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Com o lançamento do Programa Mais Médicos em 08/07/2013, em tese uma medida emergencial do governo federal para estancar o problema da escassez de recursos humanos no setor da saúde (ou melhor dizendo, a falta de médicos no interior do Brasil), meios de comunicação massivos e mídias paralelas tem apresentado as mais diversas versões opinativas a respeito da questão para lá de polêmica, que já vinha em discussão há algum tempo. Se não estou enganada, desde que sou criança ouço falar em falta de médicos no serviço público de saúde e acesso restrito à formação desses profissionais em instituições públicas pelas poucas vagas e em instituições particulares pelo custo elevado. Só para dar uma ideia da longevidade da discussão, estou beirando os 40 anos.

Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr - Revista Fórum

Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr – Revista Fórum

Para ser condizente com os propósitos do blog, direciono minha discussão para certos elementos de textos jornalísticos, bem como de outras fontes selecionadas para oferecer uma leitura didática acerca do assunto. Inicialmente traço considerações a partir dos títulos e subtítulos dos textos para tratar da expectativa de leitura propiciada por estes recursos e em seguida destaco partes textuais em que se colocam a temática principal ou os pontos de vista dos autores.

O primeiro texto que li detidamente sobre as reações do setor da saúde quanto ao Programa Mais Médicos vem de uma mídia paralela, a republicação do blog Hum Historiador de post do também blogueiro Saul Leblon – Raízes do Brasil: no levante dos bisturis, ressoa o engenho colonial, cuja fonte original está representada na imagem abaixo que capturei no site Carta Maior.

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Carta Maior – O portal da esquerda

Ao ler o título do texto, não tive dúvida de que seu conteúdo teria um cunho contrário em relação à resistência da classe médica à proposta do governo federal. Considerando a esfera de onde parte essa opinião, uma mídia autodenominada por meio de vocábulo (esquerda) que sugere oposição, não surpreende o predomínio da crítica contra o elitismo daquela classe profissional em detrimento de interesses de classes minoritárias sem condições de custear um plano de saúde particular e mesmo sem acesso a um único médico em suas cidadezinhas. Leblon não poupa palavras para abordar a resistência do setor “Contra a adesão de profissionais ao programa ‘Mais Médicos’, que busca mitigar o atendimento onde ele inexiste”. Além disto, o ponto chave de todo sentido do texto está na referência ao que o historiador Sergio Buarque de Holanda escreveu em sua obra Raízes do Brasil de 1936, perfeitamente aplicável no cenário atual:

Sergio Buarque de Holanda anteviu, em 1936, as raízes de um Brasil insulado em elites indiferentes ao destino coletivo. O engenho era um Estado paralelo ao mundo colonial. O fastígio macabro fundou a indiferença da casa-grande aos estalos, gritos e lamentos oriundos da senzala ao lado, metros à vezes, da sala de jantar.  Por que os tataranetos se abalariam com a senzala das periferias conflagradas e a dos rincões inaudíveis?

Vejamos como outros textos jornalísticos pontuam aspectos de tal reação resistente.

A revista Carta Capital através do artigo intitulado Os médicos brasileiros têm medo de quê?  apresenta a posição de Ricardo Palacios, médico da Colômbia já estabelecido no Brasil.

Publicação na seção Sociedade da Revista Carta Capital

Publicação na seção Sociedade da Revista Carta Capital

O  questionamento evocado pelo título do texto recebe resposta contundente do autor que trata dos supostos temores do “grêmio médico no Brasil” em relação aos concorrentes  estrangeiros. Segundo Palacios, é infundado o argumento quanto à desqualificação dos profissionais formados no exterior, cujo processo de seleção ocorre de fato no interior das escolas de medicina e “diferentemente do que acontece no Brasil, entrar na escola de medicina não significa que o aluno será médico seis ou sete anos mais tarde”. Nestes termos, o médico tece sua crítica ao modelo brasileiro para ingresso de candidatos aos cursos de Medicina, visto que de um lado há a seleção dos “melhores” e de outro lado há a exclusão daqueles de classes economicamente desfavorecidas. A parte final do artigo apresenta elementos para considerar que a resposta do colombiano vai ao encontro dos objetivos do programa do governo:

Os médicos estrangeiros a serem importados são o principal alvo em um protesto com pesado caráter trabalhista, de proteção de mercado. Porque a pior ameaça que os cubanos representam é que podem dar certo. Porque os cubanos podem demonstrar que a população não necessita de grandes hospitais de alta tecnologia, mas de médicos acessíveis que estejam ao seu lado.

