Arquivo da categoria ‘Piadas Linguísticas’

Na dúvida entre a poesia e o humor, amontoei umas palavras para falar dos dois ao mesmo tempo. Assim veio esta poesia com pretensão de piada:

riso

A poesia da piada
tem rima e risada
de português,
de loira,
do Joãozinho,
de internetês,
da presidenta,
do Ronaldinho.
A poesia dá piada,
sem rir dá nada,
dá conversa fiada,
dá verso com gargalhada.

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PIADA LINGUÍSTICA 2007

De modo geral, a mídia presta o desfavor de disseminar a ideia de que “fala bem” a língua quem fala conforme as regras da língua escrita ou usa um vocabulário “difícil”, “rebuscado”. Ninguém precisa exclusivamente de tais recursos para conseguir se comunicar e ninguém fala “bem ou mal” a sua língua materna. O que se pode afirmar é que há usuários mais ou menos competentes, só isso. E sob o intuito de formar opiniões, em algumas vezes a mídia tem disseminado julgamentos negativos sobre a competência linguística dos falantes, confundindo a cabeça de todo mundo ao colocar fala e escrita no mesmo ponto de observação. Fazer o quê? O linguista é sempre a último sujeito consultado quando a mídia se propõe a falar da língua, pois a preferência é por outros “pseudo-especialistas”, como jornalistas, escritores, gramaticistas…

O curioso é que se o assunto for saúde, médicos são entrevistados, se for futebol, jogadores e técnicos são procurados, se for lei, advogados são consultados. Agora, quanto à língua, chama qualquer um!! Na verdade, é até melhor que nem consultem linguistas mesmo, porque no final das contas as concepções da Linguística acabam distorcidas. Volta e meia vejo a divulgação de discursos sobre “o caos” que poderia se estabelecer se passássemos a respeitar os diferentes jeitos de falar das pessoas ou ainda a perguntinha redutora de opinião: “então quer dizer que pela Linguística pode tudo?”.

Falta ainda atingir a consciência de que as regras de escrita são ensinadas na escola  simplesmente para que possamos compartilhar um padrão mínimo e comum de língua escrita e através dele ter condições de interagir como cidadãos na sociedade letrada, que formaliza boa parte de seus atos por meio de produções escritas. Falta compreender que existem momento e local adequados para usar as variedades da língua. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, é nesse sentido que apontam os parâmetros curriculares nacionais (PCNS) para o ensino de português, porém nem todos os profissionais envolvidos conseguem trabalhar dessa forma, muitas vezes porque entendem a língua como sistema estático a ser preservado e sobretudo pelo desconhecimento da teoria linguística que fundamenta os PCNS.

No meu caso, como professora de português, com algum conhecimento de Linguística, e autora deste blog,  não faria o menor sentido escrever aqui em um padrão coloquial, técnico demais ou regional, porque não me disponho a estabelecer “o caos” conforme a mídia insiste em atribuir ao trabalho do linguista. Mais do que isto, quero ser compreendida pelo maior números de leitores e entendo que o emprego da variante padrão é justificável neste contexto. As minhas escolhas são bem diferentes em interações familiares, nos bilhetes que escrevo para meu filho, nas conversas informais (escritas) através de redes sociais e mesmo nos comunicados redigidos ou oralizados por mim em meu ambiente de trabalho. No blog busco manter certa credibilidade como autora diante do público a que me dirijo e por isso assumo a necessidade de manter determinada postura não só como usuária, mas também como estudiosa da língua.

Além do mais, se cada pessoa desenvolvesse e usasse regras de escrita próprias ou se limitasse a regras em desuso ou obsoletas para falar e escrever, as interações e a compreensão seriam dificultadas. É com a finalidade de possibilitar a comunicação que se estabelecem padrões para a variedade escrita de uma língua, os quais não deveriam ser confundidos com as diferentes variedades de fala. O emprego adaptado das variedades da língua às situações, ao público e às necessidades comunicativas, dentre outros aspectos, demonstra habilidade e conhecimento linguístico. Refiro-me a uma flexibilidade a ser desenvolvida por muitos de nós, a qual passa primeiro pela compreensão e depois pelo abandono de preconceitos linguísticos. Preconceitos que, assim como muitos outros julgamentos prévios, são consequência do culto a valores burgueses, dentre os quais, está também o consumismo ilustrado na tira de Luis Fernando Veríssimo e o desprezo pelos cursos de Letras e Linguística, abordado no artigo Afinal, pra servem os cursos de Letras e Linguística?

por Chico Viana

– Pai, o professor baixou a nota da minha redação porque usei “mormente” em  vez de “sobretudo”.
– Bem feito! Eu lhe disse para não sair desprotegido nesse tempo frio!

