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Correção de redação na escola
por Cristina Ramos

Corrigir redações – esse sempre foi um problema crucial nas escolas para os professores e pior ainda, para os alunos. Parece que estou vendo. A professora sentada na cadeira de sua mesa, os alunos começam a levantar-se e a colocar seus textos sobre o móvel, dizendo assim: “Não olhe agora, heim, professora?!” E vão colocando seus trabalhos sob aqueles que lá já se encontram. Sem nenhum medo de errar, afirmo que até nossos alunos de nível superior fazem isso ao entregarem seus trabalhos.

Pensando nisto escrevo este artigo que tentará fazer uma breve reflexão sobre o problema de corrigir redações escolares; faço isso após ter lido um livro de Eliana Ruiz, que versa superficialmente sobre o assunto. Tentarei fazer um “entremeio” entre as ideias da autora e as minhas próprias ideias e vamos ver no que vai dar.

Então, como é que se corrige redação na escola? Sempre pensei que o trabalho de reescrita do aluno é decorrente de uma interferência que, fatalmente, o professor fará em seu texto. E aí estava o problema – no modo como o professor intervém no texto do aluno. Minha “grande” sabedoria sabia que a mediação do professor é um dos fatores determinantes do sucesso que o aluno possa ter em seu processo de aquisição da escrita, lógico, entendida aqui como a capacidade de redigir bem, com todos os aspectos que um bom texto requer.

Justamente porque pensava na questão interferência positiva do trabalho de correção, procurava encontrar respostas para:

  • o que é que torna uma correção de redação eficiente?
  • que tipos de estratégias de intervenção escrita é mais produtivo para o aluno?
  • como podemos contribuir para uma produção escrita de maior qualidade?
  • como corrigir uma redação, de modo a levar nosso aluno a progressos significativos na aquisição da escrita?

Afinal, até hoje dizemos aos nossos alunos que um dos principais motivos do seu marasmo em sala de aula do nível superior, o fato de ele não querer mais escrever, de não ter idéias fluindo para produzir um texto – todos esses aspectos são frutos da má estratégia do professor ao corrigir redações, principalmente nas séries iniciais. Será isso verdadeiro? Todas essas indagações fizeram-me realizar um trabalho de análise de redações escolares durante o tempo em que estive em Araraquara/SP, cursando o doutorado. Relato, a partir desse artigo, as minhas conclusões precedidas, é claro, de algum embasamento teórico.

Vamos pensar um pouco, primeiramente nas condições de produção das redações na escola.

Em primeiro lugar, acho que não é a correção de erros gramaticais que induzem o aluno a ser um produtor de bons textos. Acho, numa primeira tentativa de encontrar uma solução, que o que leva ao sucesso a correção de redação e leva o aluno a uma escrita qualitativamente melhor é exatamente a leitura que o professor faz dela. Leituras que tomam o texto todo como uma unidade de sentido são mais produtivas que as que focalizam apenas partes do texto ou unidades menores do que o texto. O que menos interessa, no momento, é a sua análise linguística. Não nos interessa, de modo algum, e aliás condenamos o estilo de correção que consiste em tingir de vermelho o texto e devolvê-lo ao aluno, dando fim ao processo nessa etapa. [Continuar lendo…]

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Sobre o livro: Como Corrigir Redações na Escola, uma proposta textual-interativa (Eliana Donaio Ruiz), leia o sumário e a apresentação.

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 1. Tema Livre
Edição: Junho de 2014
Data final para submissão de artigos: 03 de março de 2014
Organizadores:  Aleria Lage, Marcia Damaso Vieira e Gean Damulakis

2. Línguas Indígenas Brasileiras
Edição: Dezembro 2014
Data final para a submissão de artigos: 31 de agosto de 2014
Organizadores: Bruna Franchetto & Andrew Nevins

3. Aquisição da Linguagem
Edição: Junho 2015
Data final para a submissão de artigos: 03 de março de 2015
Organizadores: Aniela Improta França e Marcus Maia

COMO E PARA ONDE ENVIAR:

Submissões pela página http://www.revistalinguistica.letras.ufrj.br

Arquivo 1: identificação do autor (nome, titulação, função e/ou cargo, unidade e departamento, endereço eletrônico, telefones para contato; identificação de coautores (nome, titulação, função e/ou cargo, unidade e departamento, endereço eletrônico).

