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Apresento a síntese da pesquisa que desenvolvi com textos de depoimento do site Orkut. A dissertação foi defendida na UFPR em 2011. O título completo é “O que você tem a dizer sobre (…)? Expressões nominais indefinidas no depoimento do Orkut.”

RESUMO: Esta pesquisa vincula-se à proposta de estudo da Linguística Textual e baseia-se em pressupostos sociocognitivistas e sociodiscursivos para abordar o tema da recategorização lexical marcada por expressão nominal indefinida (ENI). Trabalhamos com um corpus composto de textos de depoimentos produzidos e publicados em páginas de usuários brasileiros do site de relacionamentos orkut. A recategorização lexical consiste na remissão a referente textual ou objeto de discurso já introduzido na memória discursiva através de expressão referencial que o reapresenta sob outra perspectiva, sob nova categoria. O objetivo da pesquisa é examinar o funcionamento de recategorizações lexicais com ENI em depoimentos – espécies de declarações pessoais sobre sujeito com o qual se estabelece vínculo social no contexto real ou virtual – que circulam na versão brasileira do site orkut, o software de suporte desse gênero discursivo. Definimos como hipótese que a recategorização com ENI parece relacionada a características do depoimento do orkut de modo semelhante ao que já se observou em ocorrências de outros tipos de anáfora textual. A hipótese norteia-se não só pela observação de particularidades do gênero como a seleção recorrente de ENIs, o caráter lacunar e fragmentário, o propósito comunicativo, o suporte, mas define-se também pelo pressuposto de envolvimento constante de ENIs em recategorizações lexicais (CUNHA LIMA, 2004) e pela necessidade de estudar aspectos que condicionam o funcionamento da recategorização lexical em certos gêneros discursivos (MATOS, 2004). Realizamos uma análise qualitativa de 34 textos pertencentes a único gênero e, para caracterizar as recategorizações com ENI, levamos em conta as configurações das cadeias referenciais, das estratégias referenciais, das funções argumentativas e dos núcleos nominais das ENIs. Os dados evidenciam que as recategorizações com ENI combinam-se com outras estratégias referenciais, como anáfora com relação meronímica, encapsulamento, rotulação metaenunciativa, tematização-remática; prevalecem dentre as ocorrências de tematização-remática com frases nominais; admitem variações na operação que podem adquirir traços metafóricos e de parcialidade; têm como principal função argumentativa a avaliação, destacando-se também as funções de glosa e estético-conotativa; compõem-se de núcleos nominais (hiperônimos, termos genéricos) que junto com os determinantes indefinidos fortalecem a especificação da categoria ou classe atribuída ao objeto de discurso. Por um lado, concluímos que a recategorização lexical com ENI constitui um recurso produtivo à disposição do enunciador que tem um espaço reduzido a 1024 caracteres para escrever um depoimento no site orkut. Por outro lado, a seleção de ENIs com função integradora de anáfora e predicação direciona a publicação de dizeres concisos e com potencial para agregar uma orientação apreciativa às descrições de que fazem parte.
Palavras-chave: Anáfora textual. Depoimento. Expressão nominal indefinida. Recategorização lexical.

 

