Posts com Tag ‘semântica’

por Chico Viana

– Pai, o professor baixou a nota da minha redação porque usei “mormente” em  vez de “sobretudo”.
– Bem feito! Eu lhe disse para não sair desprotegido nesse tempo frio!

Levei esse diálogo para a classe porque um aluno tinha usado “mormente” numa redação. Foi nesta passagem: “As manifestações que tomaram conta do Brasil deviam interessar mormente aos excluídos.”

“Mormente” é o mesmo que “sobretudo”, de modo que o estudante não falhou quanto à semântica; apenas se mostrou um tanto pedante. A palavra que ele escolheu tem um ranço formal, bacharelesco, que afasta ou desorienta o leitor comum. Uma prova disso é a resposta que o pai deu ao filho.

O diálogo acima é uma anedota. Como geralmente ocorre nos textos de humor, o riso decorre de uma confusão de sentidos – no caso, a confusão que o pai faz entre dois homônimos: “sobretudo” é advérbio e também substantivo (neste caso, significa “casaco que serve de proteção contra o frio e a chuva”).

Mas não bastou isso para gerar a ambiguidade que levou ao efeito humorístico. A homonímia seria insuficiente caso não houvesse a polissemia do verbo “usar”, que significa tanto “empregar” quanto “vestir” (além de outros sentidos que o dicionário registra). Se o menino tivesse dito ao pai que o professor baixou a nota porque ele escrevera (e não “usara”) “mormente”, o pai não teria feito a confusão. Não lhe ocorreria considerar “mormente” um tipo de casaco, mas o velho continuaria ignorando o que esse vocábulo quer dizer.

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Prova Objetiva: 321 – Técnico em Assuntos Educacionais

Edital: 169/2009 – PRHAE

Banca: Núcleo de Concursos Universidade Federal do Paraná (NC – UFPR)

Conhecimentos: Português

Questões comentadas: 1ª parte (1 a 4)

Os comentários são breves e dizem respeito a observações necessárias tanto para selecionar a resposta correta quanto para eliminar as demais inadequadas a partir de informações extraídas do texto utilizado na prova de português. As quatro questões iniciais podem ser resolvidas com base em relações semânticas, coesivas e de coerência que se estabelecem no texto. Por essa escolha, é possível afirmar que a banca explora a competência linguística do candidato ou sua habilidade de reflexão e análise linguísticas em vez de mera localização de contextos aplicáveis para regras gramaticais e ortográficas. Neste caso, então se torna interessante exercitar muito mais a capacidade de depreender relações de sentido, significação e organização de ideias no texto do que se preocupar somente com regras que não serão abordadas diretamente.

Texto 1

Texto 1

questões comentadas PT1questões comentadas PT2

Nihil est in lingua quod non prius fuerit in oratione, assim Émile Benveniste anuncia o começo da linguagem, cujo significado aproxima-se do que se veicula no título deste artigo.

Apesar do nome de origem francesa, Benveniste era um sujeito de origem síria, batizado com o nome Ezra Benveniste em 1902. No ano de 1924, após sua naturalização como francês, incorporou o Émile.  Foi aluno de Antoine Meillet, um dos discípulos de  Saussure, e entrou como professor no Collége de France no final da década de 30.

Seus trabalhos de especialista em indo-europeu e comparatista de línguas obtiveram reconhecimento depois que Problemas de Linguística Geral I  (1966) foi publicado. Atribui-se a seus estudos o começo da Linguística da Enunciação e de discussões acerca da subjetividade e intersubjetividade, dentre outras questões.  Em 1976 ocorreu a morte do linguista.

O site Benveniste Online, um projeto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), aponta na produção benvenistiana pelo menos três maneiras de tratar da linguagem:

  1. pelas “reflexões linguísticas stricto sensu, incluindo as comparatistas e, em especial, as referências à obra de Ferdinand de Saussure” (abordagem epistemológica);
  2. pelo “fazer interdisciplinar das ciências do homem em que a linguagem tem papel fundamental. É o diálogo teórico posto em prática” (abordagem interdisciplinar);
  3. pela “prospecção de uma NOVA Linguística: a Linguística da Enunciação” (abordagem enunciativa).

