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Já discuti anteriormente a questão referente ao incômodo causado pela presença de médicos cubanos no Brasil, foi logo depois do lançamento do programa federal Mais Médicos. Percebi que o debate é profuso no momento em que esses profissionais chegam em nosso país. Só para ter uma ideia, fiz uma busca simples através do Google, digitei “médicos cubanos” e o resultado foi o seguinte:

Resultados da pesquisa por "médicos cubanos"

Resultados da pesquisa: mais de 2 milhões de referências

Sinceramente não sei o que é pior: duvidar da competência desses profissionais ou esquecer que em muitos pampas, sertões, cerrados, planaltos e matas do Brasil, onde o playboy e a patricinha recém-formados jamais colocarão os pés, também existem cidadãos com direito à saúde pública?

Compartilho o conteúdo de duas cartas ao leitor, um gênero discursivo de inegável orientação argumentativa, as quais foram publicadas no jornal O Metro na edição de Curitiba e motivaram a escrita deste breve artigo em que manifesto meu repúdio às manifestações alienadas e elitistas contra a a atuação dos médicos cubanos no Brasil.

Recorte do jornal

Política para quem precisa de política e médicos para quem nunca teve

Como linguista, atraiu-me bastante na primeira carta a referência ao dizer de Simão quanto a “médicos humanos”, escolha linguística que expressa a posição de alguém engajado no apoio ao atendimento de interesses sociais, de alguém que não se fixa no fundo do próprio umbigo. Já na segunda carta, considero ótima a sugestão do leitor, que acima de tudo demonstra entender o que é equidade. Só discordo de uma coisa, a prova de conhecimento de língua deveria ser aplicada para os brasileiros e deveria ser um texto dissertativo sobre o comprometimento de cada um com a saúde.

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No dia 23/07/2013 participei do Simpósio Medicalização: nova face do obscurantismo, promovido pelo Núcleo Curitiba e Região Metropolitana do Fórum sobre a Medicalização. A experiência de conhecer o debate profícuo deste grupo e o trabalho da profª Dra. Maria Aparecida Moysés (UNICAMP) fez diferença para mim e para a construção do meu modo de abordar a questão da medicalização. Quando escrevi sobre dislexia e síndrome de Irlen, acredito que assumi uma posição desalinhada com a perspectiva do Fórum, no entanto ressalto que naquela ocasião eu não dispunha da percepção que estou construindo desde o momento em que recebi o convite para o simpósio, a qual foi tema de outra publicação no blog – Entre o riso e a crítica em textos sobre medicalização.

Evento do Núcleo Curitiba e Região Metropolitana no APP Sindicato

Crédito: Andreia Moessa de Souza Coelho, Gioconda Ghiggi

De tudo que ouvi no evento,  considero relevante compartilhar a compreensão de que a medicalização de nossas vidas é uma tendência mundial que se alastra na sociedade há certo tempo. Muitas vezes é acentuada pela judicialização de nossa existência, pois hoje quase tudo se resolve por meio do discurso jurídico, seus gêneros textuais ou instrumentos legais, como denúncias, processos, liminares, etc. Parece que poucos ainda preferem ou conseguem dispor de argumentação e intermediação própria para resolver os problemas pessoais.

Não parece demais mencionar o exemplo histórico que foi dado pela professora da Unicamp e com o qual me identifiquei, visto que contempla uma “verdade científica” construída em 1851. Graças ao médico norte-americano Samuel A. Cartwright, Zumbi dos Palmares poderia ser diagnosticado como portador de transtorno psiquiátrico denominado DRAPETOMANIA (ver artigo de Cartwrigth). Os sintomas dessa doença são a vontade de correr por aí, a fuga, tendência patológica comum entre pessoas negras do continente americano. A concepção do médico, membro da Louisiana Medical Association, foi desenvolvida no século XIX em pleno período da escravidão norte-americana e explicava a conduta reincidente de escravos fugitivos, para a qual cabia o tratamento através de chicotadas e amputação dos dedos dos pés em casos gravíssimos da doença mental.