Arquivo 2: Artigo completo, porém sem a identificação do autor e coautores.

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Ao consultar a ficha catalográfica de tradução de um livro de Charles Dickens, percebi que o tradutor optou pela palavra “esperanças” no lugar de “expectativas”. Refiro-me à obra Great Expectations, cuja tradução do título para o português brasileiro foi Grandes Esperanças. Eis uma questão de sinonímia e tradução,  geradora de discussões do tipo até que ponto uma palavra dá conta do sentido evocado por outra, qual a proporção de alcance do mesmo campo semântico, repito do mesmo!?!?

Difícil saber, uma vez que a equivalência perfeita de significado não é uma propriedade inerente às relações de sinonímia, ou seja, sempre vai escapar ou faltar um traço semântico na operação de troca entre termos sinônimos. Na edição 81 da Revista Língua Portuguesa, o linguista José Luiz Fiorin coloca que: “Estender o enunciado usando muitos sinônimos ajuda a dar ênfase ao sentido, mas realça a inexistência de sentidos equivalentes perfeitos entre as palavras.” Fazer isto dentro de um texto sem critérios é correr o risco de mudar alguma coisa na sua progressão, porque a construção de sentidos depende muito da significação dos itens linguísticos que são selecionados pelo produtor.

As duas palavras compartilham o significado de espera, fora isto as definições lexicais apresentam variações, porém não vou demonstrá-las aqui, vou deixar a verificação a cargo de cada leitor. Embora esse aspecto da tradução tenha surtido em mim a reflexão que expus, a coisa que mais me atraiu na obra inglesa foi o singelo começo do capítulo 1:

“O sobrenome da família do meu pai era Pirrip, e o meu nome de batismo, Philip, mas o máximo que minha língua infantil conseguia articular era Pip. Assim, passei a chamar-me Pip, e passaram a chamar-me Pip”. (…)

O formato das letras no túmulo de meu pai dava-me uma ideia estranha de que fora ele um homem honesto, robusto, moreno, de cabelos negros encaracolados. Dos caracteres  e do estilo da inscrição lapidar “E Também Georgiana, Esposa do Acima Referido”, tirei a conclusão infantil de que minha mãe era sardenta e enfermiça. (p. 9)

A referência do escritor ao período de aquisição da língua materna do protagonista, tão bem colocada no texto de ficção para marcar o início do percurso narrativo de Pip, foi o motivo determinante para minha decisão de levar o livro comigo.

Imaginem a situação, eu estava numa livraria e de repente um livro em especial prendeu minha atenção por sua encadernação em estilo antigo, capa em tecido roxo com desenhos de folhas,  marcador de páginas em fita de cetim, folhas em papel bem fino. Quase comprei só por causa da capa, admito, e é até ridículo dizer isso a respeito de um clássico da literatura, um clássico até agora fora de meu campo de interesse.  Entretanto tudo mudou depois que abri aquela capa roxa e li o começo da história, foi apaixonante!! A escolha do livro assumiu outro sentido, bem significativo para mim neste exato momento em que me preparo para desenvolver uma pesquisa na área de aquisição da linguagem. Assim, as pontas desconexas de minha aventura pela livraria se encontraram.

O livro roxo de Pip

O livro roxo de Pip

Por fim, o trailler de uma versão cinematográfica da obra literária, infelizmente sem a singeleza do início do texto de ficção.

Referências:
DICKENS, Charles. Grandes esperanças. Trad. José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. São Paulo: Abril, 2010. 672p.
FIORIN, José Luiz. A clonagem de sinônimos. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, n. 81, 2012.