Suas obras principais são:

Problèmes de linguistique générale, 1, Paris, Gallimard, 1966. (Edição brasileira: Problemas de linguística geral I, Tradução: Maria da Glória Novak e Maria Luisa Néri, 1995.).

Problèmes de linguistique générale, 2, Paris, Gallimard, 1974. (Edição brasileira: Problemas de Linguística Geral II. Tradução: Eduardo Guimarães et al., 1989.).

Releituras de Benveniste:

BARBISAN, L. B. e FLORES, V. N. Sobre Saussure, Benveniste e outras histórias da linguística. In: NORMAND, C. Convite à linguística. Trad. de Cristina de Campos Velho Birck et al. São Paulo: Contexto, 2009. p. 7-22.

FLORES, V. N. Por que gosto de Benveniste? (Um ensaio sobre a singularidade do homem na língua). Letras de Hoje. Porto A|legre, v. 39, n. 4, p. 217-230, dez. 2004.

FLORES, V. N. A enunciação e os níveis da análise linguística.  In: SITED- Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso, 2011, Porto Alegre. Anais do SITED– Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso. Porto Alegre: Edipucrs, 2011. v. 1. p. 396-402.

NORMAND, C. Leituras de Benveniste: algumas variantes sobre um itinerário demarcado. Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 44, n. 1, p. 12-19, jan./mar. 2009.

TROIS, J. F. M. O “retorno a Saussure” de Benveniste: a língua como sistema de enunciação. Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 39, n. 4, p. 33-43, dez. 2004.

O professor Ataliba de Castilho respondeu à essa questão na aula inaugural em 10/08/2013 do evento  Letras Debate: Linguagem e Ensino, promovido pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pelo que se depreende dos dados apresentados por Castilho, uma questão inovadora e relevante para o ensino atual é o aumento da marcação prefixal no português brasileiro. Vejamos uma nuvem de palavras chave com alguns usos do PB nessas condições:

A marcação prefixal do PB no começo do século XXI conforme descrição de Ataliba de Castilho

Marcação prefixal do PB no começo do séc. XXI conforme descreve Ataliba de Castilho

Com relação ao sistema pronominal, são reconhecidas alterações nas formas de todas as pessoas na variedade informal do PB. Para ilustrar, reproduzo um quadro comparativo  entre o PB formal e informal (Quadro 1), originalmente publicado na Nova Gramática do Português Brasileiro da autoria do professor da USP.

Alterações no sistema de pronomes pessoais

Alterações no sistema de pronomes pessoais

Embora muitos possam se recusar a admitir a aceitabilidade de tais construções devido à postura purista que assumem em relação à língua, acrescento que não é difícil encontrar esses usos informais na língua falada por aí afora. Assim considero porque eu mesma uso a maioria desses pronomes da variedade informal e interajo com outros falantes que os empregam.  Provavelmente devem ocorrer na escrita de gêneros informais como SMS, chats, comentários em redes sociais. Esta seria uma questão interessante de investigar: será que também encontramos esses usos na língua escrita? de quais gêneros textuais? por força de algum fator específico?

Voltando à questão do aumento da marcação prefixal, compartilho outro quadro em que se demonstram diferentes casos de marcação de pessoas do verbo em PB:

prefixos em PBOs exemplos do quadro anterior indicam a transformação de pronomes pessoais do caso reto em morfemas verbais número-pessoais no PB informal, ou seja, pronome e verbo fundem-se em forma única que incorpora os traços indicativos das flexões de número e pessoa do verbo.  Há outros tipos de marcações prefixais que produzem transformações morfológicas (na forma das palavras), dentre as quais, Castilho destaca:

1)  ozóme, essas coisarada bonito (Amaral 1977: 48) = plural nominal ou de substantivos

2) vofalá = tempo futuro

3) popará, quepará? = modo verbal

4) tafalano  = aspecto[1] imperfectivo

5) tafalado = aspecto perfectivo

6) Disque vai chover = modalização sentencial asseverativa (gramaticalização[2] de verbos afirmativos)

7) Áxki vai chover = modalização sentencial dubitativa (gramaticalização de verbos evidenciais)


[1] Definição de Castilho (1968: 14): “visão objetiva da relação entre o processo e o estado expressos pelo verbo e a ideia de duração ou desenvolvimento”.
[2]  Mudança de características sintáticas, semânticas ou discursivo-pragmáticas de elementos da língua, segundo Weinreich, Labov e Herzog em “Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística” (1968).

