Posts com Tag ‘linguística textual’

por Chico Viana

– Pai, o professor baixou a nota da minha redação porque usei “mormente” em  vez de “sobretudo”.
– Bem feito! Eu lhe disse para não sair desprotegido nesse tempo frio!

Levei esse diálogo para a classe porque um aluno tinha usado “mormente” numa redação. Foi nesta passagem: “As manifestações que tomaram conta do Brasil deviam interessar mormente aos excluídos.”

“Mormente” é o mesmo que “sobretudo”, de modo que o estudante não falhou quanto à semântica; apenas se mostrou um tanto pedante. A palavra que ele escolheu tem um ranço formal, bacharelesco, que afasta ou desorienta o leitor comum. Uma prova disso é a resposta que o pai deu ao filho.

O diálogo acima é uma anedota. Como geralmente ocorre nos textos de humor, o riso decorre de uma confusão de sentidos – no caso, a confusão que o pai faz entre dois homônimos: “sobretudo” é advérbio e também substantivo (neste caso, significa “casaco que serve de proteção contra o frio e a chuva”).

Mas não bastou isso para gerar a ambiguidade que levou ao efeito humorístico. A homonímia seria insuficiente caso não houvesse a polissemia do verbo “usar”, que significa tanto “empregar” quanto “vestir” (além de outros sentidos que o dicionário registra). Se o menino tivesse dito ao pai que o professor baixou a nota porque ele escrevera (e não “usara”) “mormente”, o pai não teria feito a confusão. Não lhe ocorreria considerar “mormente” um tipo de casaco, mas o velho continuaria ignorando o que esse vocábulo quer dizer.

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sinônimos

Nesta charge, o personagem infantil questiona quanto ao uso referencial dos nomes “CARTEL”, “GANG”, “TUCANO”, “QUADRILHA”, “PRIVATARIA” e a relação léxico-semântica de cossignificação entre os nomes. Ou seja, a fonte do humor vem da tentativa de atribuir uma significação compartilhada para itens linguísticos que, a princípio, categorizam (ou introduzem no texto ) objetos de discurso/referentes textuais com diferentes traços semânticos. A fala do “VOVÔ” autoriza essa leitura e aí reside todo o sentido da piada que também envolve relações metalinguísticas, pois a compreensão requer:

(i) o reconhecimento inicial de que o texto multimodal (produzido com a combinação de linguagens verbal e não verbal) representa uma interação entre sujeitos que expressam hipóteses sobre o uso da língua;

(ii) a recuperação de um conhecimento enciclopédico e possivelmente compartilhado entre os personagens da charge (e leitores), da definição de sinônimo, da interseção entre significados que há na relação de sinonímia;

(iii) o deslocamento de sentidos dos elementos linguísticos do texto para o campo metafórico, pois não se trata de mera conversação sobre o uso de certas palavras da língua, porque assim temos apenas uma leitura entre os níveis superficial e médio;

(iv) a análise da referência a “TUCANO” – termo designador do símbolo do partido PSDB e dos seus filiados – como remissiva a uma temática focada em avaliação depreciativa do cenário político do país (considerando os traços semânticos negativos que se pode atribuir aos outros termos entre aspas na pergunta), e assim atingimos uma possível leitura profunda do sentido crítico que a charge carrega.

Quanto aos elementos não verbais, uma coisa interessante de notar é a caracterização dos personagens e os significados que revelam. Temos de um lado um menino provavelmente na faixa dos 6 a 8 anos, usando vestimentas informais e coloridas indicadas para estação quente, inclusive come um picolé sentado de modo descontraído no chão. Todos esses ícones apontam para a leitura de um perfil relacionado à juventude, através do personagem infantil demonstra-se a voz, o olhar simplificador e o posicionamento generalizante da juventude, neste caso, em relação à política nacional. De outro lado, está caracterizado um homem idoso, que ao contrário do menino não sente a mesma sensação térmica por estar vestindo uma roupa que cobre todo seu corpo, além disso o personagem idoso usa óculos, quer dizer que tem problemas de visão, e está sentado confortavelmente numa cadeira de balanço em movimentação.

O que se depreende do conjunto icônico descrito? É possível afirmar que a charge veicula uma crítica social a fim de expor a mudança social na maneira de compreender o cenário político entre diferentes gerações e os ícones mais representativos do contraste são a referência ao problema de visão do idoso e a representação das posições espaciais dos dois personagens. Também o recurso gráfico de colocar algumas palavras entre aspas sinaliza que a significação lançada no texto não é de natureza literal. Para captar o efeito de humor que acompanha a crítica, é preciso reconhecer essa quebra semântica no funcionamento discursivo dos termos destacados através da relação complementar entre significados associados aos itens verbais e não verbais.

Ao consultar a ficha catalográfica de tradução de um livro de Charles Dickens, percebi que o tradutor optou pela palavra “esperanças” no lugar de “expectativas”. Refiro-me à obra Great Expectations, cuja tradução do título para o português brasileiro foi Grandes Esperanças. Eis uma questão de sinonímia e tradução,  geradora de discussões do tipo até que ponto uma palavra dá conta do sentido evocado por outra, qual a proporção de alcance do mesmo campo semântico, repito do mesmo!?!?