A título de exemplo da indignação contra o programa Mais Médicos, apenas republicarei outro texto jornalístico que traça as linhas condutoras do protesto a que Palacios se reporta. É uma publicação da Folha de São Paulo de 10/07/2013 na seção Mercado:

A revolta das elites

por Vinicius Torres Freire, Folha de São Paulo

Os 10% ‘mais ricos’ do Brasil, ‘classe média’ de verdade, irritam-se mais com os governos do PT

DILMA ROUSSEFF comprou briga com um pedaço grande da elite brasileira, os médicos, suas famílias, simpatizantes e parentes. Ou assim parece provável.

A maioria das associações de médicos está enfurecida com a história do plano de imigração; parte parece irritada com o serviço obrigatório no SUS para recém-graduados. Mas a gente ainda não tem como saber como pensam os 400 mil médicos do país a respeito das medicinas da doutora Dilma. (continua…)

Pode até parecer que busco favorecer determinada mídia, no entanto afirmo que não se trata disto, pois só estou reproduzindo mais uma publicação da revista Carta Capital para tentar obter uma fonte que fundamenta o texto produzido por Roberto Amaral: A medicina e o Brasil real.

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Publicação na seção Política de Carta Capital

Uma das partes textuais que me chamou atenção, especificamente pelo sentido contestador (o parágrafo está marcado duas vezes e inclusive começa com o operador argumentativo MAS) e também por não ter conseguido acessar a referência fornecida pelo autor (essencial para a reconstrução dos sentidos textuais), é a seguinte:

Mas o dr. Kalil, o médico da Corte e dos afortunados, é “terminantemente contra” a vinda de médicos estrangeiros porque, para haver medicina, é preciso haver “hospital bem estruturado” (FSP, 10/07/2013). Mas o que é, na realidade brasileira, ‘um hospital bem estruturado”? Não explica e ficamos sem saber.

Gostaria muito de ler o que o “dr. Kalil” expressou através da FSP. Os resultados de busca no Google levam apenas para a fonte da revista ou para republicações desse artigo em outros sites e blogs. Seguem então versões de quem vive o outro lado dessa história, ou melhor, passemos à confrontação entre opiniões e fatos relatados pela mídia.

Para minha surpresa, encontrei uma notícia anterior ao lançamento do Mais Médicos em jornal do Rio Grande do Sul com este título, a princípio, motivador: Médicos do interior chegam a ganhar mais do que os prefeitos das cidades, de 19/05/2013.

Para a Zero Hora, um exemplo de vida em cidade pequena com salário grande

Para Zero Hora, exemplos de vida em cidade pequena com salário grande

Lendo a matéria de Fernanda da Costa e Fernando Goettems, há como verificar que a vida de médicos no interior pode não ser tão ruim quanto se alega nas discussões avolumadas nos últimos meses. Isto é o que testemunha uma das profissionais da classe que se sente valorizada após abrir mão de um contrato como concursada para trabalhar como terceirizada e com remuneração mais vantajosa. Consequentemente, essa adaptação de contrato custa um pouco mais em termos de cumprimento da legislação por parte da administração pública.

Parece que o cenário de mudança no setor da saúde levou à produção de uma série de textos com justificativas para a desmotivação pela atuação médica no interior do país, dentre as quais é possível encontrar:

(i) medo de ser processado por acusação de erro médico;

14/07/2013 – 06h30
‘Medo de processo por erro afasta médico do interior’, diz leitor

Seria uma resposta à pergunta feita pelo médico colombiano em seu artigo da Carta Capital (Os médicos brasileiros têm medo de quê?)??? Não, trata-se de uma espécie de defesa produzida por médico provavelmente brasileiro na seção Painel do Leitor da Folha de São Paulo.

(ii) pouca estrutura hospitalar e falta de assistência;

Médicos contam como é trabalhar onde falta tudo, até esparadrapo
Profissionais de Macapá (AP) e do interior da Bahia relatam dificuldades de conviver com pouca estrutura dos hospitais e casos terríveis de falta de assistência

No texto de Maria Fernanda Ziegler, publicado na seção Último Segundo do site iG São Paulo em 08/07/2013, constam relatos de dois médicos que sabem como é atuar no interior do país. A profissional de Macapá é mais experiente, deixou o consultório na capital gaúcha há 16 anos para assumir vaga de um concurso em hospital precário da região norte. O médico recém-formado optou por trabalhar no interior da Bahia até conseguir a aprovação em curso de residência, foi integrante do Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), criado em 2011 pelo Ministério da Saúde e destinado à atuação de médicos, enfermeiros e cirurgiões-dentistas em regiões longínquas e desassistidas.