Levei esse diálogo para a classe porque um aluno tinha usado “mormente” numa redação. Foi nesta passagem: “As manifestações que tomaram conta do Brasil deviam interessar mormente aos excluídos.”

“Mormente” é o mesmo que “sobretudo”, de modo que o estudante não falhou quanto à semântica; apenas se mostrou um tanto pedante. A palavra que ele escolheu tem um ranço formal, bacharelesco, que afasta ou desorienta o leitor comum. Uma prova disso é a resposta que o pai deu ao filho.

O diálogo acima é uma anedota. Como geralmente ocorre nos textos de humor, o riso decorre de uma confusão de sentidos – no caso, a confusão que o pai faz entre dois homônimos: “sobretudo” é advérbio e também substantivo (neste caso, significa “casaco que serve de proteção contra o frio e a chuva”).

Mas não bastou isso para gerar a ambiguidade que levou ao efeito humorístico. A homonímia seria insuficiente caso não houvesse a polissemia do verbo “usar”, que significa tanto “empregar” quanto “vestir” (além de outros sentidos que o dicionário registra). Se o menino tivesse dito ao pai que o professor baixou a nota porque ele escrevera (e não “usara”) “mormente”, o pai não teria feito a confusão. Não lhe ocorreria considerar “mormente” um tipo de casaco, mas o velho continuaria ignorando o que esse vocábulo quer dizer.

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O conteúdo da charge desnuda a reação ao status quo: a aquiescência, a conivência, o conflito, o choque, a rejeição, a oposição, o contraditório. (…) Sua temática, em geral, versa sobre o cotidiano – questões sociais que afligem, irritam, desgostam, confundem. Essas questões focalizam os universos de referência do público, expondo testemunhos, registrando perplexidades, apontando falhas, satirizando pontos de vista, desvelando motivações ocultas, introduzindo questionamento. Por natureza é polêmica (FLORES, 2002, p.11).

 

porque

A tirinha do personagem Armandinho, criada pelo ilustrador catarinense Alexandre Beck, pode funcionar como material didático para uma aula de reflexão linguística sobre o uso do PORQUÊ, que tanto gera dúvidas na hora de escrever “junto? separado? com ou sem acento?!?!” A tirinha traz em cada quadro um dos contextos de uso dessa palavra tão explorada pelas crianças na sua primeira infância.

Para descrever o uso do termo de um modo bastante simples, pode-se afirmar que os contextos são: POR QUE como introdutor de pergunta, PORQUE na resposta ou explicação da pergunta, POR QUÊ em posição final de uma pergunta e PORQUÊ como substantivo antecedido de determinante ou artigo.

sinônimos

Nesta charge, o personagem infantil questiona quanto ao uso referencial dos nomes “CARTEL”, “GANG”, “TUCANO”, “QUADRILHA”, “PRIVATARIA” e a relação léxico-semântica de cossignificação entre os nomes. Ou seja, a fonte do humor vem da tentativa de atribuir uma significação compartilhada para itens linguísticos que, a princípio, categorizam (ou introduzem no texto ) objetos de discurso/referentes textuais com diferentes traços semânticos. A fala do “VOVÔ” autoriza essa leitura e aí reside todo o sentido da piada que também envolve relações metalinguísticas, pois a compreensão requer:

(i) o reconhecimento inicial de que o texto multimodal (produzido com a combinação de linguagens verbal e não verbal) representa uma interação entre sujeitos que expressam hipóteses sobre o uso da língua;

(ii) a recuperação de um conhecimento enciclopédico e possivelmente compartilhado entre os personagens da charge (e leitores), da definição de sinônimo, da interseção entre significados que há na relação de sinonímia;

(iii) o deslocamento de sentidos dos elementos linguísticos do texto para o campo metafórico, pois não se trata de mera conversação sobre o uso de certas palavras da língua, porque assim temos apenas uma leitura entre os níveis superficial e médio;

(iv) a análise da referência a “TUCANO” – termo designador do símbolo do partido PSDB e dos seus filiados – como remissiva a uma temática focada em avaliação depreciativa do cenário político do país (considerando os traços semânticos negativos que se pode atribuir aos outros termos entre aspas na pergunta), e assim atingimos uma possível leitura profunda do sentido crítico que a charge carrega.

