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“Quer um exemplo bem trivial? “Bunda”. Essa palavra também é africana, pode ter certeza. Se não fosse por ela, teríamos que dizer “nádegas”, que é efetivamente o termo português para essa parte do corpo humano. Da mesma maneira, em vez de “cochilar”, teríamos que dizer “dormitar”. Em vez de “caçula”, usaríamos uma palavra bem mais complicada: “benjamim”. Empolado, não é?” (STRECKER, 2006)

palavras origem africana

Leia mais em: Africanismos no português do Brasil (Revista de Letras).

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Ao consultar a ficha catalográfica de tradução de um livro de Charles Dickens, percebi que o tradutor optou pela palavra “esperanças” no lugar de “expectativas”. Refiro-me à obra Great Expectations, cuja tradução do título para o português brasileiro foi Grandes Esperanças. Eis uma questão de sinonímia e tradução,  geradora de discussões do tipo até que ponto uma palavra dá conta do sentido evocado por outra, qual a proporção de alcance do mesmo campo semântico, repito do mesmo!?!?

Difícil saber, uma vez que a equivalência perfeita de significado não é uma propriedade inerente às relações de sinonímia, ou seja, sempre vai escapar ou faltar um traço semântico na operação de troca entre termos sinônimos. Na edição 81 da Revista Língua Portuguesa, o linguista José Luiz Fiorin coloca que: “Estender o enunciado usando muitos sinônimos ajuda a dar ênfase ao sentido, mas realça a inexistência de sentidos equivalentes perfeitos entre as palavras.” Fazer isto dentro de um texto sem critérios é correr o risco de mudar alguma coisa na sua progressão, porque a construção de sentidos depende muito da significação dos itens linguísticos que são selecionados pelo produtor.

As duas palavras compartilham o significado de espera, fora isto as definições lexicais apresentam variações, porém não vou demonstrá-las aqui, vou deixar a verificação a cargo de cada leitor. Embora esse aspecto da tradução tenha surtido em mim a reflexão que expus, a coisa que mais me atraiu na obra inglesa foi o singelo começo do capítulo 1:

“O sobrenome da família do meu pai era Pirrip, e o meu nome de batismo, Philip, mas o máximo que minha língua infantil conseguia articular era Pip. Assim, passei a chamar-me Pip, e passaram a chamar-me Pip”. (…)

O formato das letras no túmulo de meu pai dava-me uma ideia estranha de que fora ele um homem honesto, robusto, moreno, de cabelos negros encaracolados. Dos caracteres  e do estilo da inscrição lapidar “E Também Georgiana, Esposa do Acima Referido”, tirei a conclusão infantil de que minha mãe era sardenta e enfermiça. (p. 9)

A referência do escritor ao período de aquisição da língua materna do protagonista, tão bem colocada no texto de ficção para marcar o início do percurso narrativo de Pip, foi o motivo determinante para minha decisão de levar o livro comigo.

Imaginem a situação, eu estava numa livraria e de repente um livro em especial prendeu minha atenção por sua encadernação em estilo antigo, capa em tecido roxo com desenhos de folhas,  marcador de páginas em fita de cetim, folhas em papel bem fino. Quase comprei só por causa da capa, admito, e é até ridículo dizer isso a respeito de um clássico da literatura, um clássico até agora fora de meu campo de interesse.  Entretanto tudo mudou depois que abri aquela capa roxa e li o começo da história, foi apaixonante!! A escolha do livro assumiu outro sentido, bem significativo para mim neste exato momento em que me preparo para desenvolver uma pesquisa na área de aquisição da linguagem. Assim, as pontas desconexas de minha aventura pela livraria se encontraram.

O livro roxo de Pip

O livro roxo de Pip

Por fim, o trailler de uma versão cinematográfica da obra literária, infelizmente sem a singeleza do início do texto de ficção.

Referências:
DICKENS, Charles. Grandes esperanças. Trad. José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. São Paulo: Abril, 2010. 672p.
FIORIN, José Luiz. A clonagem de sinônimos. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, n. 81, 2012.

