultural, objeto de história literária ou obra consagrada pela crítica. Segundo Leite (2004), essa abordagem traduz uma tradição escolar de visão elitista, em que o ensino mantém-se sob o molde da preservação e da recepção estática e, a meu ver, distancia-se da construção do conhecimento e do senso crítico. A descrição de tal prática não deveria fazer parte de concepções e interesses de qualquer instituição de ensino, porque não agrega nada ao desenvolvimento social de um cidadão, de uma comunidade.

O que cabe no ensino de PB é a leitura crítica e a produção de textos com fins literários. De modo inegável, os dois processos solicitam a articulação de elementos intra e interdiscursivos. Assim coloca Fiorin (2004) quando se reporta à pedagogia da leitura e redação, que entendo como o conjunto de métodos e teorias necessários à interpretação/produção textual, conjunto alheio à existência exclusiva de fonte de inspiração para a escrita do aluno. Isto posto, reconheço que o envolvimento com o texto literário não prescinde de inspiração nem depende somente dela. Considero que a interação competente com essa variedade de texto e linguagem é passível de desenvolvimento, pois depende na verdade do acesso ao conhecimento de mundo ou à história sociocultural.

De acordo com a exposição de Fiorin (idem), o trabalho pedagógico com o texto literário conjuga teorias do texto e do discurso com a finalidade de explicitar os sentidos ou as intenções da obra literária. Tem papel agregador nessa proposta, dentre outras teorias, fundamentos da Análise do Discurso (AD) de linha francesa, Semiótica francesa e Linguística Textual. Vejamos brevemente quais pontos das teorias podem interessar.

No campo da AD francesa, as noções de heterogeneidade constitutiva de Bakhtin (discurso indireto depreensível em todo texto) e heterogeneidade mostrada de Authier-Revuz (marcada explicitamente por aspas, discurso direto, etc.; não marcada por discurso indireto livre, alusões, ironias, etc.) habilitam o leitor a acessar os discursos subjacentes ao inventário cultural que constituem o sentido do texto literário. Assim temos o enfoque da interdiscursividade.

A Semiótica francesa, representada por Greimas e seguidores, oferece preceitos para o estudo intradiscursivo do texto literário. Por este viés teórico, há condições para tratar da estruturação textual, organização narrativa, temas e figuras, actorialização (estabelecimento da pessoa, ator), temporalização (relações de tempo na enunciação), espacialização (determinação do espaço), só para citar algumas opções de estudo que levariam ao reconhecimento dos enquadres culturais criados no texto literário.

Com a Linguística Textual, é pela dimensão de construção da coerência e coesão que se pode abordar o texto literário. Em “As cadeias do texto”, Roncarati (2010) trata da reconstrução de cadeias referenciais, um recurso facilitador da leitura e interpretação. Ao cercar os movimentos de introdução, preservação, continuidade, reconfiguração e retomada de referentes textuais, verifica-se a trajetória evolutiva do texto em termos de sequenciação lógica ou disposição de ideias minimamente correlacionadas (a coerência) e de sequenciação referencial ou progressão do fluxo de informações (a coesão). Pode parecer complicada a leitura de texto literário com foco na construção da referência, todavia, acrescento que com olhar voltado para expressões de língua natural, conforme a proposta de Fiorin (2004), o aluno pode chegar à significação do mundo natural onde as culturas são originadas.

No caso da obra de ficção Utopia Selvagem, de Darcy Ribeiro, a aplicação das noções da AD contribuiria para o reconhecimento da relação dialógica com o romance Macunaíma, de Oswald de Andrade, conforme apontei no artigo “A brasilidade e a identidade latino-americana em Utopia Selvagem” (2009), publicado na revista Travessias. Da semiótica greimasiana, através das noções concernentes ao estabelecimento de pessoa-tempo-espaço poderia ser guiada uma leitura de modo a observar os usos de formas pronominais, verbais, adverbiais e circunstanciais que, de algum modo, atuam no enredo da narrativa de Ribeiro. Como última proposição prática, direcionada por teorias do texto, sugiro o exercício de refazer cadeias referenciais para identificação do perfil dos personagens da obra do antropólogo.

