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Nesta reflexão, tento abordar aspectos a serem considerados pelo professor de português brasileiro que se propõe a relacionar literatura e cultura na sala de aula em detrimento de uma prática limitada a leituras superficiais e descontextualizadas do texto literário. Para tanto, volto-me a aspectos como: materialidade linguística, conexão entre literatura e língua, linguagem literária, significação cultural, patrimônio cultural, leitura e produção, história sociocultural, intra e intertextualidade, abordagens de leitura e responsividade.

livros

Crédito: © ra2 studio

O uso de textos literários no ensino de língua materna é visto como de maior importância por José Luiz Fiorin em seu artigo “Linguística e pedagogia da leitura” (2004), publicado na revista Scripta. A relevância apontada pelo linguista recai muito mais sobre a materialidade linguística do texto literário do que sobre questões estéticas, que ficariam em segundo plano. Aqui se tem a leitura focada na língua em uso, acima da beleza das palavras escolhidas pelo escritor.

De certo modo alinhada com Fiorin, no livro “O texto na sala de aula” (2011), Ligia Leite atribui ao avanço dos estudos em Linguística e Teoria Literária a possibilidade de reconhecer que a literatura trabalha com as palavras e, por isso, quem estuda literatura também estuda língua. Particularmente, identifico-me com essa posição na condição de professora de português brasileiro (PB), cuja especialidade é a Linguística Textual.

Pelo mesmo motivo apresentado, Leite (2011) produz sua crítica ao ensino compartimentado de língua e literatura, como se as duas disciplinas fossem saberes desintegrados. A autora inclusive pontua que, dentre todos os usos possíveis, a linguagem literária é uma das opções, assim como o uso referencial no cotidiano, o uso culto ensinado nas escolas. Outra observação interessante de Leite concerne à construção da verossimilhança nas falas de personagens de ficção, efeito buscado pela literatura no tocante a especificidades (classe social, escolaridade, cultura, idade, etc.) da linguagem oral.

Nas palavras de Fiorin (2011), o texto literário mobiliza todas as dimensões e funções da linguagem e com isso tem potencial de tratar da realidade tal como é ou subvertê-la. Ensinar PB com textos literários nessa perspectiva implica uma compreensão macrossemiótica gerada por simbologias culturais acerca de sistemas de significação: do mundo natural e das línguas naturais. Neste ponto, através de Fiorin dialogo com a teoria greimasiana para sustentar que a literatura e outras artes funcionam como “reservatório de signos”, sendo multiplicadores de significação.

Para explorar a significação de textos literários na aula de PB, por exemplo, não cabe apenas tratá-los como patrimônio cultural, objeto de história literária ou obra consagrada pela crítica. Segundo Leite (2004), essa abordagem traduz uma tradição escolar de visão elitista, em que o ensino mantém-se sob o molde da preservação e da recepção estática e, a meu ver, distancia-se da construção do conhecimento e do senso crítico. A descrição de tal prática não deveria fazer parte de concepções e interesses de qualquer instituição de ensino, porque não agrega nada ao desenvolvimento social de um cidadão, de uma comunidade.

O que cabe no ensino de PB é a leitura crítica e a produção de textos com fins literários. De modo inegável, os dois processos solicitam a articulação de elementos intra e interdiscursivos. Assim coloca Fiorin (2004) quando se reporta à pedagogia da leitura e redação, que entendo como o conjunto de métodos e teorias necessários à interpretação/produção textual, conjunto alheio à existência exclusiva de fonte de inspiração para a escrita do aluno. Isto posto, reconheço que o envolvimento com o texto literário não prescinde de inspiração nem depende somente dela. Considero que a interação competente com essa variedade de texto e linguagem é passível de desenvolvimento, pois depende na verdade do acesso ao conhecimento de mundo ou à história sociocultural.

De acordo com a exposição de Fiorin (idem), o trabalho pedagógico com o texto literário conjuga teorias do texto e do discurso com a finalidade de explicitar os sentidos ou as intenções da obra literária. Tem papel agregador nessa proposta, dentre outras teorias, fundamentos da Análise do Discurso (AD) de linha francesa, Semiótica francesa e Linguística Textual. Vejamos brevemente quais pontos das teorias podem interessar.

No campo da AD francesa, as noções de heterogeneidade constitutiva de Bakhtin (discurso indireto depreensível em todo texto) e heterogeneidade mostrada de Authier-Revuz (marcada explicitamente por aspas, discurso direto, etc.; não marcada por discurso indireto livre, alusões, ironias, etc.) habilitam o leitor a acessar os discursos subjacentes ao inventário cultural que constituem o sentido do texto literário. Assim temos o enfoque da interdiscursividade.

