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“Receita pra lavar palavra suja” é uma criação poética de Viviane Mosé não só interessante, mas ainda metalinguística (!) como toda poesia boa. Segundo a metáfora da poetisa, a palavra é como uma roupa, já a metalinguagem fica por conta dos usos das palavras/roupas. Por isso, compartilho o vídeo em que a autora recita com gosto sua composição:


É que eu queria dizer uma coisa que eu não posso sair dizendo por aí
Na verdade é um segredo que eu guardo
É uma revelação que não posso sair dizendo por aí
Que eu tenho medo que as pessoas se desequilibrem de si
Que elas caiam delas mesmas quando eu disser
Eu descobri que a palavra não sabe o que diz
A palavra delira
A palavra diz qualquer coisa
A verdade é que a palavra nela mesmo em si própria
Não diz nada
Quem diz é o acordo estabelecido entre quem fala e quem ouve
Quando existe acordo, existe comunicação
Quando esse acordo se quebra, ninguém diz mais nada
Mesmo usando as mesmas palavras
A palavra é uma roupa que a gente veste (…)

 

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GIZ

Não sou eu que escrevo. Escravo,
lavro este chão que não semeio.
Servo do verso, não o tenho
— faço ele vir como me veio

Não sou a luz. Espelho, espalho
a de outro sol que em mim se escoa.
Nem tenho a língua, só a voz,
vale por onde a língua ecoa.

Não sou eu que escrevo. Transcrevo
— tem algo maior que me guia.
Tímido giz, frágil me arrisco
nos quadros negros da Poesia.

Marcos Bagno. In: Vaganau.

Foto drummond

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

(Carlos Drummond de Andrade)

Para entendermos a metalinguagem devemos pensar primeiro como se define a linguagem. Todos nós como falantes de língua portuguesa podemos desenvolver habilidades de expressão verbal através da língua e não verbal por meio de outros modos de expressar uma informação com finalidades diversas.

A soma dos modos de expressão verbal e não verbal constitui a linguagem que, na visão do filósofo Mikhail Bakhtin, é uma atividade social e interacional, justamente porque os falantes que vivem em sociedades usam tais modos de expressão em ações conjuntas com diversos objetivos, dentre eles, a comunicação, a troca de experiências, a busca do conhecimento. Não só a língua, mas também sons, imagens estáticas ou em movimento, elementos gráficos, movimentos corporais, etc. são modos de expressão que realizam atividades sociais, isto é, são modalidades de linguagem.

O linguista Roman Jakobson afirma que o estoque de conhecimento linguístico do falante permite que este fale em sua língua e também fale de/sobre sua língua. Um exemplo prático para entender as maneiras diferentes de usar a língua é imaginar uma pessoa que coloca a cabeça para fora de um veículo em movimento e fica olhando para quem está dentro do carro. Evidentemente é uma atitude arriscada, porém serve para mostrar o que é feito quando se usa a metalinguagem. Isto quer dizer que ocorre um posicionamento externo de quem se expressa para tratar da língua ou de outra modalidade de linguagem. Que outros exemplos de metalinguagem nós temos? O matemático que usa os próprios números para fazer os cálculos; o gramático que usa a própria língua para produziras regras; o falante que usa a própria língua para confirmar se entendeu o que outro falou fazendo a seguinte pergunta: “O que é que você quer dizer?”.

Jakobson também observa que praticamos a metalinguagem desde criança em nossas primeiras experiências de expressão verbal e isto se mantém pela vida toda, tanto que usamos a metalinguagem às vezes sem perceber a inversão de posição para falar da linguagem através dela mesma. Há casos em que a prática da metalinguagem é intencional, mas se tratam de situações específicas cujo objetivo é explorar os significados que o uso metalinguístico pode provocar. Na sequência, teremos contato com outras produções em que a metalinguagem se apresenta.

Materiais sugeridos para desenvolver atividades voltadas ao Ensino Médio:

– vídeo da canção Versos Simples;

– letra da canção Versos Simples;

exercícios.

metalinguagem

Referências bibliográficas

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Trad. de P. Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1979].