De que maneira então trabalhar produtivamente com o texto literário no ensino de PB sem perder de vista os aspectos culturais que compõem os sentidos desse tipo de produção? De um lado, digo que é na perspectiva da recepção/compreensão ativa e da reação/produção responsiva, seguindo a teorização bakhtiniana. De outro lado, é através da leitura crítica, relacionada a outras fontes textuais e enquadres culturais, orientada pelo professor para o alcance de interpretações aceitáveis dos textos. É também por meio da produção livre de outros textos sob propósitos literários, demonstrando compreensão consciente, seja pela adesão, seja pela contraposição, em relação ao sentido geral do texto literário que serve de referência inicial.

Aproveitando o gancho do assunto do momento – a Copa do Mundo – experimentei utilizar uma canção que tratasse de futebol e do significado desse esporte para os brasileiros, para então estimular discussões nas turmas de 9º ano a respeito de estereótipos e clichês que estão associados ao tema e, consequentemente, viabilizar a percepção crítica de como é construída nossa identidade nacional. Além do tema transversal, tinha como objetivo explorar usos de linguagem informal e orações subordinadas adjetivas na letra da canção.

A canção escolhida foi “País do Futebol”, um rap composto por MC Guimê, a qual foi apresentada em sala por meio de videoclipe disponível no site Youtube. A opção pareceu interessante porque o vídeo inclui cenas de um filme gravado em favelas do Rio de Janeiro e São Paulo (Pelada, futebol na favela, dirigido por Fred Ouro Preto), explora diversas realidades sociais e expõe depoimentos pessoais acerca de possibilidades de ascensão social no Brasil para quem faz parte de classe social menos favorecida economicamente.

Segue o vídeo reproduzido em sala de aula:

Link de impresso com letra da canção.

Exemplos de atividades propostas:

1) A canção “País do futebol”, composta por MC Guimê, retrata realidades diferentes, que tomam como possibilidade de transformação social (ou melhoria de vida) a construção de carreira profissional na área do esporte, como o futebol,  e das artes. Você concorda com essa percepção? Você considera que somente o futebol e a vida artística são caminhos para superar a pobreza na sociedade brasileira, conforme a mídia divulga frequentemente? Exponha sua opinião através de um breve comentário que responda aos dois questionamentos.

2) Retire do texto partes em que o compositor trata de situações de ascensão social ou mudança de classe social.

3) O que o compositor quer diz através dos seguintes versos?

No flow**, por onde a gente passa é show
Fechou, e olha onde a gente chegou
Eu sou… País do Futebol Nego
Até gringo sambou, tocou Neymar é gol!

Podemos afirmar que MC Guimê fala em nome de um grupo que mudou de vida ou conquistou algo importante? Se sim, indique que grupo é esse e o que foi conquistado. (Para ampliar sua compreensão, procure os significados de gírias e termos estrangeiros utilizados.)

4) Observe este trecho da letra da música: “Ô minha pátria amada e idolatrada“. Você conhece outra composição musical que contenha um trecho parecido com este? Qual?

5) A letra do rap apresenta diversos termos e expressões que são próprios de modalidade informal do português brasileiro. Explique o significado ou como você entende as expressões abaixo destacadas:

a- “por onde a gente passa é show

b- “De nave do ano tô na passarela”

c- “Maloqueiro

d- “Pra fazer a quebrada cantar “memo””

6) Vamos recuperar alguns dizeres do vídeo?
– Para isto, indique quem diz cada uma das orações adjetivas abaixo (EMICIDA – NEYMAR – MC GUIMÊ).
– Circule os pronomes relativos e sublinhe seus antecedentes.

a- “Isso é uma coisa que eu sempre acreditei.”

b- “A música foi a ferramenta que eu encontrei pra mostrar pro mundo a minha verdade.”

c- “A gente tem que acreditar no sonho que a gente quer.”

d- “E a menina que sonha em ser uma atriz de novela”.

e- “Tu que venceu a desnutrição”.
** Palavra utilizada no contexto linguístico do rap e grafite, a qual pode ser entendida como “prazer em executar aquilo que se propõe a fazer”. Leia mais em: O FLOW (Blog Grafite em Movimento BH).

