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Na dúvida entre a poesia e o humor, amontoei umas palavras para falar dos dois ao mesmo tempo. Assim veio esta poesia com pretensão de piada:

riso

A poesia da piada
tem rima e risada
de português,
de loira,
do Joãozinho,
de internetês,
da presidenta,
do Ronaldinho.
A poesia dá piada,
sem rir dá nada,
dá conversa fiada,
dá verso com gargalhada.

Esperança — Ano Novo
(Mario Quintana)
Crédito: Dulce Helfer

Crédito: Dulce Helfer

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegrama?).
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

RECEITA DE ANO NOVO

ANDRADE, C. D. Receita de Ano Novo. Editora Record. 2008.

O tijolo e a palavra: peças de construção da vida. Interessantes relações de sentidos são feitas neste texto poético.

Angelinoneto's Blog

O tijolo sonha em ser…

A palavra sonha em ser…

Com tijolos construímos prédios,

Prédios que abrigam pessoas…

Com palavras construímos idéias,

Idéias que melhoram a vida das pessoas!

O tijolo almeja em ser…

A palavra almeja em ser…

Com tijolos construimos estradas,

Estradas que conduzem as pessoas de um lugar para outro!

Com palavras construimos um caminho,

Um caminho entre o que fomos e o que seremos!

O tijolo sonha em ser…

A palavra sonha em ser…

Com tijolos contruimos pontes,

Pontes que ligam cidades, países… pessoas!

Com palavras nos conectamos,

Nos conectamos com a alma e o coração das pessoas!

Como o tijolo, a palavra é instrumento,

Instrumento para construir idéias, caminhos e conexões,

Ferramentas para um novo mundo e ferramentas para a paz!

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Maria Esther Maciel
OFÍCIO
Escrever
a água
da palavra mar
o vôo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.

TRIZ, de Maria Esther Maciel
(Belo Horizonte: Orobó Edições, 1998/1999, 2 edições)

Dora Ferreira da Silva
Boneca

A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio.
Quem a aninhará nos braços
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil
mais frágil que o de pássaro.
Confia. Assim passiva
o vento brincará contigo
franzirá teu avental
dirá coisas que entendes
desde a aurora das coisas:
foste um caroço de manga
uma forma de nuvem
ou um galho com braços
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim.
Para ser embalada nos braços
da menina que houver.

IEDA ESTERGILDA DE ABREU

IDEÁRIO (1)

A palavra passa
o gesto fica
o carro passa
o pé fica
o foguete passa
a estrela fica
o adeus passa
a mão fica
o abraço passa
o calor fica
a guitarra passa
a música fica
a bola passa
o jogo fica
o cabelo passa
a cabeça fica
os navios passam
o mar fica
os deuses passam
o homem-deus fica.

MARIANA BOTELHO

Nascente

córrego
cachoeira
ribeirão

eu choro
pra pertencer à paisagem

ANGELICA TORRES

AO NAVEGANTE

Desveste o coração
das plumas e dos pesos
da existência

Deste portal em diante
só existem paisagens:
os riscos esboçados
dos pórticos do olhar

Neles não cabe ciência,
sequer filosofia,
mas o simples gozo
de vagar

LENILDE FREITAS
Bilhete

Se você dobrar à esquina
da rua detrás da minha
e se não tiver preguiça
de atravessá-la todinha,
encontrará na esquina oposta
num muro alto caiado
uma frase escrita em sânscrito
como se fosse um recado
para ninguém sabe quem
e por ninguém decifrado.
Se conseguir decifrá-la
responda seja o que for
lá mesmo no espaço ao lado
faça-me este favor
que não vai lhe faltar nada.
Era só isso. Obrigada
MARIA THEREZA NORONHA

Seis

Seis palavras à procura de um poema
— pirotécnicas e pirandellianas —
passeiam pela noite descuidada.
Dadas as mãos, atravessam a praça,
olham o céu, buscando comovidas
da lua cheia a face sextavada.
Contam estrelas, meio envergonhadas:
bem sabem o banal deste recurso
e vão-se afastando, cabeças baixas.
Seis palavras flutuam, indecisas,
em demanda de estrofe onde se encaixem.
Soltas, nada mais são que sopro, brisa.
Soltas, nada mais são que folhas novas
brotando da videira, pressurosas:
furam o tronco e ainda não são uvas.

ADELIA PRADO

AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

CORA CORALINA

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

CECILIA MEIRELES

O mosquito escreve

O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.

O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.

Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.

Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.

Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?

E ele está com muita fome.

Aula inaugural do curso de Linguística da UFSCar que foi ministrada pelo profº José Luiz Fiorin. Alguns dos tópicos tratados pelo linguista:

Quem escolhe o curso de Letras é porque não teve capacidade de escolher um curso considerado de maior prestígio como Medicina, Direito, Engenharia?

Será que nós temos que aceitar o valor atribuído ao curso de Letras, ao curso de Linguística pelo mercado acadêmico?

Ao mesmo tempo que há um debate, em que há um certo desprezo pelo curso de Letras, pelo curso de Linguística, ao mesmo tempo as questões sobre linguagem apaixonam a sociedade.

A linguagem é uma coisa onipresente na vida de todos nós.

A linguagem paixona porque nos acompanha em todos os fatos de nossa vida.

A exploração da polissemia da língua pela mídia, de certa forma a poesia está dentro
desse lugar [do fazer] da linguagem.

Sobre a linguagem do personagem Analista de Bagé de Luis Fernando Veríssimo.

Ridicularizar a forma de falar de uma pessoa é admitir a própria identidade da pessoa.

O preconceito linguístico existe, é regional, social …

 

 

A poesia Pró-ficção de Pirosfera Cândida é um Texto inVerso & Prosa no mundotexto!

Recebi um e-mail com informação sobre a publicação de nova edição da revista científica Artefactum – Revista de Estudos em Linguagem e Tecnologia, periódico do Núcleo de estudo e treinamento em linguagem – RAFROM.

Em particular, achei interessante a discussão – que toca na questão da reinvenção de formas de produção poética no ciberespaço – apresentada no artigo A poesia digital: a produção poética inserida no mundo das tecnologias, de Kátia Caroline de Matia e Mirian Hisae Yaegashi Zappone, do qual destaco a seguinte observação (p. 6):

A poesia digital surge num contexto em que se agregam vários sistemas semióticos e que, embora pareça algo novo, muitas formas de produção poética anteriores já experimentavam tecer significados para além do nível semântico da linguagem, explorando as técnicas e os materiais disponíveis, de modo que a poesia ao lidar com elementos não verbais, com a visualidade, com a plasticidade da palavra não é exclusividade do novo contexto cibercultural. Tomemos como exemplo as tendências poético-visuais de 300 a.C. no ocidente. O poeta Símias de Rodes criou um poema em forma de ovo, chamado de O Ovo, e trata do nascimento de Eros, deus do amor, a partir de um ovo primordial, o Caos.
https://mundotexto.files.wordpress.com/2013/06/814eb-simeas_de_rodes.jpg