A Semiótica francesa, representada por Greimas e seguidores, oferece preceitos para o estudo intradiscursivo do texto literário. Por este viés teórico, há condições para tratar da estruturação textual, organização narrativa, temas e figuras, actorialização (estabelecimento da pessoa, ator), temporalização (relações de tempo na enunciação), espacialização (determinação do espaço), só para citar algumas opções de estudo que levariam ao reconhecimento dos enquadres culturais criados no texto literário.

Com a Linguística Textual, é pela dimensão de construção da coerência e coesão que se pode abordar o texto literário. Em “As cadeias do texto”, Roncarati (2010) trata da reconstrução de cadeias referenciais, um recurso facilitador da leitura e interpretação. Ao cercar os movimentos de introdução, preservação, continuidade, reconfiguração e retomada de referentes textuais, verifica-se a trajetória evolutiva do texto em termos de sequenciação lógica ou disposição de ideias minimamente correlacionadas (a coerência) e de sequenciação referencial ou progressão do fluxo de informações (a coesão). Pode parecer complicada a leitura de texto literário com foco na construção da referência, todavia, acrescento que com olhar voltado para expressões de língua natural, conforme a proposta de Fiorin (2004), o aluno pode chegar à significação do mundo natural onde as culturas são originadas.

No caso da obra de ficção Utopia Selvagem, de Darcy Ribeiro, a aplicação das noções da AD contribuiria para o reconhecimento da relação dialógica com o romance Macunaíma, de Oswald de Andrade, conforme apontei no artigo “A brasilidade e a identidade latino-americana em Utopia Selvagem” (2009), publicado na revista Travessias. Da semiótica greimasiana, através das noções concernentes ao estabelecimento de pessoa-tempo-espaço poderia ser guiada uma leitura de modo a observar os usos de formas pronominais, verbais, adverbiais e circunstanciais que, de algum modo, atuam no enredo da narrativa de Ribeiro. Como última proposição prática, direcionada por teorias do texto, sugiro o exercício de refazer cadeias referenciais para identificação do perfil dos personagens da obra do antropólogo.

De que maneira então trabalhar produtivamente com o texto literário no ensino de PB sem perder de vista os aspectos culturais que compõem os sentidos desse tipo de produção? De um lado, digo que é na perspectiva da recepção/compreensão ativa e da reação/produção responsiva, seguindo a teorização bakhtiniana. De outro lado, é através da leitura crítica, relacionada a outras fontes textuais e enquadres culturais, orientada pelo professor para o alcance de interpretações aceitáveis dos textos. É também por meio da produção livre de outros textos sob propósitos literários, demonstrando compreensão consciente, seja pela adesão, seja pela contraposição, em relação ao sentido geral do texto literário que serve de referência inicial.

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Colóquio Internacional de Poesia Moderna
Jornada de Poesia Moderna (5ª edição)
III Encontro Luso-Afro-Brasileiro: As Mulheres e a Imprensa Periódica

 

Homenagem a CECÍLIA MEIRELES

 

Data: de 04 a 07 de novembro de 2014

Local: nos prédios 8 e 9 da PUCRS – Porto Alegre

As inscrições já estão abertas!

http://www.pucrs.br/eventos/ccmip/

“Receita pra lavar palavra suja” é uma criação poética de Viviane Mosé não só interessante, mas ainda metalinguística (!) como toda poesia boa. Segundo a metáfora da poetisa, a palavra é como uma roupa, já a metalinguagem fica por conta dos usos das palavras/roupas. Por isso, compartilho o vídeo em que a autora recita com gosto sua composição:


É que eu queria dizer uma coisa que eu não posso sair dizendo por aí
Na verdade é um segredo que eu guardo
É uma revelação que não posso sair dizendo por aí
Que eu tenho medo que as pessoas se desequilibrem de si
Que elas caiam delas mesmas quando eu disser
Eu descobri que a palavra não sabe o que diz
A palavra delira
A palavra diz qualquer coisa
A verdade é que a palavra nela mesmo em si própria
Não diz nada
Quem diz é o acordo estabelecido entre quem fala e quem ouve
Quando existe acordo, existe comunicação
Quando esse acordo se quebra, ninguém diz mais nada
Mesmo usando as mesmas palavras
A palavra é uma roupa que a gente veste (…)

 

WordItOut-word-cloud-389287

 

 

Esta é uma lista de obras recomendadas para leitura nos anos finais do Ensino Fundamental (especialmente 9º ano).

