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Há quem considere pobre a redação que começa com a citação de definições de dicionário, sobretudo se a produção textual tem finalidade acadêmica. Não concordo muito com essa percepção, pois não vejo tanta inconveniência na exploração dos significados das palavras ou de sua etimologia, por exemplo, para apresentar uma discussão que envolve o sentido de termos linguísticos na constituição de certos conceitos que circulam por aí, na vida prática. É aqui que entra a questão do rolezinho que tanto tem “causado” nos últimos dias.

Para não fugir da minha linha de argumentação, eis o que se encontra na versão online do dicionário português Priberam a respeito da palavra rolé (o radical do qual deriva rolezinho): é um substantivo do gênero masculino; provavelmente originário da língua francesa (do verbo rouler que quer dizer rodar); encontra-se ainda com a grafia rolê; todavia, no Brasil o termo é usado em linguagem informal e é definido como “Volta ou passeio para lazer”; compõe expressões como “dar um rolê” e “sair de rolê”, ambas com sentido de dar uma volta ou passear.

Todos os verbos atrelados ao significado de rolé envolvem traços de movimento: rodar, voltear, passear. Indo mais além na análise, podemos considerar que os movimentos envolvidos são os de ir e vir. Vejam que curioso, além de verbos do português brasileiro, IR e VIR são direitos assegurados pela constituição brasileira. Então qual é o problema percebido no rolezinho?? Uma resposta possível encontramos no texto O direito constitucional de dar um rolé, postado no Blog da Cidadania.

E não poderia deixar de compartilhar a melhor definição de rolezinho que encontrei na mídia, através das palavras da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado em entrevista para o site UOL São Paulo:

É a ocupação de um templo do consumo. O objetivo é justamente o consumo. Tudo começou como distração e diversão: se arrumar, sair, se vestir bem. Existe toda uma relação com as marcas e com o consumo, num processo de afirmação social e apropriação de espaços urbanos. Ir ao shopping é se integrar, pertencer à sociedade de consumo.

Na entrevista obtida por Marcelle Souza, a professora da Universidade de Oxford (Inglaterra) afirma que a proibição de rolezinhos nada mais é do que apartheid em pleno século XXI dentro de um país que dizem ser democrático !?! Em 2008 aconteceu situação semelhante após a inauguração de um shopping na zona sul de Curitiba. Na época a barreira foi imposta aos chamados “calçudos”, jovens residentes na periferia e alguns ligados ao movimento hip hop. Como foram convidados a se retirar depois de invadirem o estabelecimento para exercer seu direito de ir e vir (era um prenúncio do atual rolezinho), passaram a se reunir em massa na frente do shopping nos finais de semana. Para defender os limites externos do mais novo templo do consumo curitibano é claro que a polícia foi chamada e aí todo mundo pode imaginar o fim da história.

Interessantes esses movimentos de ocupação do espaço social, urbano… Para quem questiona se há política envolvida digo que sim. Basta tomar por exemplo o sentido figurado da palavra, como forma de conduzir questões particulares para atender a um desejo, neste caso, o compartilhamento de espaços públicos e a visibilidade social, conforme ouvi de um comentarista da rádio Band News.

Rolezinho | s. m. (fr roulé), diminutivo de rolé ou rolê.
1. Diminuta mesmo é a postura do empresariado e de parcela da sociedade que apoia essa forma de segregação racial, social.
2. O pior de tudo é classificar a  juventude como irresponsável, inconsequente e alienada.
 3. Exemplos de uso:
O rolezinho é bom para pensar o Brasil (zerohora.clicrbs.com.br)
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Para entendermos a metalinguagem devemos pensar primeiro como se define a linguagem. Todos nós como falantes de língua portuguesa podemos desenvolver habilidades de expressão verbal através da língua e não verbal por meio de outros modos de expressar uma informação com finalidades diversas.

A soma dos modos de expressão verbal e não verbal constitui a linguagem que, na visão do filósofo Mikhail Bakhtin, é uma atividade social e interacional, justamente porque os falantes que vivem em sociedades usam tais modos de expressão em ações conjuntas com diversos objetivos, dentre eles, a comunicação, a troca de experiências, a busca do conhecimento. Não só a língua, mas também sons, imagens estáticas ou em movimento, elementos gráficos, movimentos corporais, etc. são modos de expressão que realizam atividades sociais, isto é, são modalidades de linguagem.