Para quem acompanha as publicações do blog mundotexto, pode parecer evidente o quanto gosto de produzir ou republicar textos em que a significação linguística seja trabalhada de uma maneira inovadora. Isto explica minha predileção por questões de:

– metalinguagem (quando usamos a língua ou outras modalidades de linguagem para falar dela mesma, como estou fazendo agora);

– construção de sentidos em charges, cartoons, textos humorísticos, histórias em quadrinhos, mensagens e/ou dizeres que circulam na web (nesses gêneros textuais geralmente é onde mais se exploram reversões de significação, da semântica dos textos);

– desdobramento, reversão e multiplicidade de significados agregados aos itens linguísticos de textos poéticos (um trabalho exemplar do que me refiro está exposto no blog Pirosfera Candida – As piroses poéticas mais enológicas em (pre)textos).

Por assim dizer, compartilho um breve texto publicado na revista Carta Capital e pelo qual me interessei justamente por conter todas essas características que citei.  A felicidade do dizer, tomando emprestada uma noção da pragmática, recai sobre a forma de explorar a significação do item linguístico “semântica”.

Semântica classista
Os ricos chamam de custo de vida aquilo que a classe média denomina como inflação e os pobres excomungam como carestia.
São muitos os nomes. Mas o dragão é um só.”

por Mauricio Dias, Carta Capital.

https://mundotexto.files.wordpress.com/2013/07/937ee-bugio252comotoqueiro.jpg

Para a gramática tradicional, a metáfora é colocada como um tipo de figura de linguagem, “muito encontrada em obras de autores clássicos e consagrados pela crítica”. Porém isto não nos interessa aqui, porque prefiro afirmar que a metáfora está em quase tudo que qualquer sujeito diz por aí, esse papo de linguagem dos clássicos e usos consagrados já era! Por conseguinte, prefiro tratar a metáfora como um processo de significação cuja compreensão das expressões linguísticas envolve algum tipo de relação inferencial.

Vamos ver então de onde vem o efeito do riso metafórico que a tirinha do nosso motoqueiro Bugio produz. Para tanto, com base no que diz Ferreira (2009), apresento 4 propriedades básicas encontradas em uma metáfora. Pode ser que existam outras propriedades ou mesmo que o recorte feito seja discutível, mas por ora ficamos com estas:

1) duplicação dos empregos – a metáfora funciona como expressão substituta possível (cair na estrada =  partir para outro lugar ou em viagem conduzindo um veículo por caminho terrestre) de um termo com sentido próprio ou literal (cair na estrada = sofrer uma queda ou tombar em via terrestre, ir ao chão);

2) mudança de sentido – o uso da expressão metafórica (com sentido simbólico, figurado, modificado) evoca um sentido diferente daquele primeiro que o termo apresenta na língua (com sentido próprio ou literal, a primeira entrada lexical no dicionário);

3) hipótese da transferência – a expressão linguística no uso metafórico troca de sentido porque é transferida do contexto habitual (referência ao movimento de queda em sentido literal) para um contexto de uso incomum (referência a uma forma de deslocamento em sentido discursivo);

4) hipótese da similitude ou da analogia – a relação de similaridade na construção de metáforas é uma propriedade preexistente nos referentes selecionados pelo falante, como ocorre no exemplo do Bugio, em que a analogia entre as expressões decorre de suas aproximações dentro do campo semântico que engloba os sentidos de movimentação e deslocamento.

E o efeito de riso metafórico? Este vem da exploração que o autor faz dos sentidos (i) discursivo por meio da voz do personagem Bugio no primeiro quadro da tirinha e (ii) literal através da voz do personagem Tucano na finalização dessa história rápida, assim como das ilustrações associadas a cada um dos sentidos.

Leia mais sobre metáfora: FERREIRA, Alice Maria de Araújo. Questões sobre a metáfora: definições e discussões. Polifonia, n. 18, p. 131-144, 2009.

Interessante para revisores, professores de português brasileiro, escritores, redatores e todos que se envolvem com a produção e leitura de textos.