Cartwright publicou artigo sobre a Drapetomania no New Orleans Medical and Surgical Journal

Crédito: blog Opus Daimon

Quando ouvi a definição da doença no Simpósio, de imediato me encaixei na caracterização anunciada: adoro correr por aí (pratico atletismo, especificamente, corrida de rua), tenho ascendência negra e vivo na América do Sul. Pronto! seria eu uma potencial drapetomaníaca? Ou pior, tenho chance de ser portadora de TDAH. Evidencio que esta não é uma pergunta, é uma afirmação mesmo, tendo em vista o resultado do teste ASRS-18 que fiz para diagnóstico do transtorno. Obtive 7 respostas “frequente” e 4 respostas “muito frequente” dentre as 18 perguntas do questionário que busca tipificar comportamentos despadronizados. É evidente que meus casos de medicalização são cômicos, no entanto os de outras pessoas podem ser bem distintos e inclusive trágicos, para fugir de qualquer eufemismo descabido.

Na verdade, é polêmico, revoltante e difícil de conceber que o adoecimento se impõe em função do exercício da dominação coercitiva da sociedade, pelo que defende a Dra. Maria Aparecida. No meio desse conflito de interesses, temos de um lado, o Estado, a indústria, grupos econômicos dominantes e, de outro lado, parcelas da sociedade condenadas à desinformação, à desigualdade e ao engano de que são doentes por não serem tão produtivas quanto o sistema capitalista exige, só para citar alguns limites do obscurantismo impostos pela medicalização.

Crédito: Gioconda Ghiggi

Crédito: Gioconda Ghiggi

Concordo que há muito por fazer, pois certos comportamentos diferentes, contestadores ou fora da normalidade convencionada para o meio social vem recebendo o carimbo de doença mental ou transtorno psiquiátrico de um modo tranquilo demais, como se o normal fosse não sofrer por nossos problemas ou não contestar a própria realidade. A questão é profunda e, como apareceu nas falas dos comunicadores do evento, é de ordem acadêmica e política, sobretudo porque “cutuca” setores imperiosos da sociedade: classe médica, indústria farmacêutica, governantes, legisladores, juristas.

A luta é árdua e, acima de qualquer coisa, a urgência é de todos.

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Textos recomendados durante o evento:

Knock ou Le Triomphe de la Médecine: Pièce en trois actes

MOYNIHAN, Ray e WASME, Alain. Vendedores de doença. Estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros. In: PELIZZOLI, M. L. Bioética como novo paradigma. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2007.

GERAÇÃO RITALINA. Falta de atenção virou doença. O nome? TDAH. A suposta solução? Um remédio tarja preta por Millos Kaiser, Revista TRIP.

Why French Kids Don’t Have ADHD por Marilyn Wedge, Psichology Today.

Tradução: Por que as crianças francesas não têm Deficit de Atenção?, site Cultivando o Equilíbrio.

Com o lançamento do Programa Mais Médicos em 08/07/2013, em tese uma medida emergencial do governo federal para estancar o problema da escassez de recursos humanos no setor da saúde (ou melhor dizendo, a falta de médicos no interior do Brasil), meios de comunicação massivos e mídias paralelas tem apresentado as mais diversas versões opinativas a respeito da questão para lá de polêmica, que já vinha em discussão há algum tempo. Se não estou enganada, desde que sou criança ouço falar em falta de médicos no serviço público de saúde e acesso restrito à formação desses profissionais em instituições públicas pelas poucas vagas e em instituições particulares pelo custo elevado. Só para dar uma ideia da longevidade da discussão, estou beirando os 40 anos.

Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr - Revista Fórum

Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr – Revista Fórum

Para ser condizente com os propósitos do blog, direciono minha discussão para certos elementos de textos jornalísticos, bem como de outras fontes selecionadas para oferecer uma leitura didática acerca do assunto. Inicialmente traço considerações a partir dos títulos e subtítulos dos textos para tratar da expectativa de leitura propiciada por estes recursos e em seguida destaco partes textuais em que se colocam a temática principal ou os pontos de vista dos autores.

O primeiro texto que li detidamente sobre as reações do setor da saúde quanto ao Programa Mais Médicos vem de uma mídia paralela, a republicação do blog Hum Historiador de post do também blogueiro Saul Leblon – Raízes do Brasil: no levante dos bisturis, ressoa o engenho colonial, cuja fonte original está representada na imagem abaixo que capturei no site Carta Maior.