Difícil saber, uma vez que a equivalência perfeita de significado não é uma propriedade inerente às relações de sinonímia, ou seja, sempre vai escapar ou faltar um traço semântico na operação de troca entre termos sinônimos. Na edição 81 da Revista Língua Portuguesa, o linguista José Luiz Fiorin coloca que: “Estender o enunciado usando muitos sinônimos ajuda a dar ênfase ao sentido, mas realça a inexistência de sentidos equivalentes perfeitos entre as palavras.” Fazer isto dentro de um texto sem critérios é correr o risco de mudar alguma coisa na sua progressão, porque a construção de sentidos depende muito da significação dos itens linguísticos que são selecionados pelo produtor.

As duas palavras compartilham o significado de espera, fora isto as definições lexicais apresentam variações, porém não vou demonstrá-las aqui, vou deixar a verificação a cargo de cada leitor. Embora esse aspecto da tradução tenha surtido em mim a reflexão que expus, a coisa que mais me atraiu na obra inglesa foi o singelo começo do capítulo 1:

“O sobrenome da família do meu pai era Pirrip, e o meu nome de batismo, Philip, mas o máximo que minha língua infantil conseguia articular era Pip. Assim, passei a chamar-me Pip, e passaram a chamar-me Pip”. (…)

O formato das letras no túmulo de meu pai dava-me uma ideia estranha de que fora ele um homem honesto, robusto, moreno, de cabelos negros encaracolados. Dos caracteres  e do estilo da inscrição lapidar “E Também Georgiana, Esposa do Acima Referido”, tirei a conclusão infantil de que minha mãe era sardenta e enfermiça. (p. 9)

A referência do escritor ao período de aquisição da língua materna do protagonista, tão bem colocada no texto de ficção para marcar o início do percurso narrativo de Pip, foi o motivo determinante para minha decisão de levar o livro comigo.

Imaginem a situação, eu estava numa livraria e de repente um livro em especial prendeu minha atenção por sua encadernação em estilo antigo, capa em tecido roxo com desenhos de folhas,  marcador de páginas em fita de cetim, folhas em papel bem fino. Quase comprei só por causa da capa, admito, e é até ridículo dizer isso a respeito de um clássico da literatura, um clássico até agora fora de meu campo de interesse.  Entretanto tudo mudou depois que abri aquela capa roxa e li o começo da história, foi apaixonante!! A escolha do livro assumiu outro sentido, bem significativo para mim neste exato momento em que me preparo para desenvolver uma pesquisa na área de aquisição da linguagem. Assim, as pontas desconexas de minha aventura pela livraria se encontraram.

O livro roxo de Pip

O livro roxo de Pip

Por fim, o trailler de uma versão cinematográfica da obra literária, infelizmente sem a singeleza do início do texto de ficção.

Referências:
DICKENS, Charles. Grandes esperanças. Trad. José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. São Paulo: Abril, 2010. 672p.
FIORIN, José Luiz. A clonagem de sinônimos. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, n. 81, 2012.

Para quem acompanha as publicações do blog mundotexto, pode parecer evidente o quanto gosto de produzir ou republicar textos em que a significação linguística seja trabalhada de uma maneira inovadora. Isto explica minha predileção por questões de:

– metalinguagem (quando usamos a língua ou outras modalidades de linguagem para falar dela mesma, como estou fazendo agora);

– construção de sentidos em charges, cartoons, textos humorísticos, histórias em quadrinhos, mensagens e/ou dizeres que circulam na web (nesses gêneros textuais geralmente é onde mais se exploram reversões de significação, da semântica dos textos);

– desdobramento, reversão e multiplicidade de significados agregados aos itens linguísticos de textos poéticos (um trabalho exemplar do que me refiro está exposto no blog Pirosfera Candida – As piroses poéticas mais enológicas em (pre)textos).

Por assim dizer, compartilho um breve texto publicado na revista Carta Capital e pelo qual me interessei justamente por conter todas essas características que citei.  A felicidade do dizer, tomando emprestada uma noção da pragmática, recai sobre a forma de explorar a significação do item linguístico “semântica”.

Semântica classista
Os ricos chamam de custo de vida aquilo que a classe média denomina como inflação e os pobres excomungam como carestia.
São muitos os nomes. Mas o dragão é um só.”

por Mauricio Dias, Carta Capital.

A MÍDIA num blog exploratório

Clique na imagem para acessar o texto e depois na seta para iniciar a apresentação da multimídia, que será melhor visualizada em tela cheia. Boa experiência de leitura!

Aos poucos os objetivos do blog mundotexto são alcançados. Refiro-me especialmente ao objetivo de promover interações entre pesquisadores, o qual se concretiza através da indicação do blog como fonte de estudo na área de Linguística Textual em um site alemão para estudantes de Português Brasileiro (http://www.portuguesbrasileiro.de).