RÉSUMÉ: Cette étude est lié à la perspective adoptée par la Linguistique Textuelle et est basé sur les principes sociocognitivistes et sociodiscursives. Le sujet de recherche est la recatégorisation lexicale qui est marquée par l’expression nominale indéfinie (ENI). Nous travaillons sur un corpus formé de témoignages produits et publiés dans les pages des utilisateurs brésiliens du site de réseau social orkut. La recatégorisation lexicale est un processus par lequel l’expression anaphorique se reporte a un référent textuel ou un objet-de-discours déjà introduit dans la mémoire discursive à travers une expression référentielle qui le réintroduit sous un autre angle, sous une nouvelle catégorie. Cette recherche a pour but d’examiner le fonctionnement des récategorisations lexicales avec des ENIs dans les témoignages – des types de déclarations personnelles sur un sujet avec lequel l’énonciateur établit des liens sociaux dans le contexte réel ou virtuel – qui circulent dans la version brésilienne du site orkut, le logiciel de support de ce genre discursif. Nous posons comme hypothèse de recherche si la recatégorisation avec l’ENI semble liée aux caractéristiques des temóignages du site orkut d’une manière similaire à ce qui a déjà été observé dans les occurrences d’autres types d’anaphore textuelle. L’hypothèse est basée non seulement sur l’observation des particularités du genre telles que la sélection récurrente de l’ENI, le caractère lacunaire et fragmentaire, l’objectif communicatif et le soutien, mais également sur la présupposition de l’implication constante de l’ENI dans les recatégorisations lexicales (CUNHA LIMA, 2004) et sur la nécessité d’examiner des aspects qui influencent le fonctionnement des recatégorisations dans certains genres discursifs (MATOS, 2004). Notre étude se fonde sur l’analyse qualitative de 34 textes appartenant à un genre donné et nous prenons en compte les paramètres des chaînes référentielles, des stratégies référentielles, des fonctions argumentatives et des têtes nominales des expressions afin de caractériser les recatégorisations avec l’ENI. Les données montrent que les recatégorisations avec l’ENI : se combinent avec d’autres stratégies de référence, comme anaphore avec la relation méronymique, l’encapsulation, l’étiquetage méta-énonciatif, la thématisation rématique; prédominent parmi les occurrences de thématisation rématique avec des phrases nominales; admettent des changements dans l’óperation qui peut prendre des traits métaphoriques et de partialité; ont pour principale fonction argumentative l’évaluation, en soulignant également les fonctions explicative et esthétique-connotative; se composent des têtes nominales (hyperonymes, termes génériques) qui, avec les déterminants indéfinis, renforcent la spécification de la catégorie ou classe attribuée à l’objet-de-discours. D’une part, nous concluons que la recatégorisation lexicale avec l’ENI est une ressource productive à la disposition de l’énonciateur qui a un espace réduit à 1024 caractères pour écrire un témoignage sur le site orkut. En outre, la sélection des ENIs avec fonction intégrée de la prédication et de l’anaphore dirige la publication de paroles concises étant possible d’ajouter une orientation reconnaissante pour les descriptions dont elles font partie.
Mots-clés: Anaphore textuelle. Témoignage. Expression nominale indéfinie. Recatégorisation lexicale.

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“Enquanto tal, a virtualização não é nem boa, nem má, nem neutra. Ela se apresenta como o movimento mesmo do “devir outro” – ou heterogênese – do humano. Antes de temê-la, condená-la ou lançar-se às cegas a ela, proponho que se faça o esforço de apreender, de pensar, de compreender em toda a sua amplitude a virtualização” (O que é o virtual? – Pierre Levy, p. 11-12).

Sempre o mito da corrupção da língua.

Nem uma coisa nem outra.

Vale lembrar que não é bem assim como se ouve falar…

Não adianta, por exemplo, depreciar as práticas de linguagem por meio de variedades de textos com diferentes propósitos comunicativos que são escritos na internet, em mídias sociais como o Facebook e em toda infinidade de TICs mediante as justificativas de:

– destruição da língua materna só por causa da grafia de abreviaturas diferentes, pontuação abundante, acentuação e letras maiúsculas de modo deficiente;

– interferência negativa no aprendizado da língua escrita ilusoriamente tida como a certa;

– modificação “total” do português em uso por aqui, que muito antes do surgimento das TICs nem se parecia mais com aquele usado em Portugal;

– desconhecimento das regras gramaticais, mas de qual gramática? tradicional? descritiva? de usos? da língua falada?

– e por aí vai…

Pensar assim denota um posicionamento purista em relação à língua ou mesmo de negação/desconhecimento do fenômeno da variação linguística tão presente em nossa vida diária, nos falares e escritos que nos rodeiam, além de um olhar desequilibrado sobre a  prática de ensino de produção textual devido à fixação nas formas linguísticas em maior escala do que na construção dos sentidos textuais. Por fim, o pior de tudo é perceber que em muitos casos atribui-se “o fracasso metodológico do ensino de notação ortográfica para um fator externo à prática pedagógica que por si só não pode ser responsabilizado” (XAVIER, 2005, p. 13).

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Por isso concordo com Marcuschi, “os sentidos são bens humanos“!