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Carta Maior – O portal da esquerda

Ao ler o título do texto, não tive dúvida de que seu conteúdo teria um cunho contrário em relação à resistência da classe médica à proposta do governo federal. Considerando a esfera de onde parte essa opinião, uma mídia autodenominada por meio de vocábulo (esquerda) que sugere oposição, não surpreende o predomínio da crítica contra o elitismo daquela classe profissional em detrimento de interesses de classes minoritárias sem condições de custear um plano de saúde particular e mesmo sem acesso a um único médico em suas cidadezinhas. Leblon não poupa palavras para abordar a resistência do setor “Contra a adesão de profissionais ao programa ‘Mais Médicos’, que busca mitigar o atendimento onde ele inexiste”. Além disto, o ponto chave de todo sentido do texto está na referência ao que o historiador Sergio Buarque de Holanda escreveu em sua obra Raízes do Brasil de 1936, perfeitamente aplicável no cenário atual:

Sergio Buarque de Holanda anteviu, em 1936, as raízes de um Brasil insulado em elites indiferentes ao destino coletivo. O engenho era um Estado paralelo ao mundo colonial. O fastígio macabro fundou a indiferença da casa-grande aos estalos, gritos e lamentos oriundos da senzala ao lado, metros à vezes, da sala de jantar.  Por que os tataranetos se abalariam com a senzala das periferias conflagradas e a dos rincões inaudíveis?

Vejamos como outros textos jornalísticos pontuam aspectos de tal reação resistente.

A revista Carta Capital através do artigo intitulado Os médicos brasileiros têm medo de quê?  apresenta a posição de Ricardo Palacios, médico da Colômbia já estabelecido no Brasil.

Publicação na seção Sociedade da Revista Carta Capital

Publicação na seção Sociedade da Revista Carta Capital

O  questionamento evocado pelo título do texto recebe resposta contundente do autor que trata dos supostos temores do “grêmio médico no Brasil” em relação aos concorrentes  estrangeiros. Segundo Palacios, é infundado o argumento quanto à desqualificação dos profissionais formados no exterior, cujo processo de seleção ocorre de fato no interior das escolas de medicina e “diferentemente do que acontece no Brasil, entrar na escola de medicina não significa que o aluno será médico seis ou sete anos mais tarde”. Nestes termos, o médico tece sua crítica ao modelo brasileiro para ingresso de candidatos aos cursos de Medicina, visto que de um lado há a seleção dos “melhores” e de outro lado há a exclusão daqueles de classes economicamente desfavorecidas. A parte final do artigo apresenta elementos para considerar que a resposta do colombiano vai ao encontro dos objetivos do programa do governo:

Os médicos estrangeiros a serem importados são o principal alvo em um protesto com pesado caráter trabalhista, de proteção de mercado. Porque a pior ameaça que os cubanos representam é que podem dar certo. Porque os cubanos podem demonstrar que a população não necessita de grandes hospitais de alta tecnologia, mas de médicos acessíveis que estejam ao seu lado.

A título de exemplo da indignação contra o programa Mais Médicos, apenas republicarei outro texto jornalístico que traça as linhas condutoras do protesto a que Palacios se reporta. É uma publicação da Folha de São Paulo de 10/07/2013 na seção Mercado:

A revolta das elites

por Vinicius Torres Freire, Folha de São Paulo

Os 10% ‘mais ricos’ do Brasil, ‘classe média’ de verdade, irritam-se mais com os governos do PT

DILMA ROUSSEFF comprou briga com um pedaço grande da elite brasileira, os médicos, suas famílias, simpatizantes e parentes. Ou assim parece provável.

A maioria das associações de médicos está enfurecida com a história do plano de imigração; parte parece irritada com o serviço obrigatório no SUS para recém-graduados. Mas a gente ainda não tem como saber como pensam os 400 mil médicos do país a respeito das medicinas da doutora Dilma. (continua…)

Pode até parecer que busco favorecer determinada mídia, no entanto afirmo que não se trata disto, pois só estou reproduzindo mais uma publicação da revista Carta Capital para tentar obter uma fonte que fundamenta o texto produzido por Roberto Amaral: A medicina e o Brasil real.