 

O material aqui reunido representa um conjunto de textos em diferentes gêneros discursivos para através de seus diversos temas transversais oferecer uma contextualização viável ao trabalho com o conteúdo gramatical “orações subordinadas” no 9º ano do Ensino Fundamental. A atualidade dos assuntos, o humor e a abertura para discussão de questões da juventude podem servir como recursos para desenvolver aulas um pouco mais interessantes.

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TIRA ARMANDINHO SUB TIRA ARMANDINHO TIRA OR SUBST TIRA SUBORDINADAOR SUB 8

1. Linhas gerais da proposta de estudo

As implicações de novas tecnologias no contexto social são inegáveis, sobretudo, ao considerar as opções para estabelecer interações sociais surgidas desde a disseminação de inovações como a internet. Na ótica de Crystal (2005), o advento desse novo meio de comunicação afetou toda a sociedade e dispõe de caráter revolucionário concernente a aspectos linguísticos, tecnológicos e sociais.

Ao atribuir um caráter revolucionário à internet, o linguista irlandês conduz à percepção de mudanças de ordem linguística verificadas, por exemplo, em bate-papos virtuais, fóruns de discussão, e-mail. Nesses eventos de comunicação, realiza-se a prática social de estabelecer vínculos (pessoais, comerciais, educacionais, profissionais, etc.) através de uma prática discursiva: a troca de textos escritos em diversos gêneros com traços de oralidade e associados a elementos visuais e sonoros.

A inovação de tal mídia deve-se ao status ser a maior rede mundial de computadores, para Crystal, a principal mudança tecnológica, além do compartilhamento de dados entre computadores, cuja velocidade de processamento depende da configuração atualizada de equipamentos e programas específicos. Por sua vez, o dinamismo e a interatividade, propiciados pela conexão com a rede mundial, estendem-se à comunicação interpessoal feita em ambiente digital ou ao que a literatura linguística e de teorias da comunicação propõem como comunicação mediada por computador (CMC).

Na perspectiva social, o mesmo linguista ressalta mudanças comportamentais decorrentes da CMC, pois, em interação à distância, pessoas contatam amigos, clientes, professores, familiares e inclusive desconhecidos do mundo inteiro. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)[1] confirmavam em 2005 a reconfiguração do comportamento social, exemplificada por: uso concentrado de internet entre jovens de 15 a 17 anos (33,9%), a predominância de usuários pertencentes à população ocupada e estudantil (39,1%) e a constatação de que a comunicação com outras pessoas e educação/aprendizado eram na época as duas principais finalidades de acesso à internet.

Partilhamos da ideia de que a interação social na internet se dá pela troca de textos escritos em diversos gêneros, dentre os quais, destacamos o gênero depoimento publicado na versão brasileira do site de relacionamentos Orkut. Inclusive é possível encontrar em textos dessa variedade traços de outros gêneros digitais, como e-mail, blog e bate-papo virtual. Foi essa consideração empírica que conduziu ao interesse de verificar o comportamento dos depoimentos do Orkut, enquanto gênero que integraria o conjunto de gêneros textuais identificados em situação emergente no contexto da tecnologia de comunicação digital. Para tanto, situamos inicialmente nossa proposta na perspectiva de estudos vislumbrada por Marcuschi (2005: 13):

Os gêneros emergentes nessa nova tecnologia são relativamente variados, mas a maioria deles tem similares em outros ambientes, tanto na oralidade como na escrita. Contudo, sequer se consolidaram, esses gêneros eletrônicos já provocam polêmicas quanto à natureza e proporção de seu impacto na linguagem e na vida social. Isso porque os ambientes virtuais são extremamente versáteis e hoje competem, em importância, entre as atividades comunicativas, ao lado do papel e do som. Em certo sentido, pode-se dizer que, na atual sociedade da informação, a Internet é uma espécie de protótipo de novas formas de comportamento comunicativo. Se bem aproveitada, ela pode tornar-se um meio eficaz de lidar com práticas pluralistas sem sufocá-las […]

Acrescentamos que o interesse em promover o debate na comunidade acadêmica sobre a interferência de novas tecnologias digitais em manifestações linguísticas decorre da possibilidade de examinar um aspecto significativo do processo de reformulação cultural pelo qual passa a sociedade contemporânea, cujo agente principal é a internet. Assim, as mudanças comportamentais – de cunho social e linguístico – são observadas como alterações sujeitas a aspectos da cibercultura, na acepção de Lévy (1999: 17): “o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamentos e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”[2].