Quanto aos elementos não verbais, uma coisa interessante de notar é a caracterização dos personagens e os significados que revelam. Temos de um lado um menino provavelmente na faixa dos 6 a 8 anos, usando vestimentas informais e coloridas indicadas para estação quente, inclusive come um picolé sentado de modo descontraído no chão. Todos esses ícones apontam para a leitura de um perfil relacionado à juventude, através do personagem infantil demonstra-se a voz, o olhar simplificador e o posicionamento generalizante da juventude, neste caso, em relação à política nacional. De outro lado, está caracterizado um homem idoso, que ao contrário do menino não sente a mesma sensação térmica por estar vestindo uma roupa que cobre todo seu corpo, além disso o personagem idoso usa óculos, quer dizer que tem problemas de visão, e está sentado confortavelmente numa cadeira de balanço em movimentação.

O que se depreende do conjunto icônico descrito? É possível afirmar que a charge veicula uma crítica social a fim de expor a mudança social na maneira de compreender o cenário político entre diferentes gerações e os ícones mais representativos do contraste são a referência ao problema de visão do idoso e a representação das posições espaciais dos dois personagens. Também o recurso gráfico de colocar algumas palavras entre aspas sinaliza que a significação lançada no texto não é de natureza literal. Para captar o efeito de humor que acompanha a crítica, é preciso reconhecer essa quebra semântica no funcionamento discursivo dos termos destacados através da relação complementar entre significados associados aos itens verbais e não verbais.

Fonte: Depósito de Tirinhas

Fonte: Depósito de Tirinhas, blog Infame Lúdico.

Interessante a maneira como o uso de uma onomatopéia foi explorado na tirinha de Rafael Nemer para produzir o efeito de humor. Aproveitando mais o conteúdo da piada, vejamos como a linguística trata a questão.

A onomatopéia é um fenômeno linguístico bem particular de cada língua. Por exemplo, “miau” tem a seguinte representação linguística em:
alemão – miauen
inglês – mew
francês – miauler

Para uma comparação de outras particularidades linguísticas, podemos consultar um anexo da Wikipedia com lista de onomatopéias em várias línguas. Como se vê, não só a grafia, por consequência, a sonoridade desses vocábulos também é diferente. E isto quer dizer então que um gato domesticado em comunidade de fala francesa mia diferente de um gato do Brasil?

Não é bem assim, segundo Martins (2000), dentre outras definições apresentadas em Introdução à estilística, a onomatopéia diz respeito à imitação acidental de sons pelo homem, ou seja, sua construção está ligada a determinado momento e indivíduo. A partir dessa consideração, é possível entender que o fenômeno vincula-se à cultura de uma língua e caracteriza-se por sua natureza estilística e expressiva (SOUZA, 2007).

Por assim dizer, o mesmo pesquisador conclui que a onomatopéia não é um elemento universal para as línguas naturais e por isso relativiza o princípio saussureano de arbitrariedade do signo, justamente pela variação que há na relação entre significante e significado de onomatopéias nas diferentes comunidades linguísticas. Um dos fatores incidentes é a sonoridade de fonemas próprios de cada língua.

* sui-generis = locução latina que significa “do seu gênero próprio”

Republico esta charge em consideração aos amigos, familiares, conhecidos e todos que vivem em Rio Grande (RS), cidade onde fiz meu curso universitário. Sei muito bem que não tem graça nenhuma andar e pagar pelo péssimo serviço de transporte prestado por esta Noiva do Mar.