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Publicação na seção Política de Carta Capital

Uma das partes textuais que me chamou atenção, especificamente pelo sentido contestador (o parágrafo está marcado duas vezes e inclusive começa com o operador argumentativo MAS) e também por não ter conseguido acessar a referência fornecida pelo autor (essencial para a reconstrução dos sentidos textuais), é a seguinte:

Mas o dr. Kalil, o médico da Corte e dos afortunados, é “terminantemente contra” a vinda de médicos estrangeiros porque, para haver medicina, é preciso haver “hospital bem estruturado” (FSP, 10/07/2013). Mas o que é, na realidade brasileira, ‘um hospital bem estruturado”? Não explica e ficamos sem saber.

Gostaria muito de ler o que o “dr. Kalil” expressou através da FSP. Os resultados de busca no Google levam apenas para a fonte da revista ou para republicações desse artigo em outros sites e blogs. Seguem então versões de quem vive o outro lado dessa história, ou melhor, passemos à confrontação entre opiniões e fatos relatados pela mídia.

Para minha surpresa, encontrei uma notícia anterior ao lançamento do Mais Médicos em jornal do Rio Grande do Sul com este título, a princípio, motivador: Médicos do interior chegam a ganhar mais do que os prefeitos das cidades, de 19/05/2013.

Para a Zero Hora, um exemplo de vida em cidade pequena com salário grande

Para Zero Hora, exemplos de vida em cidade pequena com salário grande

Lendo a matéria de Fernanda da Costa e Fernando Goettems, há como verificar que a vida de médicos no interior pode não ser tão ruim quanto se alega nas discussões avolumadas nos últimos meses. Isto é o que testemunha uma das profissionais da classe que se sente valorizada após abrir mão de um contrato como concursada para trabalhar como terceirizada e com remuneração mais vantajosa. Consequentemente, essa adaptação de contrato custa um pouco mais em termos de cumprimento da legislação por parte da administração pública.

Parece que o cenário de mudança no setor da saúde levou à produção de uma série de textos com justificativas para a desmotivação pela atuação médica no interior do país, dentre as quais é possível encontrar:

(i) medo de ser processado por acusação de erro médico;

14/07/2013 – 06h30
‘Medo de processo por erro afasta médico do interior’, diz leitor

Seria uma resposta à pergunta feita pelo médico colombiano em seu artigo da Carta Capital (Os médicos brasileiros têm medo de quê?)??? Não, trata-se de uma espécie de defesa produzida por médico provavelmente brasileiro na seção Painel do Leitor da Folha de São Paulo.

(ii) pouca estrutura hospitalar e falta de assistência;

Médicos contam como é trabalhar onde falta tudo, até esparadrapo
Profissionais de Macapá (AP) e do interior da Bahia relatam dificuldades de conviver com pouca estrutura dos hospitais e casos terríveis de falta de assistência

No texto de Maria Fernanda Ziegler, publicado na seção Último Segundo do site iG São Paulo em 08/07/2013, constam relatos de dois médicos que sabem como é atuar no interior do país. A profissional de Macapá é mais experiente, deixou o consultório na capital gaúcha há 16 anos para assumir vaga de um concurso em hospital precário da região norte. O médico recém-formado optou por trabalhar no interior da Bahia até conseguir a aprovação em curso de residência, foi integrante do Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), criado em 2011 pelo Ministério da Saúde e destinado à atuação de médicos, enfermeiros e cirurgiões-dentistas em regiões longínquas e desassistidas.

(iii) imposição da prestação de serviços aos estudantes de medicina.

10/07/2013 – 06h00
Para leitor, dois anos a mais de formação não garantem médicos melhores

Este último título informa opiniões quanto à impossibilidade de melhorar a qualidade da saúde pública. Para um médico de São Paulo e outro sujeito de Curitiba, a proposta federal lançada em 08/07 é ineficaz, pois provocará rotatividade de profissionais que serão obrigados a trabalhar no SUS por 2 anos sem obter uma capacitação ideal.