[1] Esses dados constam do suplemento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD de 2005 sobre acesso à Internet e posse de telefone móvel celular para uso pessoal, um levantamento realizado pelo IBGE em parceria com o Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.bra.
[2] Ciberespaço é o espaço da Internet, segundo Crystal (2005: 77): “um mundo de informação, presente ou possível, em forma digital (chamado anteriormente de information superhighway)”.

Apresento a síntese da pesquisa que desenvolvi com textos de depoimento do site Orkut. A dissertação foi defendida na UFPR em 2011. O título completo é “O que você tem a dizer sobre (…)? Expressões nominais indefinidas no depoimento do Orkut.”

RESUMO: Esta pesquisa vincula-se à proposta de estudo da Linguística Textual e baseia-se em pressupostos sociocognitivistas e sociodiscursivos para abordar o tema da recategorização lexical marcada por expressão nominal indefinida (ENI). Trabalhamos com um corpus composto de textos de depoimentos produzidos e publicados em páginas de usuários brasileiros do site de relacionamentos orkut. A recategorização lexical consiste na remissão a referente textual ou objeto de discurso já introduzido na memória discursiva através de expressão referencial que o reapresenta sob outra perspectiva, sob nova categoria. O objetivo da pesquisa é examinar o funcionamento de recategorizações lexicais com ENI em depoimentos – espécies de declarações pessoais sobre sujeito com o qual se estabelece vínculo social no contexto real ou virtual – que circulam na versão brasileira do site orkut, o software de suporte desse gênero discursivo. Definimos como hipótese que a recategorização com ENI parece relacionada a características do depoimento do orkut de modo semelhante ao que já se observou em ocorrências de outros tipos de anáfora textual. A hipótese norteia-se não só pela observação de particularidades do gênero como a seleção recorrente de ENIs, o caráter lacunar e fragmentário, o propósito comunicativo, o suporte, mas define-se também pelo pressuposto de envolvimento constante de ENIs em recategorizações lexicais (CUNHA LIMA, 2004) e pela necessidade de estudar aspectos que condicionam o funcionamento da recategorização lexical em certos gêneros discursivos (MATOS, 2004). Realizamos uma análise qualitativa de 34 textos pertencentes a único gênero e, para caracterizar as recategorizações com ENI, levamos em conta as configurações das cadeias referenciais, das estratégias referenciais, das funções argumentativas e dos núcleos nominais das ENIs. Os dados evidenciam que as recategorizações com ENI combinam-se com outras estratégias referenciais, como anáfora com relação meronímica, encapsulamento, rotulação metaenunciativa, tematização-remática; prevalecem dentre as ocorrências de tematização-remática com frases nominais; admitem variações na operação que podem adquirir traços metafóricos e de parcialidade; têm como principal função argumentativa a avaliação, destacando-se também as funções de glosa e estético-conotativa; compõem-se de núcleos nominais (hiperônimos, termos genéricos) que junto com os determinantes indefinidos fortalecem a especificação da categoria ou classe atribuída ao objeto de discurso. Por um lado, concluímos que a recategorização lexical com ENI constitui um recurso produtivo à disposição do enunciador que tem um espaço reduzido a 1024 caracteres para escrever um depoimento no site orkut. Por outro lado, a seleção de ENIs com função integradora de anáfora e predicação direciona a publicação de dizeres concisos e com potencial para agregar uma orientação apreciativa às descrições de que fazem parte.
Palavras-chave: Anáfora textual. Depoimento. Expressão nominal indefinida. Recategorização lexical.