À propósito da relação inicial de mundotexto com a Alemanha, expliquei em outro post como foi a escolha do nome do blog: a partir da leitura de artigo produzido por uma linguista textual de nacionalidade alemã, chamada Monika Schwarz.

A responsável pelo site Português Brasileiro: Sobre o idioma e a cultura do Brasil é a pesquisadora Katia Arend, curitibana que conheci no curso de mestrado da Universidade Federal do Paraná. Ela desenvolveu sua pesquisa na Universidade de Leipzig, atualmente ensina Português Brasileiro na cidade de Leipzig.

E assim expresso meu agradecimento pela referência feita ao blog:

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Uma sugestão de mundotexto: O simbolismo da Bandeira do Brasil.

Sempre o mito da corrupção da língua.

Nem uma coisa nem outra.

Vale lembrar que não é bem assim como se ouve falar…

Não adianta, por exemplo, depreciar as práticas de linguagem por meio de variedades de textos com diferentes propósitos comunicativos que são escritos na internet, em mídias sociais como o Facebook e em toda infinidade de TICs mediante as justificativas de:

– destruição da língua materna só por causa da grafia de abreviaturas diferentes, pontuação abundante, acentuação e letras maiúsculas de modo deficiente;

– interferência negativa no aprendizado da língua escrita ilusoriamente tida como a certa;

– modificação “total” do português em uso por aqui, que muito antes do surgimento das TICs nem se parecia mais com aquele usado em Portugal;

– desconhecimento das regras gramaticais, mas de qual gramática? tradicional? descritiva? de usos? da língua falada?

– e por aí vai…

Pensar assim denota um posicionamento purista em relação à língua ou mesmo de negação/desconhecimento do fenômeno da variação linguística tão presente em nossa vida diária, nos falares e escritos que nos rodeiam, além de um olhar desequilibrado sobre a  prática de ensino de produção textual devido à fixação nas formas linguísticas em maior escala do que na construção dos sentidos textuais. Por fim, o pior de tudo é perceber que em muitos casos atribui-se “o fracasso metodológico do ensino de notação ortográfica para um fator externo à prática pedagógica que por si só não pode ser responsabilizado” (XAVIER, 2005, p. 13).

rede
Por isso concordo com Marcuschi, “os sentidos são bens humanos“!

Usar a linguagem para falar dela mesma não se restringe ao verbal, há lugar para o não verbal nesse “estar fora da linguagem” (FLÔRES, 2011, p. 258).

http://1.bp.blogspot.com/-tCTL1k_Qx94/T4Xy6XI6VRI/AAAAAAAAA8M/4EFmBGYAKj4/s1600/O+BUGIO+(1).png

Após ler o post Como a tecnologia está presente na sua sala de aula? pude perceber que a imagem do cabeçalho do blog mundotexto, marcas de oficina lítica em uma praia de Santa Catarina, apresenta uma das primeiras tecnologias de produção de artefatos (HERBERTS et al., 2007) do homem pré-histórico. O vídeo anexado ao post em questão, que conta a história da tecnologia na educação, refere-se a inscrições rupestres como a primeira tecnologia de educação empregada pelo homem das cavernas.

Mais ou menos por esta ponte de significação, expresso meu entendimento sobre a produção de textos, atividade em que a persistência para trabalhar as palavras e as ideias pode ser comparada ao trabalho artesanal de polimento de rochas para a produção de ferramentas. E há muito tempo os textos são poderosas ferramentas de inserção social. A escolha da foto foi um tanto aleatória, não pensei nessa relação de sentido que também representa muito para mim. Afinal de contas, minha pesquisa envolve a questão do uso de TIC na produção de dada variedade de texto ou gênero discursivo: o depoimento do Orkut.

Como mencionei um aspecto ligado à construção da identidade visual do blog, aproveito o gancho para explicar o porquê do seu nome. No primeiro post até escrevi que os TEXTOS são as coisas que mais me interessam no mundo e são mesmo! Ao contrário da seleção da imagem, a maneira que escolhi para grafar o nome do blog é algo bem pensado. Vem de indagações que surgiram a partir da leitura de um artigo sobre coerência produzido pela linguista textual de origem alemã Monika Schwarz. No texto dela, encontram-se várias referências ao termo “text-world model”, o qual não saiu mais da minha cabeça porque eu ficava brincando de traduzir para tentar me aproximar do que a teórica queria dizer: seria modelo de mundo e texto? texto-mundo ou mundo-texto? teria que inverter mesmo? e manter a composição da grafia? seria uma versão em inglês de uma daquelas palavras compostas do alemão? ou seria um modelo de mundo textual?

Passados alguns dias, acordei disposta a criar o blog e não tinha dúvida de qual nome teria. Eis aí o mundotexto que entrego à blogosfera!

O vídeo a que me referi no começo aborda de forma didática a evolução histórica das tecnologias de educação. É uma produção americana, então cabe ajustar a interpretação em função das diferenças de contexto social e histórico, o que talvez justifique a minha constatação de que só conheci depois dos anos 90 em ambiente de educação no Brasil muitas das tecnologias utilizadas entre as décadas de 40 a 80.