Por fim, faço questão de explicitar que sou favorável ao programa Mais Médicos. Manobra eleitoreira, populista ou não, prefiro não pensar como burguesa (status que não sustento), pelo simples e triste fato de que pessoas, independente de classe social, poderão finalmente receber um mínimo de atenção a sua saúde, um direito garantido pela Constituição Federal, a saber:

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Compartilho links de dois textos em que prós e contras do tema discutido aqui são apresentados conjuntamente. Para quem ainda tiver fôlego para continuar a leitura.

REVISTA ÉPOCA – Crise na saúde: entenda as propostas polêmicas para a área
O governo federal aprovou o “Programa Mais Médicos” e vetou trechos do Ato Médico sob protestos de entidades de classe por Amanda Polato e Nathalia Tavolieri.
JORNAL TRIBUNA DA BAHIA – Interior da Bahia espera por médicos por Naira Sodré.

Por conta de convite que recebi para participar de um simpósio sobre medicalização, promovido pelo Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, passei a reunir alguns textos (charges, histórias em quadrinhos, anúncios publicitários, entre outros) que abordam aspectos dessa questão pelos vieses do humor e/ou da crítica, numa tentativa de fazer minha própria leitura sobre o tema, enquanto não chega o dia do evento para que eu possa conhecer um pouco mais sobre o assunto. Segue o cartaz:

Cartaz de divulgação do evento em Curitiba

Cartaz de divulgação do evento em Curitiba

Para amparar minha leitura, tomo de empréstimo teorias da Linguística Textual que discorrem acerca da compreensão de textos. Começo dizendo que a leitura de qualquer texto requer do leitor a habilidade de recorrer a seu inventário de conhecimentos acumulados para construir uma interpretação textual dentre tantas outras possíveis. No processamento de textos durante a leitura realizamos “pequenos cortes que funcionam como entradas a partir dos quais elaboramos hipóteses de interpretação” (KOCH & ELIAS, 2008, p. 39). Por sua vez, a elaboração de hipóteses de interpretação só é viável pela captura e relação entre conhecimentos prévios e novos. Consideram-se como elementos do conjunto de conhecimentos que possibilitam ao leitor seguir diversos passos interpretativos: conhecimento linguístico, conhecimento enciclopédico ou de mundo, conhecimento interacional (KOCH & ELIAS, 2008; MARCUSCHI, 2008).

Observemos um texto humorístico que aborda a questão da medicalização da educação:

Charge

Charge de autoria desconhecida

Agora pergunto qual é a informação fundamental para interpretar esta charge e afirmar que trata da medicalização da educação? A qual tipo de conhecimento recorrer? O termo Ritalina é conhecido por todos? Eu diria que não, embora uma parcela de leitores consiga inferir que se trate de um medicamento com base no conhecimento linguístico de que o vocábulo “drogas” designa substâncias químicas ou remédios, cujos nomes podem ser compostos pelo sufixo do português brasileiro -ina (para nomes técnicos utilizados na ciência). Para alguém que faz parte do conjunto de usuários desse tipo de medicamento ou convive com sujeitos desse grupo, o processamento da leitura de tal texto ativa também conhecimentos enciclopédicos ou de mundo, além do conhecimento linguístico. É possível observar a junção das duas espécies de conhecimento neste outro texto humorístico:

puff

Mensagem que circula na internet

A mensagem apresenta uma inadequação ortográfica ou talvez uma falha de digitação (psquiatra ao invés de psiquiatra), porém este detalhe é menos importante do que os sentidos construídos através desse texto e é por isso que foi selecionado para compor o corpus da reflexão em curso. Ressalva feita, vamos ao ponto a ser evidenciado. O texto Ursinho Puff e amigos, no psquiatra remete de forma incisiva ao tema da medicalização, inclusive confirmando e ampliando o horizonte de compreensão dos sentidos da charge, justamente por explorar personagens do universo infantil (concebidos para público de faixa etária em escolarização na sua maioria), para os quais se atribuem diversos sintomas de doenças, dentre elas, certos transtornos psiquiátricos, indicando ainda os respectivos fármacos para tratamento, como se fosse algo bastante trivial.