 

RÉSUMÉ: Cette étude est lié à la perspective adoptée par la Linguistique Textuelle et est basé sur les principes sociocognitivistes et sociodiscursives. Le sujet de recherche est la recatégorisation lexicale qui est marquée par l’expression nominale indéfinie (ENI). Nous travaillons sur un corpus formé de témoignages produits et publiés dans les pages des utilisateurs brésiliens du site de réseau social orkut. La recatégorisation lexicale est un processus par lequel l’expression anaphorique se reporte a un référent textuel ou un objet-de-discours déjà introduit dans la mémoire discursive à travers une expression référentielle qui le réintroduit sous un autre angle, sous une nouvelle catégorie. Cette recherche a pour but d’examiner le fonctionnement des récategorisations lexicales avec des ENIs dans les témoignages – des types de déclarations personnelles sur un sujet avec lequel l’énonciateur établit des liens sociaux dans le contexte réel ou virtuel – qui circulent dans la version brésilienne du site orkut, le logiciel de support de ce genre discursif. Nous posons comme hypothèse de recherche si la recatégorisation avec l’ENI semble liée aux caractéristiques des temóignages du site orkut d’une manière similaire à ce qui a déjà été observé dans les occurrences d’autres types d’anaphore textuelle. L’hypothèse est basée non seulement sur l’observation des particularités du genre telles que la sélection récurrente de l’ENI, le caractère lacunaire et fragmentaire, l’objectif communicatif et le soutien, mais également sur la présupposition de l’implication constante de l’ENI dans les recatégorisations lexicales (CUNHA LIMA, 2004) et sur la nécessité d’examiner des aspects qui influencent le fonctionnement des recatégorisations dans certains genres discursifs (MATOS, 2004). Notre étude se fonde sur l’analyse qualitative de 34 textes appartenant à un genre donné et nous prenons en compte les paramètres des chaînes référentielles, des stratégies référentielles, des fonctions argumentatives et des têtes nominales des expressions afin de caractériser les recatégorisations avec l’ENI. Les données montrent que les recatégorisations avec l’ENI : se combinent avec d’autres stratégies de référence, comme anaphore avec la relation méronymique, l’encapsulation, l’étiquetage méta-énonciatif, la thématisation rématique; prédominent parmi les occurrences de thématisation rématique avec des phrases nominales; admettent des changements dans l’óperation qui peut prendre des traits métaphoriques et de partialité; ont pour principale fonction argumentative l’évaluation, en soulignant également les fonctions explicative et esthétique-connotative; se composent des têtes nominales (hyperonymes, termes génériques) qui, avec les déterminants indéfinis, renforcent la spécification de la catégorie ou classe attribuée à l’objet-de-discours. D’une part, nous concluons que la recatégorisation lexicale avec l’ENI est une ressource productive à la disposition de l’énonciateur qui a un espace réduit à 1024 caractères pour écrire un témoignage sur le site orkut. En outre, la sélection des ENIs avec fonction intégrée de la prédication et de l’anaphore dirige la publication de paroles concises étant possible d’ajouter une orientation reconnaissante pour les descriptions dont elles font partie.
Mots-clés: Anaphore textuelle. Témoignage. Expression nominale indéfinie. Recatégorisation lexicale.

Já discuti anteriormente a questão referente ao incômodo causado pela presença de médicos cubanos no Brasil, foi logo depois do lançamento do programa federal Mais Médicos. Percebi que o debate é profuso no momento em que esses profissionais chegam em nosso país. Só para ter uma ideia, fiz uma busca simples através do Google, digitei “médicos cubanos” e o resultado foi o seguinte:

Resultados da pesquisa por "médicos cubanos"

Resultados da pesquisa: mais de 2 milhões de referências

Sinceramente não sei o que é pior: duvidar da competência desses profissionais ou esquecer que em muitos pampas, sertões, cerrados, planaltos e matas do Brasil, onde o playboy e a patricinha recém-formados jamais colocarão os pés, também existem cidadãos com direito à saúde pública?

Compartilho o conteúdo de duas cartas ao leitor, um gênero discursivo de inegável orientação argumentativa, as quais foram publicadas no jornal O Metro na edição de Curitiba e motivaram a escrita deste breve artigo em que manifesto meu repúdio às manifestações alienadas e elitistas contra a a atuação dos médicos cubanos no Brasil.

Recorte do jornal

Política para quem precisa de política e médicos para quem nunca teve

Como linguista, atraiu-me bastante na primeira carta a referência ao dizer de Simão quanto a “médicos humanos”, escolha linguística que expressa a posição de alguém engajado no apoio ao atendimento de interesses sociais, de alguém que não se fixa no fundo do próprio umbigo. Já na segunda carta, considero ótima a sugestão do leitor, que acima de tudo demonstra entender o que é equidade. Só discordo de uma coisa, a prova de conhecimento de língua deveria ser aplicada para os brasileiros e deveria ser um texto dissertativo sobre o comprometimento de cada um com a saúde.