(iii) imposição da prestação de serviços aos estudantes de medicina.

10/07/2013 – 06h00
Para leitor, dois anos a mais de formação não garantem médicos melhores

Este último título informa opiniões quanto à impossibilidade de melhorar a qualidade da saúde pública. Para um médico de São Paulo e outro sujeito de Curitiba, a proposta federal lançada em 08/07 é ineficaz, pois provocará rotatividade de profissionais que serão obrigados a trabalhar no SUS por 2 anos sem obter uma capacitação ideal.

Por fim, faço questão de explicitar que sou favorável ao programa Mais Médicos. Manobra eleitoreira, populista ou não, prefiro não pensar como burguesa (status que não sustento), pelo simples e triste fato de que pessoas, independente de classe social, poderão finalmente receber um mínimo de atenção a sua saúde, um direito garantido pela Constituição Federal, a saber:

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Compartilho links de dois textos em que prós e contras do tema discutido aqui são apresentados conjuntamente. Para quem ainda tiver fôlego para continuar a leitura.

REVISTA ÉPOCA – Crise na saúde: entenda as propostas polêmicas para a área
O governo federal aprovou o “Programa Mais Médicos” e vetou trechos do Ato Médico sob protestos de entidades de classe por Amanda Polato e Nathalia Tavolieri.
JORNAL TRIBUNA DA BAHIA – Interior da Bahia espera por médicos por Naira Sodré.
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O americano Noam Chomsky é o próximo linguista a quem faço referência ressaltando uma característica especial de seu trabalho. Além de teórico da sintaxe, do gerativismo e do programa minimalista (versão atual da gramática gerativa), o cientista da linguagem assume importante posição como ativista no cenário geopolítico. Não poderia ter sido melhor encontrar este texto (adaptado abaixo) que enfoca seu posicionamento crítico no momento, pois é uma notícia de 17/06/2013 que ainda apresenta um pouco de sua atuação como linguista.

Chomsky: “Estou com os manifestantes do Brasil”

por Camila Nobrega do Canal Ibase
Enviada a Bonn (Alemanha)

Cercado de jornalistas e curiosos de pelo menos 30 países, na noite desta segunda-feira (17/6), o linguista e crítico político de renome mundial Avram Noam Chomsky, de 84 anos, caminhava lentamente para se retirar da plenária após sua palestra no Forum Global de Midia, em Bonn (Alemanha). Estava acompanhado de seguranças e assessores que tentavam manter todos afastados e não parecia disposto a responder mais indagações. Em uma fileira formada ao lado dele, consegui gritar uma pergunta. Ao ouvir as palavras “Turquia” e “Brasil”, Chomsky virou-se para mim, respondendo-a:

– Embora sejam protestos diferentes e com suas peculiaridades, as manifestações nos dois países são tentativas de o povo recuperar a participação nas decisões. É uma forma de ir contra o domínio dos interesses de grupos econômicos. Acho ambos muito importantes e posso dizer que estou com os manifestantes – disse o linguista, entusiasta do movimento “Occuppy”, declarando apoio ao movimento que toma as ruas de cidades brasileiras e também aos manifestantes turcos.

(…)

– Trata-se de um movimento global contra a violência que ameaça a liberdade em diferentes países. As pessoas estão indo as ruas para defender bens comuns, aqueles que são compartilhados dentro das sociedades. O capitalismo baseado na massificação de privatizações não compreende a gestão coletiva, aí esta o problema. Os movimentos que ocorrem neste momento são legítimos, na tentativa de recuperar a participação popular na gestão destes bens.

(…)

Autor de mais de 70 livros e considerado um dos principais intelectuais vivos atualmente (a quantidade de vezes que ele aparece em citações bibliográficas nos dias de hoje se assemelha a de grandes filósofos, como Platão), Noam Chomsky é, na verdade, um grande defensor da capacidade humana de criar e de se libertar de estruturas de dominação. Seus pensamentos vieram a público no início da década de 1960, quando ele fez uma crítica aberta a outros linguistas, atacando a noção de behaviorismo, segundo a qual o ser humano aprende apenas por imitação. Chomsky defendia, já àquela época, a existência de uma capacidade inata do ser humano de se expressar, de diferentes formas.