O linguista Roman Jakobson afirma que o estoque de conhecimento linguístico do falante permite que este fale em sua língua e também fale de/sobre sua língua. Um exemplo prático para entender as maneiras diferentes de usar a língua é imaginar uma pessoa que coloca a cabeça para fora de um veículo em movimento e fica olhando para quem está dentro do carro. Evidentemente é uma atitude arriscada, porém serve para mostrar o que é feito quando se usa a metalinguagem. Isto quer dizer que ocorre um posicionamento externo de quem se expressa para tratar da língua ou de outra modalidade de linguagem. Que outros exemplos de metalinguagem nós temos? O matemático que usa os próprios números para fazer os cálculos; o gramático que usa a própria língua para produziras regras; o falante que usa a própria língua para confirmar se entendeu o que outro falou fazendo a seguinte pergunta: “O que é que você quer dizer?”.

Jakobson também observa que praticamos a metalinguagem desde criança em nossas primeiras experiências de expressão verbal e isto se mantém pela vida toda, tanto que usamos a metalinguagem às vezes sem perceber a inversão de posição para falar da linguagem através dela mesma. Há casos em que a prática da metalinguagem é intencional, mas se tratam de situações específicas cujo objetivo é explorar os significados que o uso metalinguístico pode provocar. Na sequência, teremos contato com outras produções em que a metalinguagem se apresenta.

Materiais sugeridos para desenvolver atividades voltadas ao Ensino Médio:

– vídeo da canção Versos Simples;

– letra da canção Versos Simples;

exercícios.

metalinguagem

Referências bibliográficas

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Trad. de P. Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1979].

JAKOBSON, R. Linguística e comunicação. 22.ed. Tradução de  Izidoro Blikstein; José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 2010.

Veja em Scoop.itPer linguam

De tempos em tempos, os brasileiros incorporam em seu vocabulário termos e expressões técnicas exaustivamente repetidos nos noticiários. Embargos infringentes é a moda da vez

por Felipe Canêdo

Quem nunca ouviu falar de embargos infringentes? Em uma semana, o instrumento jurídico de sonoridade pouco amigável saiu do conspícuo regimento interno do Supremo Tribunal Federal (STF) e das cátedras de escolas de direito para cair no gosto popular, virando piada na internet e se tornando parte de vocabulário corrente nos locais mais inusitados, como padarias e salões de beleza. Antes restrito à mais alta Corte do país, ele é um exemplo de termo técnico que se popularizou rapidamente durante um fato marcante no país – neste caso, o julgamento do mensalão.

Como ele, muitos termos pouco conhecidos foram assimilados pela população de uma hora para outra ao longo dos anos, mesmo que, na maioria das vezes, muita gente não saiba seus reais significados. Os exemplos são vários: impeachment, moratória, medidas heterodoxas, câmbio flutuante, CPMF, PEC 37 e URV. Cada um deles se relaciona a algum episódio da política ou da economia brasileira amplamente discutido pela mídia e foi incorporado pelo povo, quase sempre com irreverência.

Os embargos infringentes, acatados no julgamento do mensalão pelo STF na quarta-feira, permitirão que questões específicas de 12 réus do processo sejam julgadas novamente. De acordo com o regimento da Corte, eles são permitidos para decisões não unânimes do plenário. Na questão que foi decidida pelo ministro Celso de Mello, após o empate de cinco votos a favor e cinco contra no dia 11 e a decisão do decano da Corte na quarta-feira, o termo embargos infringentes praticamente saiu do anonimato e foi alçado ao estrelato. Na internet, foi sugerido como nome de banda punk e de pizzaria, por exemplo.

Se ele será assimilado pela população é uma questão que demandará tempo para ser respondida. Segundo o professor de linguística da Universidade Federal de Minas Gerais Lorenzo Vitral, um fator importante para que isso aconteça é o tempo de exposição na mídia, outro seria o uso que será feito da expressão. “Normalmente, qualquer palavra sofre mudança de significado ao longo do tempo. Se a gente compara o português de hoje e o de 1900, vê que os significados das palavras mudaram. É normal que mudem”, ele diz.

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