AGUIAR, Luiz Antonio. Corações partidos.

ALBERGARIA, Lino de; ARAGÃO, Marco. Chico, Edu e a oitava série.

ALCOTT, Louisa May. Mulherzinhas. São Paulo, SP: Nova Cultural, 2003.

ALVAREZ, Julia; CASTRO, Léa Viveiros de. No tempo das borboletas.

ANTONIO, João. Meninão do caixote.

ARBEX JÚNIOR, José. O poder da TV.

ARÊAS, Vilma; BRONTË, Emily; GUEDES, Avelino Pereira. O morro dos ventos uivantes. 13. ed.

BAGNO, Marcos. O espelho dos nomes.

BARDET, Daniel; BOIDE, Alexandre; NAWA, Rachid. As mil e uma noites. L&PM, 2012. (em quadrinhos)

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum. 27.ed. São Paulo, SP: Global, 2008

BRAZ, Júlio Emílio. Cenas urbanas.

BRENMAN, Ilan; VILELA, Fernando. África.

CAMPOS, Carmen Lúcia; SILVA, Joaquim da. Para gostar de ler, 35: gente em conflito. São Paulo, SP: Ática, 2011.

CARPINEJAR; ROSA, Rodrigo. Diário de um apaixonado: sintomas de um bem incurável.

CAZARRÉ, Lourenço. A casa sinistra.

CLAVER, Ronald. Diário do outro. 3. ed.

CLEMENT, Catherine; VIANA, Antonio Carlos; VIANA, André. O sangue do mundo.

COLASANTI, Marina. Longe como o meu querer. 4. ed. São Paulo, SP: Ática, 2006.

CORALINA, Cora. Estórias da casa velha da ponte.

COSTA, Wagner; BORGES, Rogério. Eu, Pescador de mim.

CURTIS, Christopher Paul; CÁRCAMO; FERRAZ, Geraldo Galvão. Minha família é um barato!

DIMENSTEIN, Gilberto. Aprendiz do futuro: Cidadania hoje e amanhã. 10. ed. São Paulo, SP: Ática, 2008.

DIMENSTEIN, Gilberto. Meninas da noite: a prostituição de meninas escravas no Brasil. 3. ed

DIMENSTEIN, Gilberto. O cidadão de papel: a infância, a adolescência e os direitos humanos no Brasil. 23. Ática, 2011.

FEIST, Hildegard; DICKENS, Charles; MAIA, Luiz. David Copperfield. São Paulo, SP: Scipione, 2009.

FRANK, Anne; FRANK, Otto H.; PRESSLER, Mirjam. O diário de Anne Frank: edição integral. 32. ed. Record, 2011.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2002.

GAARDER, Jostein; AZENHA JR., João. O dia do curinga.

GARCIA, Edson Gabriel. Cidadania agora.

GARCIA, Edson Gabriel. Contos de amor novo.

GARCIA-ROSA, Luiz Alfredo. Quarto de menina. 6.ed

GARCIA-ROZA, Livia. Cine Odeon: romance.

GLEISER, Marcelo. A dança do universo: Dos mitos de Criação ao Big-Bang.

GLEISER, Marcelo. A harmonia do mundo.

GODOY, Marcela,; PARES, Roberta. Romeu e Julieta. Belo Horizonte, MG: Nemo, 2011. 62 p. (Shakespeare em quadrinhos)

GOMES, Álvaro Cardoso; QUEIROZ, Eça de. A prima de um amigo meu.

HAWTHORNE, Nathaniel. A letra escarlate.

HEMINGWAY, Ernest; FERRO, Fernando de Castro; SQUEFF, Enio. O velho e o mar.

HONORE, Christophe; JAHN, Heloisa. Bem perto de Léo.

HUXLEY, Aldous; VALLANDRO, Lino. Admirável mundo novo. São Paulo, SP: Globo, 2009.

JAF, Ivan. Dona casmurra e seu tigrão.

JAF, Ivan. Longe dos olhos. 2. ed.

JAF, Ivan. O vampiro que descobriu o Brasil.

JOSÉ, Elias; BORGES, Taisa. Alice no país da poesia.

JOSÉ, Ganymedes; SANTALIESTRA, Eduardo. A ladeira da saudade. 31. ed.

MACEDO, Joaquim Manuel de. A moreninha. São Paulo, SP: M. Claret

MACHADO, Ana Maria. Uma vontade louca. 2. ed

MANGUEL, Alberto. Contos de amor do século XIX.

