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Nihil est in lingua quod non prius fuerit in oratione, assim Émile Benveniste anuncia o começo da linguagem, cujo significado aproxima-se do que se veicula no título deste artigo.

Apesar do nome de origem francesa, Benveniste era um sujeito de origem síria, batizado com o nome Ezra Benveniste em 1902. No ano de 1924, após sua naturalização como francês, incorporou o Émile.  Foi aluno de Antoine Meillet, um dos discípulos de  Saussure, e entrou como professor no Collége de France no final da década de 30.

Seus trabalhos de especialista em indo-europeu e comparatista de línguas obtiveram reconhecimento depois que Problemas de Linguística Geral I  (1966) foi publicado. Atribui-se a seus estudos o começo da Linguística da Enunciação e de discussões acerca da subjetividade e intersubjetividade, dentre outras questões.  Em 1976 ocorreu a morte do linguista.

O site Benveniste Online, um projeto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), aponta na produção benvenistiana pelo menos três maneiras de tratar da linguagem:

  1. pelas “reflexões linguísticas stricto sensu, incluindo as comparatistas e, em especial, as referências à obra de Ferdinand de Saussure” (abordagem epistemológica);
  2. pelo “fazer interdisciplinar das ciências do homem em que a linguagem tem papel fundamental. É o diálogo teórico posto em prática” (abordagem interdisciplinar);
  3. pela “prospecção de uma NOVA Linguística: a Linguística da Enunciação” (abordagem enunciativa).

Suas obras principais são:

Problèmes de linguistique générale, 1, Paris, Gallimard, 1966. (Edição brasileira: Problemas de linguística geral I, Tradução: Maria da Glória Novak e Maria Luisa Néri, 1995.).

Problèmes de linguistique générale, 2, Paris, Gallimard, 1974. (Edição brasileira: Problemas de Linguística Geral II. Tradução: Eduardo Guimarães et al., 1989.).

Releituras de Benveniste:

BARBISAN, L. B. e FLORES, V. N. Sobre Saussure, Benveniste e outras histórias da linguística. In: NORMAND, C. Convite à linguística. Trad. de Cristina de Campos Velho Birck et al. São Paulo: Contexto, 2009. p. 7-22.

FLORES, V. N. Por que gosto de Benveniste? (Um ensaio sobre a singularidade do homem na língua). Letras de Hoje. Porto A|legre, v. 39, n. 4, p. 217-230, dez. 2004.

FLORES, V. N. A enunciação e os níveis da análise linguística.  In: SITED- Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso, 2011, Porto Alegre. Anais do SITED– Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso. Porto Alegre: Edipucrs, 2011. v. 1. p. 396-402.

NORMAND, C. Leituras de Benveniste: algumas variantes sobre um itinerário demarcado. Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 44, n. 1, p. 12-19, jan./mar. 2009.

TROIS, J. F. M. O “retorno a Saussure” de Benveniste: a língua como sistema de enunciação. Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 39, n. 4, p. 33-43, dez. 2004.

Um século já se passou desde a morte do mestre genebrino Ferdinand de Saussure que direcionou o olhar sobre os paradoxos no funcionamento da linguagem (BENVENISTE, 1966) e assim abriu espaço para criar a ciência da linguagem com a delimitação do objeto de estudo: a língua. A voz do pai da Linguística no Curso de linguística geral (p. 15) perpassa o título deste post.

Que a obra de Saussure é um clássico certamente nenhum dos estudiosos da linguagem duvida. Por exemplo, Fiorin, Flores e Barbisan (2013, p. 7) observam que o livro “Curso de linguística geral, de Saussure, talvez seja o grande clássico da Linguística moderna”. E para justificar a atualidade de Saussurre, os três autores recorrem a um dito de Calvino (1998, p.  11), pelo qual “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.

Em outras palavras, quanto mais se lê Saussure mais se aprende sobre a ciência da linguagem. Isto aparece na leitura feita pelo linguista textual Jean-Michel Adam dos Écrits de linguistique générale (2002). No momento em que introduz aspectos atinentes a sua proposta de análise textual dos discursos, Adam (2008) destaca que Saussure, embora tivesse a língua como objeto de estudo, também chegou a falar de uma “linguagem discursiva” nos escritos (2002, p. 95), questionou quanto aos limites entre a língua e o discursivo, bem como produziu uma “nota sobre o discurso”:

A língua é criada unicamente com vistas ao discurso, mas o que separa o discurso da língua, ou o que, em certo momento, permite dizer que a língua entra em ação como discurso?

Conceitos variados estão prontos na língua (quer dizer, revestidos de uma forma linguística), tais como boi, lago, vermelho, triste, cinco rachar, ver. Em que momento ou em virtude de que operação, de que jogo que se estabelece entre eles, em que condições esses conceitos formarão o DISCURSO?

A sequência dessas palavras, por mais rica que seja pelas ideias que evoca, não indicará jamais a um indivíduo humano que outro indivíduo humano, ao pronunciá-las, queira significar-lhe alguma coisa. O que se faz necessário para que tenhamos a ideia de que alguém quer significar alguma coisa, usando termos que estão à disposição na língua? É a mesma pergunta que fazemos para saber o que significa o discurso, e, à primeira vista, a resposta é simples: o discurso consiste, ainda que de forma rudimentar, e por vias que ignoramos, em afirmar um elo entre dois conceitos que se apresentam revestidos de forma linguística, ao passo que a língua apresenta previamente apenas conceitos isolados que esperam ser postos em relação entre eles para que exista significação de pensamento (SAUSSURE, 2002, p. 277).

O linguista textual francês defende que o interesse principal de Saussure é pelo modus operandi que leva à abstração do sistema da língua – o que até aqui não é novidade -, porém acrescenta que a base da operação está nos fatos do discurso.

Vejamos um vídeo produzido pela TV Cultura com a síntese da trajetória de Ferdinand de Saussure.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ADAM, Jean-Michel. A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos. São Paulo: Cortez, 2008.

BENVENISTE, Émile. Problèmes de linguistique générale I. Paris: Gallimard, 1966.

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

FIORIN, José Luiz; FLORES,  Valdir do Nascimento; BARBISAN, Leci Borges. Por que ainda ler Saussure? In: ______ .  Saussure: a invenção da Linguística. São Paulo: Contexto, 2013. p. 7-20.

SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. Trad. Antônio Chelini, José Paulo Paes, Izidoro Blikstein. 27. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

______. Écrits de linguistique générale. Paris: Gallimard, 2002.

Para ler mais: Sobre mitos e história: a visão retrospectiva de Saussure nos três Cursos de linguística geral, de Cristina Altman.