SETEMBRO
01 a 03 – I Encontro Brasileiro de Pesquisa em Cultura: Pesquisa e produção do conhecimento para além da Universidade, na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, localizada no bairro de Ermelino Matarazzo, na Avenida Arlindo Bettio nº 1000, São Paulo – SP.

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02 a 04 – V Seminário Internacional de Educação a Distância: meios, atores e processos, no Centro de Apoio à Educação a Distância (CAED) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

02 a 05 – II Congresso Internacional da Faculdade de Letras da UFRJ: Línguas, Literaturas, Diálogos (II CIFALE), na Faculdade de Letras da UFRJ, campus da Cidade Universitária.

03 a 06 – VII Simpósio Internacional de Estudos de Gêneros Textuais (VII SIGET), promovido por Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade Estadual do Ceará (UECE), em Fortaleza-CE.

04 a 06 – I Simpósio Brasileiro de Interpretação (SIMB), na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

09 a 11 – Jornada Internacional Ferdinand de Saussure e os Estudos Linguísticos Contemporâneos & II Simpósio Nacional de Estudos sobre os Manuscritos de Ferdinand de Saussure, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), no Campus Central, na cidade de Natal (RN).

09 a 12 – X Congresso Brasileiro de Linguística Aplicada (X CBLA),na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN), Avenida Brigadeiro Trompowski s/n, Cidade Universitária – Ilha do Fundão, Rio de Janeiro – RJ.

09 a 12 – 19º Congresso Internacional ABED de Educação a Distância (19º CIAED): Bons Profissionais Fazem Bons Programas de EAD: Como Estamos?, CENTRO DE CONVENÇÕES DA BAHIA, Av. Simon Bolivar S/nº, Salvador – Bahia – Brasil – Cep: 41750-230.

09 a 13 – X Colóquio Antero de Quental – Confronto do pensamento ético luso-brasileiro: Séculos XX e XXI, na Universidade Federal de São João del-Rei, Praça Frei Orlando, 170, Centro, São João del-Rei, Minas Gerais, CEP: 36307-352.

11 a 13 – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (IX ENECULT), na Reitoria da Universidade federal da Bahia (UFBA),  PAF III (Campus de Ondina), Salvador-BA.

11 a 14 – X Congresso de Lusitanistas: Migração e Exílio, na Universidade de Hamburgo, Alemanha.

16 a 19 – VII Colóquio da Associação Francofone Internacional de Pesquisa Científica em Educação (AFIRSE/Seção Brasileira): Educação, Investigação e Diversidade, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Mossoró – RN.

16 a 19 – III Seminário Brasileiro de Poéticas Orais, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre-RS.

16 a 20 – Fazendo Gênero 10 – Desafios atuais dos feminismos, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis – SC.

18 a 20 – IX Encontro de Português Língua Estrangeira do Rio de Janeiro (IX PLE-RJ) e I Seminário Internacional CELPE-Bras (I SINCELPE), na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

23 a 25 – Seminário Primavera dos Centenários: Rubem Braga e Vinícius de Moraes, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Londrina – PR.

23 a 26 – XI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Tradução (ABRAPT) e V Congresso Internacional de Tradutores, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis – SC.

23 a 28 – VI Conferência Linguística e Cognição – VI Colóquio Nacional Leitura e Cognição – XIV Semana Acadêmica de Letras, na Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Av. Independência nº 2293 Bairro Universitário, Santa Cruz do Sul – RS, CEP 96815-900.

25 a 27 – V Encontro de Estudos da Linguagem e VI Encontro Internacional de Estudos da Linguagem (Enelin 2013), na Universidade do Vale do Sapucaí (UNIVAS), Av. Pref. Tuany Toledo nº 470, CEP 37550-000, Pouso Alegre – MG.

25 a 27 – XI Congresso Internacional de Tecnologia na Educação: Educação, Tecnologia e Inovação Pedagógica, no Centro de Convenções de Pernambuco, Recife – PE.