Pelo fim do monopólio da Viação Noiva do Mar em Rio Grande!.

por LATUFF CARTOONS “A função do artista é violentar” (Glauber Rocha)

Fim do Monopolio da Noiva do Mar

https://mundotexto.files.wordpress.com/2013/07/937ee-bugio252comotoqueiro.jpg

Para a gramática tradicional, a metáfora é colocada como um tipo de figura de linguagem, “muito encontrada em obras de autores clássicos e consagrados pela crítica”. Porém isto não nos interessa aqui, porque prefiro afirmar que a metáfora está em quase tudo que qualquer sujeito diz por aí, esse papo de linguagem dos clássicos e usos consagrados já era! Por conseguinte, prefiro tratar a metáfora como um processo de significação cuja compreensão das expressões linguísticas envolve algum tipo de relação inferencial.

Vamos ver então de onde vem o efeito do riso metafórico que a tirinha do nosso motoqueiro Bugio produz. Para tanto, com base no que diz Ferreira (2009), apresento 4 propriedades básicas encontradas em uma metáfora. Pode ser que existam outras propriedades ou mesmo que o recorte feito seja discutível, mas por ora ficamos com estas:

1) duplicação dos empregos – a metáfora funciona como expressão substituta possível (cair na estrada =  partir para outro lugar ou em viagem conduzindo um veículo por caminho terrestre) de um termo com sentido próprio ou literal (cair na estrada = sofrer uma queda ou tombar em via terrestre, ir ao chão);

2) mudança de sentido – o uso da expressão metafórica (com sentido simbólico, figurado, modificado) evoca um sentido diferente daquele primeiro que o termo apresenta na língua (com sentido próprio ou literal, a primeira entrada lexical no dicionário);

3) hipótese da transferência – a expressão linguística no uso metafórico troca de sentido porque é transferida do contexto habitual (referência ao movimento de queda em sentido literal) para um contexto de uso incomum (referência a uma forma de deslocamento em sentido discursivo);

4) hipótese da similitude ou da analogia – a relação de similaridade na construção de metáforas é uma propriedade preexistente nos referentes selecionados pelo falante, como ocorre no exemplo do Bugio, em que a analogia entre as expressões decorre de suas aproximações dentro do campo semântico que engloba os sentidos de movimentação e deslocamento.

E o efeito de riso metafórico? Este vem da exploração que o autor faz dos sentidos (i) discursivo por meio da voz do personagem Bugio no primeiro quadro da tirinha e (ii) literal através da voz do personagem Tucano na finalização dessa história rápida, assim como das ilustrações associadas a cada um dos sentidos.

Leia mais sobre metáfora: FERREIRA, Alice Maria de Araújo. Questões sobre a metáfora: definições e discussões. Polifonia, n. 18, p. 131-144, 2009.
Sempre o mito da corrupção da língua.

Nem uma coisa nem outra.

Vale lembrar que não é bem assim como se ouve falar…

Não adianta, por exemplo, depreciar as práticas de linguagem por meio de variedades de textos com diferentes propósitos comunicativos que são escritos na internet, em mídias sociais como o Facebook e em toda infinidade de TICs mediante as justificativas de:

– destruição da língua materna só por causa da grafia de abreviaturas diferentes, pontuação abundante, acentuação e letras maiúsculas de modo deficiente;

– interferência negativa no aprendizado da língua escrita ilusoriamente tida como a certa;

– modificação “total” do português em uso por aqui, que muito antes do surgimento das TICs nem se parecia mais com aquele usado em Portugal;

– desconhecimento das regras gramaticais, mas de qual gramática? tradicional? descritiva? de usos? da língua falada?

– e por aí vai…

Pensar assim denota um posicionamento purista em relação à língua ou mesmo de negação/desconhecimento do fenômeno da variação linguística tão presente em nossa vida diária, nos falares e escritos que nos rodeiam, além de um olhar desequilibrado sobre a  prática de ensino de produção textual devido à fixação nas formas linguísticas em maior escala do que na construção dos sentidos textuais. Por fim, o pior de tudo é perceber que em muitos casos atribui-se “o fracasso metodológico do ensino de notação ortográfica para um fator externo à prática pedagógica que por si só não pode ser responsabilizado” (XAVIER, 2005, p. 13).