Elementos como o símbolo de marca registrada ® ao lado dos nomes de medicamentos no texto da internet, bem como na charge as palavras NÃO e Sim (escritas, respectivamente, em caixa alta no quadro negro e em tamanho de fonte maior no balão com a resposta “positiva” dos alunos), a sentença com negação imperativa Digam NÃO às drogas e a sentença interrogativa Por que deixar o governo drogar as suas crianças? representam “sinais de articulação ou apoios textuais” (KOCH & ELIAS, 2008, p. 52) com a função metacomunicativa de garantir, ou melhor, direcionar a compreensão textual e sobretudo obter o engajamento do leitor quanto aos objetivos comunicativos.

Uma leitura possível dos objetivos comunicativos seria que pela via do humor, evidentemente crítico, segue a expressão do combate e da conscientização em relação ao que está envolvido – a aceitação passiva, a trivialidade e ainda o caráter incontestável?? – na medicalização da educação (na charge) e também da sociedade (na mensagem da internet). Neste caso, os apoios textuais dizem respeito a conhecimentos interacionais que auxiliam no avanço da compreensão ou da abstração desse tema mais profundo do texto, seja pelos elementos verbais, mencionados no parágrafo anterior, seja pelos elementos visuais: ilustrações do ambiente escolar com seus atores fundamentais – professora e alunos, dos personagens infantis e de amostras de comprimidos dos medicamentos nomeados.

A estratégia de recorrer ao conhecimento linguístico também se aplica na formulação de hipótese de interpretação do próprio cartaz do evento, acima em destaque, pois eu mesma não sabia a diferença entre os termos MEDICALIZAR e MEDICAR, a qual é apresentada em outro material de divulgação do evento através do seguinte esquema gráfico:

Esquema gráfico de diferenciação entre os termos

Esquema gráfico de diferenciação entre os termos

Para quem já possui familiaridade com as discussões produzidas em torno do tema, o conceito de MEDICALIZAÇÃO faz parte de seu conhecimento de mundo, ou seja,  o processo em que pontos da vida social e política, de ordem complexa, multifatorial e particularizados por meio da cultura e do tempo histórico, são subestimados e limitados à lógica médica, pela qual o comportamento desajustado às normas sociais relaciona-se supostamente à causalidade orgânica, cuja manifestação se dá através de doenças no indivíduo (MOYSÉS, 2013).

Pelo que foi possível entender até aqui, existe uma espécie de mobilização coletiva ou movimento contra a medicalização que questiona e combate a “lógica médica”, não aceita a subestimação de condutas supostamente anormais de alunos e outros sujeitos nem a rotulação dessas condutas pelo diagnóstico de patologia passível de ser medicada. A produção de textos com tais construções de sentido leva-me a concluir que tudo isto parece ser fonte de incompreensões por vários setores da sociedade e é preocupante pelo fato de muitos não saberem o que fazer ou pensar a respeito, como eu que estou aqui tentando construir meu entendimento. Sem dúvidas os textos que selecionei foram produzidos por quem tem interesse em chamar a atenção para a questão da medicalização e sinalizar que este processo não pode ser visto como algo banal . A urgência de esclarecimento a respeito aparece nos demais textos a seguir:

Anúncio publicitário

Anúncio publicitário do Conselho Federal de Psicologia

História em quadrinhos com diálogos adaptados.

Quadrinhos do personagem infantil Calvin com diálogos adaptados

calvin-e-haroldo-final

Versão original da história em quadrinhos de Calvin e Haroldo

transtornos psiquiátricos da infancia

Charge com referência a transtornos psiquiátricos da infância e a lógica médica

Charge em referência ao uso de medicamento para controlar a hiperatividade.

Charge com referência ao uso de medicamento para controlar a hiperatividade

Folder do Fórum sobre Medicalização da Educação e Sociedade

Folder do Fórum sobre Medicalização da Educação e Sociedade

Charge em inglês contra a medicalização.

Charge em inglês contra a medicalização

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

KOCH, Ingedore Villaça e ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2008.

MARCUSCHI, Luiz Antonio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editoria, 2008.