25 a 27 – 7º Encontro Internacional de Letras – Literatura e Línguística: Linguagens do Século XXI, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Campus de Foz do Iguaçu e na Fundação Cultural de Foz do Iguaçu.

29/09 a 02/10 – IV Congresso Internacional de Turismo Idiomático, na Fundação Armando Alvares Penteado, São Paulo – SP.


OUTUBRO

08 a 11 – 19º Intercâmbio de Pesquisa em Linguística Aplicada e 5º Seminário Internacional de Linguística (InPLA-SIL 2013),no Campus Anália Franco, da Universidade Cruzeiro do Sul, Av. Regente Feijó, 1295, São Paulo – SP.

14 e 15 – II Jornada de Estudos Saussurianos, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-UNICAMP), Campinas – SP.

15 a 17 – VIII Seminário Nacional sobre Ensino de Língua Materna e Estrangeira e de Literatura (VIII SELIMEL), na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), em Campina Grande – PB.

15 a 18 – VI Seminário de Estudos em Análise do Discurso: 1983-2013 – Michel Pêcheux: 30 anos de uma presença, na Sala II do Salão de Atos da Reitoria, Av. Paulo Gama s/n, Campus Central, Porto Alegre – RS.

16 a 18 – 4º  Colóquio Brasileiro de Prosódia da Fala, no Maceió Atlantic Suítes, Maceió – AL.

16 a 18 – Décimo Sexto Congresso Internacional de Humanidades: O poder da comunicação em contextos latino-americanos, no Instituto de Letras da Universidade de Brasília, Campus Universitário Darcy Ribeiro ICC sul Bloco B  sala 120 sobreloja, CEP 70910-900, Asa Norte, Brasília – DF.

22 a 24 – Congresso Internacional do Trabalho e Utopia no século XIX: sujeitos e experiências, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-UNICAMP), Campinas – SP.

23 a 25 – XXI Seminário do Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná (CELLIP),  na Universidade Estadual do Paraná, Campus FAFIPAR, Paranaguá (UNESPAR-FAFIPAR).

29 e 30 – 2ª Conferência Língua Portuguesa no Sistema Mundial: Língua Portuguesa Global – Internacionalização, ciência e Inovação, em Lisboa, Portugal.

30 e 31 – Lusophone Studies Association Inaugural Conference: Exploringthe Crossroads and Perspectives of Lushophone Studies (Toronto, Canadá), York University, Toronto, Canadá.

Ajustando o foco de estudo para os textos

Estudar as funcionalidades da língua através dos textos é a proposta que trago comigo desde a graduação. Era a isto que me referia quando comentei no blog sobre o uso de texto humorístico da tirinha do Rômulo – Metonímia com Rômulo, o pedante.  Defini o foco para meus estudos linguísticos a partir do trabalho Fronteira entre texto e exercício gramatical, fruto das discussões com o grupo do projeto de iniciação científica, também já mencionado aqui. O trabalho foi divulgado em dois eventos e o resumo publicado nos respectivos anais:

– I Mostra da Produção Universitária/FURG;

21ª Semana de Letras/UFSM.

Tomei conhecimento desta data comemorativa da pior forma possível, foi através de   certo e-mail de marketing de um site de compras ou e-commerce.

Originalmente a data refere-se ao aniversário de morte de Luiz  de Camões.

O objetivo do texto publicitário não se limita a informar fortuitamente que hoje é o “Dia da língua portuguesa”, logicamente junto a essa informação vem a sugestão de compra de determinada “seleção de livros incríveis.” Conforme está sinalizado no próprio assunto do e-mail: Dia da língua portuguesa – seleção de livros incríveis.

Claro que também não poderiam faltar enunciados imperativos de convite ao consumo como este: Celebre a língua que figura entre as 10 mais faladas do mundo. Até fiquei curiosa para saber quais eram as sugestões incríveis e minha expectativa como leitora caiu por terra ao verificar que, salvo pela indicação de uma obra de Jorge Amado – Gabriela, Cravo e Canela -, não tinha como eu celebrar nossa língua materna através dos livros anunciados. Agora me perguntem por quê???