Ao longo dos anos, ele foi adaptando este pensamento a um contexto político e se tornou um dos mais vorazes críticos do sistema político-econômico e também cultural dos Estados Unidos. Nascido na Filadélfia, ele se tornou uma voz dissonante dentro do território norte-americano.

Frente a uma plateia composta de pessoas vindas de todo o mundo para a conferência em Bonn, mas majoritariamente de europeus, o discurso de Chomsky pareceu soar um pouco anacrônico. Foi o que se ouviu nos corredores. Não foi essa a interpretação, porém, de participantes vindos de países africanos em desenvolvimento. Não houve também anacronismo para os representantes turcos que estão por aqui, ou de outras pessoas vindas da região que vive hoje a Primavera Árabe. Para estes grupos, nos quais o Brasil parece se incluir, uma fala de Chomsky ecoou:

– O termo democracia pode parecer óbvio para alguns, e aí está a ameaça. Há vários tipos de democracia, várias formas de aplicação deste conceito. O que podemos pensar é: este tipo de democracia onde a esmagadora maioria da população não tem participação alguma é a que queremos?

Leia na íntegra em: http://www.canalibase.org.br/chomsky-estou-com-os-manifestantes-do-brasil/

A montanha de notícias veiculadas pela mídia a respeito dos manifestos que ocorreram em diversas capitais brasileiras em 17/06/2013 pode render uma bela aula de interpretação de textos.

Para auxiliar nesta tarefa convoco o professor Luiz Antonio Marcuschi, porque ele escreveu sobre verbos introdutores de opinião e observou o seu  funcionamento especificamente “no noticiário político dos jornais diários” (MARCUSCHI, 2007. p. 146). A tentativa é  responder de forma breve a duas questões colocadas pelo autor:

1) “será possível informar opiniões sem manipulá-las?”

2) “qual a estratégia usada pelos jornais na informação de opiniões?”

A notícia selecionada foi publicada pelo site do jornal Zero Hora, de Porto Alegre/RS, em 18/06/13, na seção Geral e diz respeito a pronunciamento do governador do estado (Tarso Genro) acerca dos protestos ocorridos na noite de segunda-feira (17/06) na capital gaúcha.  A manchete e o respectivo lide são os seguintes:

Tarso: “A orientação era reagir para defender a integridade física das pessoas”

Governador defendeu a atuação da Brigada Militar nos protestos da noite desta segunda-feira

tarso

Os dois pontos e a inserção aspeada em produções textuais exemplificam dois recursos linguísticos empregados com a finalidade de relatar opiniões, os quais entram sobretudo na composição de manchetes como a que fora apresentada acima. A opção do produtor da notícia demonstra uma estratégia para jogar a responsabilidade pela informação ao seu próprio emissor (Tarso).

Quanto aos verbos, destaco a seleção de “reagir” e “defender”, os quais indicam, pela classificação de Marcuschi, retomadas opositivas e organizam aspectos conflituosos. Logo, na opinião expressa com as palavras exatas do governador, os protestos noticiados são tomados predominantemente como situação de conflito, mesmo que parcela mínima de manifestantes seja responsabilizada por isto: “Uma pequena parte dos manifestantes queria a depredação” (fala reproduzida de Tarso Genro), “uma minoria depredou uma concessionária de motos” (descrição do jornalista).

Já no lide, com o uso do verbo “defendeu” o produtor resume a notícia atribuindo ao governador o papel de defensor das ações tomadas pela polícia, as quais foram orientadas por quem?? A partir do momento em que há necessidade de defender uma posição ou ação é porque esta provavelmente gera controvérsia. E a justificativa da defesa pode ser esta observação nada inocente do jornal: “A Tropa de Choque da Brigada Militar reagiu com bombas de efeito moral para [dispersar] os manifestantes e houve confronto.”

Por fim, encerro a análise destacando o quanto pode ser transformador para o aluno ter a oportunidade de desenvolver e aprimorar a habilidade de leitura crítica, coisa que a Linguística Textual oferece com bastante propriedade, e lembrando ainda que:

é muito difícil informar sem manipular, por melhores que sejam as intenções. Portanto, as estratégias jornalísticas para relatar opiniões não são uma mera questão de estilo, pois as palavras são instrumentos de ação e não apenas de comunicação (MARCUSCHI, 2007, p. 168).

Leia mais em: MARCUSCHI, Luiz Antônio. A ação dos verbos introdutores de opinião. In: ______. Fenômenos da linguagem: reflexões semânticas e discursivas. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. p. 146-168.