MOYSÉS, Maria Aparecida Affonso. Medicalização na educação infantil e no ensino fundamental e as políticas de formação docente. Disponível em: <http://www.anped.org.br/reunioes/31ra/4sessao_especial/se%20-%2012%20-%20maria%20aparecida%20affonso%20moyses%20-%20participante.pdf. >Acesso em: 03 jul. 2013.

ler é dificil

Quantos professores deparam-se com alunos que apresentam dificuldades de leitura não resolvidas na fase de alfabetização?

Quantos estudantes chegam à fase adulta e atuam profissionalmente tendo que driblar essas dificuldades sem saber exatamente do que se trata?

Quantas percepções leigas e diagnósticos são produzidos de forma equivocada sobre déficit de leitura?

Quantos estigmas estão por aí incrustados na vida de quem tem dificuldades de leitura e não recebeu o devido apoio para superá-las?

Com a leitura de coluna desta semana da revista Veja – As pupilas da sra. Irlen, assinada por Claudio de Moura Castro – recordei-me de reflexões em torno dos questionamentos acima expostos, muitos dos quais fizeram parte das discussões de que participei no núcleo de pesquisa “Aquisição e Funcionamento da Linguagem: implicações para a clínica fonoaudióloga”, da Universidade Tuiuti do Paraná durante o ano de 2009.

O que me proponho a destacar é que quando alguém apresenta dificuldade de leitura, o déficit a princípio pode ser tomado como dislexia que, em linhas gerais (pois são abundantes as nomenclaturas e definições na literatura), trata-se de um problema cognitivo de rendimento inferior da habilidade de leitura em relação à idade, inteligência e escolaridade da pessoa (FARIA, 2013), uma desordem da leitura de palavras e da fluência da leitura,  uma disfunção intelectual para a leitura.

Como sempre há o outro lado da história, há casos que podem ser explicados por um problema oftalmológico denominado síndrome de Irlen e assim definido:

A Síndrome de Irlen (S.I.) é uma alteração visuoperceptual, causada por um desequilíbrio da capacidade de adaptação à luz que produz alterações no córtex visual e déficits na leitura. A Síndrome tem caráter familiar, com um ou ambos os pais também portadores em graus e intensidades variáveis. Suas manifestações são mais evidentes nos períodos de maior demanda de atenção visual, como nas atividades acadêmicas e profissionais que envolvem leitura por tempo prolongado, seja com material impresso ou computador (MAGALHÃES, 2013).

A psicóloga Helen Irlen foi quem descobriu a síndrome que, dentre outras características, envolve o desordenamento da movimentação das pupilas. No Brasil, o Hospital de Olhos de Minas Gerais conta com uma equipe de oftalmologistas que se dedica à pesquisa da patologia, ao esclarecimento de profissionais de diferentes áreas sobre a questão e ao desenvolvimento de programa para tratamento dos casos.

Para os portadores da síndrome de Irlen, as letras do texto tremem, pulsam e até desaparecem.

Para os portadores da síndrome de Irlen, as letras do texto tremem, pulsam e até desaparecem.

Implicações decorrentes da falta de identificação correta desse problema que limita o processo de aprendizagem são, por exemplo, o diagnóstico equivocado de casos de Dislexia, DTA e TDAH, a indicação de medicamentos desnecessários, o comprometimento da vida escolar e profissional dos portadores, a percepção inconsciente do portador em relação às suas dificuldades de leitura, como alerta a Dra. Marcia Guimarães, para quem as disfunções aparecem muito mais quando se lê:

(…) sob excesso de luzes fluorescentes, contraste, cores fortes, muito volume de texto por página, letras menores e impressão em papel brilhante. O mais preocupante é que esta é exatamente a situação em que se aplica a prova do ENEM – centenas de estudantes com Síndrome de Irlen não identificada terão seu desempenho prejudicado pelo estresse visual e hipersensibilidade à luz, cansaço progressivo e dificuldade de manter a atenção por tempo prolongado, com erros na transferência de gabaritos e falta de compreensão por déficits na eficiência visual.

Para conhecer mais sobre o assunto, acesse: http://www.dislexiadeleitura.com.br