JAKOBSON, R. Linguística e comunicação. 22.ed. Tradução de  Izidoro Blikstein; José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 2010.

 

O conteúdo da charge desnuda a reação ao status quo: a aquiescência, a conivência, o conflito, o choque, a rejeição, a oposição, o contraditório. (…) Sua temática, em geral, versa sobre o cotidiano – questões sociais que afligem, irritam, desgostam, confundem. Essas questões focalizam os universos de referência do público, expondo testemunhos, registrando perplexidades, apontando falhas, satirizando pontos de vista, desvelando motivações ocultas, introduzindo questionamento. Por natureza é polêmica (FLORES, 2002, p.11).

 

sinônimos

Nesta charge, o personagem infantil questiona quanto ao uso referencial dos nomes “CARTEL”, “GANG”, “TUCANO”, “QUADRILHA”, “PRIVATARIA” e a relação léxico-semântica de cossignificação entre os nomes. Ou seja, a fonte do humor vem da tentativa de atribuir uma significação compartilhada para itens linguísticos que, a princípio, categorizam (ou introduzem no texto ) objetos de discurso/referentes textuais com diferentes traços semânticos. A fala do “VOVÔ” autoriza essa leitura e aí reside todo o sentido da piada que também envolve relações metalinguísticas, pois a compreensão requer:

(i) o reconhecimento inicial de que o texto multimodal (produzido com a combinação de linguagens verbal e não verbal) representa uma interação entre sujeitos que expressam hipóteses sobre o uso da língua;

(ii) a recuperação de um conhecimento enciclopédico e possivelmente compartilhado entre os personagens da charge (e leitores), da definição de sinônimo, da interseção entre significados que há na relação de sinonímia;

(iii) o deslocamento de sentidos dos elementos linguísticos do texto para o campo metafórico, pois não se trata de mera conversação sobre o uso de certas palavras da língua, porque assim temos apenas uma leitura entre os níveis superficial e médio;

(iv) a análise da referência a “TUCANO” – termo designador do símbolo do partido PSDB e dos seus filiados – como remissiva a uma temática focada em avaliação depreciativa do cenário político do país (considerando os traços semânticos negativos que se pode atribuir aos outros termos entre aspas na pergunta), e assim atingimos uma possível leitura profunda do sentido crítico que a charge carrega.

Quanto aos elementos não verbais, uma coisa interessante de notar é a caracterização dos personagens e os significados que revelam. Temos de um lado um menino provavelmente na faixa dos 6 a 8 anos, usando vestimentas informais e coloridas indicadas para estação quente, inclusive come um picolé sentado de modo descontraído no chão. Todos esses ícones apontam para a leitura de um perfil relacionado à juventude, através do personagem infantil demonstra-se a voz, o olhar simplificador e o posicionamento generalizante da juventude, neste caso, em relação à política nacional. De outro lado, está caracterizado um homem idoso, que ao contrário do menino não sente a mesma sensação térmica por estar vestindo uma roupa que cobre todo seu corpo, além disso o personagem idoso usa óculos, quer dizer que tem problemas de visão, e está sentado confortavelmente numa cadeira de balanço em movimentação.

O que se depreende do conjunto icônico descrito? É possível afirmar que a charge veicula uma crítica social a fim de expor a mudança social na maneira de compreender o cenário político entre diferentes gerações e os ícones mais representativos do contraste são a referência ao problema de visão do idoso e a representação das posições espaciais dos dois personagens. Também o recurso gráfico de colocar algumas palavras entre aspas sinaliza que a significação lançada no texto não é de natureza literal. Para captar o efeito de humor que acompanha a crítica, é preciso reconhecer essa quebra semântica no funcionamento discursivo dos termos destacados através da relação complementar entre significados associados aos itens verbais e não verbais.

Usar a linguagem para falar dela mesma não se restringe ao verbal, há lugar para o não verbal nesse “estar fora da linguagem” (FLÔRES, 2011, p. 258).

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