Como já me manifestei em outro post – Hahahaha… olha como ele fala!! -,  a única coisa que um livro intitulado Guia Prático do Português Correto poderá fazer é disseminar visões limitadas da competência comunicativa de um falante de português língua materna, pois não há português correto!  O que dá pra dizer que existe é uma convivência entre variedades de língua:

(i) padrão – é um recorte da língua usada em dado momento histórico e por determinado grupo social, representa um modelo artificial de língua, pois não admite a variação linguística, ao contrário, adota as regras prescritas nas gramáticas tradicionais ou normativas, produzidas com base em textos de literatura clássica, ditos como exemplares de usos consagrados da língua (?!); na verdade apresenta regras de “certo e errado”, que em muitos casos representam usos obsoletos da língua materna, como é o caso do pronome “vós” e suas flexões verbais.

(ii) culta – é falada por quem possui curso superior e mora em centros urbanos, conforme Faraco (2002, p. 39), trata-se da variedade empregada por falantes que mantém contato maior com a modalidade de língua escrita, o que lhes propicia manter uma fala mais próxima dessa modalidade; isto não quer dizer que o sujeito tem mais cultura, mas sim mais tempo de estudo formal e, por isso, mais oportunidade de acesso a textos da cultura escrita.

(iii) coloquial – é a fala comum do dia a dia, das conversas informais, através dela falamos de modo espontâneo e despreocupados com a gramática normativa.

O e-mail também indicava uma Gramática da Língua Portuguesa, segundo o remetente, “ideal para concursos, vestibulares, Enem, colégios técnicos”. Para quem me pede uma sugestão de boa gramática para essa mesma finalidade, sempre falo da gramática de Evanildo Bechara.

modernagramaticaportuguesa

Se a necessidade for conhecimentos sobre variação linguística, diferença entre normas culta e padrão, temas que estão aparecendo cada vez mais nos concursos públicos, a melhor escolha é por obras publicadas pelos linguistas  Marcos Bagno, Carlos Alberto Faraco, Mario Perini, Stella Maris Bortoni-Ricardo.

Ainda havia a indicação de leitura de um livro de Paulo Coelho, que não vou comentar longamente, pois não sou fã desse escritor.

PARA quem quiser conferir, segue o e-mail que eu recebi: DIA DA LG PORTUGUESA

Leia mais sobre o assunto em: FARACO, Carlos Alberto. Norma-padrão brasileira: desembaraçando alguns nós. In: BAGNO, Marcos (org.). Linguística da norma. São Paulo: Loyola, 2002. cap.3. p. 37-61.

Aos poucos vou postar os trabalhos que fiz e foram publicados em diferentes momentos desde que comecei minhas investidas como pesquisadora. Segue aqui uma mostra de artigo que escrevi em parceria com a professora Drª Eliana da Silva Tavares, no período em que fui bolsista voluntária de iniciação científica do projeto “A Bela e a Fera: uma perspectiva de ensino ou A língua materna na escola” na FURG.

Questões sobre língua materna: da concepção ao ensino.

A propaganda da suposta “dificuldade” da língua é o arame farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder. (Gnerre, apud Marcos Bagno)

Este artigo tem o propósito de discutir questões concernentes ao processo de ensino/aprendizagem de língua materna, tais como (a) a relevância da concepção de língua, (b) os efeitos decorrentes dessa concepção no tipo de ensino pretendido e (c) os objetivos traçados para o mesmo. A opção por esses aspectos não é fortuita, pois deve-se a questionamentos surgidos no transcorrer das aulas de Linguística II (que tem seu programa direcionado justamente ao ensino de língua materna), cuja principal dúvida exposta pelos professores em formação refere-se à suposta “necessidade” de ensinar conteúdo gramatical de natureza normativa.

Leia a íntegra em: ROSA, C. E. S., TAVARES, E. S. Questões sobre língua materna: da concepção ao ensino. Artexto (FURG). , v.13, p.95 – 99, 2002.