Eu cresci junto com essa história, sou filha de professora da rede pública estadual, estou perto dos 40 anos e a minha impressão é que a valorização do trabalho dos professores gaúchos parece ter virado lenda! O jeito é fazer piada como na charge de Latuff. Pode ser que mudando o gênero textual se consiga ao menos sinalizar que enquanto esse “tempo feio” não mudar haverá sempre a previsão de dias de luta pela melhoria, seja por meio de palavras, seja por meio de ações.

Latuff Cartoons

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Resumo da comunicação

Resumo da comunicação

Realizadores do evento

Ao consultar a ficha catalográfica de tradução de um livro de Charles Dickens, percebi que o tradutor optou pela palavra “esperanças” no lugar de “expectativas”. Refiro-me à obra Great Expectations, cuja tradução do título para o português brasileiro foi Grandes Esperanças. Eis uma questão de sinonímia e tradução,  geradora de discussões do tipo até que ponto uma palavra dá conta do sentido evocado por outra, qual a proporção de alcance do mesmo campo semântico, repito do mesmo!?!?

Difícil saber, uma vez que a equivalência perfeita de significado não é uma propriedade inerente às relações de sinonímia, ou seja, sempre vai escapar ou faltar um traço semântico na operação de troca entre termos sinônimos. Na edição 81 da Revista Língua Portuguesa, o linguista José Luiz Fiorin coloca que: “Estender o enunciado usando muitos sinônimos ajuda a dar ênfase ao sentido, mas realça a inexistência de sentidos equivalentes perfeitos entre as palavras.” Fazer isto dentro de um texto sem critérios é correr o risco de mudar alguma coisa na sua progressão, porque a construção de sentidos depende muito da significação dos itens linguísticos que são selecionados pelo produtor.

As duas palavras compartilham o significado de espera, fora isto as definições lexicais apresentam variações, porém não vou demonstrá-las aqui, vou deixar a verificação a cargo de cada leitor. Embora esse aspecto da tradução tenha surtido em mim a reflexão que expus, a coisa que mais me atraiu na obra inglesa foi o singelo começo do capítulo 1:

“O sobrenome da família do meu pai era Pirrip, e o meu nome de batismo, Philip, mas o máximo que minha língua infantil conseguia articular era Pip. Assim, passei a chamar-me Pip, e passaram a chamar-me Pip”. (…)

O formato das letras no túmulo de meu pai dava-me uma ideia estranha de que fora ele um homem honesto, robusto, moreno, de cabelos negros encaracolados. Dos caracteres  e do estilo da inscrição lapidar “E Também Georgiana, Esposa do Acima Referido”, tirei a conclusão infantil de que minha mãe era sardenta e enfermiça. (p. 9)

A referência do escritor ao período de aquisição da língua materna do protagonista, tão bem colocada no texto de ficção para marcar o início do percurso narrativo de Pip, foi o motivo determinante para minha decisão de levar o livro comigo.

Imaginem a situação, eu estava numa livraria e de repente um livro em especial prendeu minha atenção por sua encadernação em estilo antigo, capa em tecido roxo com desenhos de folhas,  marcador de páginas em fita de cetim, folhas em papel bem fino. Quase comprei só por causa da capa, admito, e é até ridículo dizer isso a respeito de um clássico da literatura, um clássico até agora fora de meu campo de interesse.  Entretanto tudo mudou depois que abri aquela capa roxa e li o começo da história, foi apaixonante!! A escolha do livro assumiu outro sentido, bem significativo para mim neste exato momento em que me preparo para desenvolver uma pesquisa na área de aquisição da linguagem. Assim, as pontas desconexas de minha aventura pela livraria se encontraram.

O livro roxo de Pip

O livro roxo de Pip

Por fim, o trailler de uma versão cinematográfica da obra literária, infelizmente sem a singeleza do início do texto de ficção.

Referências:
DICKENS, Charles. Grandes esperanças. Trad. José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. São Paulo: Abril, 2010. 672p.
FIORIN, José Luiz. A clonagem de sinônimos. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, n. 81, 2012.