MARINHO, Jorge Miguel; BRANDÃO, Lúcia. O cavaleiro da tristíssima figura

MILLER, Arthur; SILVA, Rui Guedes da. As bruxas de Salém.

MORAES, Vinícius de; FERRAZ, Eucanaã. Para viver um grande amor, 1962. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

MURRAY, Roseana; LLINARES, Alberto. Pequenos contos de leves assombros.

NICOLELIS, Giselda Laporta. O milagre de cada dia. 3. ed.

NUNES, Lygia Bojunga. O abraço. 5. ed. Rio de Janeiro, RJ: Casa Lygia Bojunga, 2010.

OLIVEIRA, Rui de. Três amores. 2. ed.

ORWELL, George. A revolução dos bichos.

ORWELL, George; HUBNER, Alexandre; JAHN, Heloisa. 1984. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2009.

PARA gostar de ler: nós e os outros : histórias de diferentes culturas. 2. ed.

QUINO. 10 anos com Mafalda.

REY, Marcos; RABELO, Allan. Diário de Raquel. São Paulo: Global, 2011.

REZENDE, Stela Maris; CARDON, Laurent. A mocinha do mercado central.

SABINO, Fernando. Amor de Capitu.

SCLIAR, Moacyr. No caminho dos sonhos. 4. ed.

SCLIAR, Moacyr; CÁRCAMO. Ataque do comando P.Q.. São Paulo, SP: Ática, 2009.

SILVINO, Laerte.; ASSIS, Machado de. Conto de escola: em quadrinhos.

SWINDELLS, Robert. Frio como pedra.

TAVARES, Ulisses. Viva a poesia viva.

TELLES, Lygia Fagundes. Antes do baile verde. 16.ed.

TELLES, Lygia Fagundes. Oito contos de amor. 4. ed.

VILELA, Luiz. Boa de garfo e outros contos.

VILELA, Luiz. Contos da infância e da adolescência. 3. ed.

ZEPHANIAH, Benjamin. Gangsta rap.

*** Sugestão de ficha de leitura.

ficha de leitura

 

 

Seguem algumas sugestões de atividades para o estudo do tema empréstimos linguísticos no 9º ano do EF.

A) Leitura e interpretação de texto instrucional.

empre licoVersão para impressão: PDF1

B) Elaboração coletiva do infográfico “Empréstimos Linguísticos no Português Brasileiro”, utilizando palavras previamente pesquisadas pela turma e conteúdo do material da atividade A.

mapa empr licosVersão para impressão (formato de folha A3): PDF2

C) Atividade de aplicação de conhecimentos sobre empréstimos linguísticos (planejada a partir de levantamento de usos inadequados em produções textuais de termos como “facebook“, “twitter“, “orkut” etc).

Objetivo: compreender a diferença da grafia de nomes próprios de origem estrangeira (especificamente de sites, programas, aplicativos, jogos etc.) em logotipos, endereços eletrônicos e textos escritos; a proposta é que o aluno complete o quadro com as formas usadas no texto escrito.

logotipos

 

O homem e seu carnaval

Crédito: © Michael Flippo - Fotolia

Crédito: © Michael Flippo

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

Published 23/02/2014 | By IPOL

A língua pomerana tem sido o foco de importantes políticas linguísticas no Brasil. Tornou-se cooficial em cinco municípios no Espírito Santo (Santa Maria de Jetibá, Laranja da Terra, Pancas, Vila Pavão e Domingos Martins) e em Canguçu, no Rio Grande do Sul; e desde 2005 entrou nos programas educacionais das escolas desses municípios através do PROEPO – Programa de Educação Escolar Pomerana. Além disso, Santa Maria de Jetibá, em parceria com o IPOL, realizou o primeiro censo linguístico do município evidenciando a vitalidade e principais funções dessa língua ao lado de outras faladas na região. A instrumentalização, que acontece com a elaboração de dicionários, gramáticas, materiais didáticos diversos,  entre outros, em diálogo com essa expansão política, assume importante papel na consolidação dessa língua.

Projeto Pomerando tem repercussão na região
Foto: Divulgação

Foto: Divulgação  

O Livro “Projeto Pomerando: língua pomerana na escola Germano Hübner” recebeu um espaço na seção “Livros Raros e de Valor” da Biblioteca Pública Pelotense

Em um projeto realizado pelo professor Danilo Kuhn, na Escola de Ensino Fundamental Germano Hübner, o “Projeto Pomerando”, com a intenção de resgatar parte da escrita da língua pomerana, ainda bem enraizada em São Lourenço através da língua falada, começou a tomar forma através da publicação de um livro, com notas gramaticais, conjugações verbais, análises e até mesmo um pequeno dicionário. O resultado, além da repercussão na cidade, colocou em destaque a escrita pomerana, um dialeto da extinta Pomerânia, localizada na Alemanha.

Recentemente, Kuhn apresentou o projeto no I Seminário “Qualidade e Compromisso com a Educação em São Lourenço do Sul – RS: Vivências e Experiências Pedagógicas”, da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desporto, tendo o livro lançado e autografado nas Feiras do Livro de São Lourenço do Sul e Pelotas. Além de o projeto ter sido exposto em eventos como o III POMERbr, em Pomerode, Santa Catarina, ele também recebeu destaque no Congresso Internacional de História Regional da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Encontro da Associação Sul-Rio-Grandense de Pesquisadores em História da Educação realizado na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Simpósio Internacional em Memória e Patrimônio da UFPel, sendo publicado em formato de artigo no periódico Cadernos do Lepaarq da universidade. [continue lendo …]

– Tópicos de linguagem: empréstimos linguísticos, estrangeirismos ou empréstimos vocabulares

– Temas transversais: dominação cultural, identidade nacional

– O texto na sala de aula:

CAPITULAÇÃO

Delivery
Até pra telepizza
É um exagero.
Há quem negue?
Um povo com vergonha
Da própria língua
Já está entregue.
Degradação da espécie humana

Degradação da espécie humana

 

 

Crédito: Revista Bula

Crédito: Revista Bula

Pedimos a 15 convidados — escritores, críticos, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de Paulo Leminski. Cada participante poderia indicar entre um e 15 poemas. Escritor, crítico literário e tradutor, Paulo Leminski foi um dos mais expressivos poetas de sua geração. Influenciado pelos dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos deixou uma obra vasta que, passados 25 anos de sua morte, continua exercendo forte influência nas novas gerações de poetas brasileiros. Seu livro “Metamorfose” foi o ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Entre suas traduções estão obras de James Joyce, John Fante, Samuel Beckett e Yukio Mishima. Na música teve poemas gravados por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Guilherme Arantes; e parcerias com Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik e Wally Salomão.

Paulo Leminski morreu no dia 7 de junho de 1989, em consequência de uma cirrose hepática que o acompanhou por vários anos. Os poemas citados pelos participantes convidados fazem parte do livro “Melhores Poemas de Paulo Leminski”, organização de Fred Góes, editora Global. Abaixo, a lista baseada no número de citações obtidas.

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Invernáculo

Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

O que quer dizer

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

M. de memória

Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

Parada cardíaca

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

Amar você é
coisa de minutos…

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

Poesia:

“words set to music” (Dante
via Pound), “uma viagem ao
desconhecido” (Maiakóvski), “cernes
e medulas” (Ezra Pound), “a fala do
infalável” (Goethe), “linguagem
voltada para a sua própria
materialidade” (Jakobson),
“permanente hesitação entre som e
sentido” (Paul Valery), “fundação do
ser mediante a palavra” (Heidegger),
“a religião original da humanidade”
(Novalis), “as melhores palavras na
melhor ordem” (Coleridge), “emoção
relembrada na tranquilidade”
(Wordsworth), “ciência e paixão”
(Alfred de Vigny), “se faz com
palavras, não com ideias” (Mallarmé),
“música que se faz com ideias”
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
fingimento deveras” (Fernando
Pessoa), “criticismo of life” (Mathew
Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
“linguagem em estado de pureza
selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
inspire” (Bob Dylan), “design de
linguagem” (Décio Pignatari), “lo
impossible hecho possible” (Garcia
Lorca), “aquilo que se perde na
tradução (Robert Frost), “a liberdade
da minha linguagem” (Paulo Leminski)…

Adminimistério

Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.

Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?

Sintonia para pressa e presságio

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

Não discuto

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

A lua no cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!

Sem título

Eu tão isósceles
Você ângulo
Hipóteses
Sobre o meu tesão

Teses sínteses
Antíteses
Vê bem onde pises
Pode ser meu coração

 

“Quer um exemplo bem trivial? “Bunda”. Essa palavra também é africana, pode ter certeza. Se não fosse por ela, teríamos que dizer “nádegas”, que é efetivamente o termo português para essa parte do corpo humano. Da mesma maneira, em vez de “cochilar”, teríamos que dizer “dormitar”. Em vez de “caçula”, usaríamos uma palavra bem mais complicada: “benjamim”. Empolado, não é?” (STRECKER, 2006)

palavras origem africana

Leia mais em: Africanismos no português do Brasil (Revista de Letras).