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Nesta charge, o personagem infantil questiona quanto ao uso referencial dos nomes “CARTEL”, “GANG”, “TUCANO”, “QUADRILHA”, “PRIVATARIA” e a relação léxico-semântica de cossignificação entre os nomes. Ou seja, a fonte do humor vem da tentativa de atribuir uma significação compartilhada para itens linguísticos que, a princípio, categorizam (ou introduzem no texto ) objetos de discurso/referentes textuais com diferentes traços semânticos. A fala do “VOVÔ” autoriza essa leitura e aí reside todo o sentido da piada que também envolve relações metalinguísticas, pois a compreensão requer:

(i) o reconhecimento inicial de que o texto multimodal (produzido com a combinação de linguagens verbal e não verbal) representa uma interação entre sujeitos que expressam hipóteses sobre o uso da língua;

(ii) a recuperação de um conhecimento enciclopédico e possivelmente compartilhado entre os personagens da charge (e leitores), da definição de sinônimo, da interseção entre significados que há na relação de sinonímia;

(iii) o deslocamento de sentidos dos elementos linguísticos do texto para o campo metafórico, pois não se trata de mera conversação sobre o uso de certas palavras da língua, porque assim temos apenas uma leitura entre os níveis superficial e médio;

(iv) a análise da referência a “TUCANO” – termo designador do símbolo do partido PSDB e dos seus filiados – como remissiva a uma temática focada em avaliação depreciativa do cenário político do país (considerando os traços semânticos negativos que se pode atribuir aos outros termos entre aspas na pergunta), e assim atingimos uma possível leitura profunda do sentido crítico que a charge carrega.

Quanto aos elementos não verbais, uma coisa interessante de notar é a caracterização dos personagens e os significados que revelam. Temos de um lado um menino provavelmente na faixa dos 6 a 8 anos, usando vestimentas informais e coloridas indicadas para estação quente, inclusive come um picolé sentado de modo descontraído no chão. Todos esses ícones apontam para a leitura de um perfil relacionado à juventude, através do personagem infantil demonstra-se a voz, o olhar simplificador e o posicionamento generalizante da juventude, neste caso, em relação à política nacional. De outro lado, está caracterizado um homem idoso, que ao contrário do menino não sente a mesma sensação térmica por estar vestindo uma roupa que cobre todo seu corpo, além disso o personagem idoso usa óculos, quer dizer que tem problemas de visão, e está sentado confortavelmente numa cadeira de balanço em movimentação.

O que se depreende do conjunto icônico descrito? É possível afirmar que a charge veicula uma crítica social a fim de expor a mudança social na maneira de compreender o cenário político entre diferentes gerações e os ícones mais representativos do contraste são a referência ao problema de visão do idoso e a representação das posições espaciais dos dois personagens. Também o recurso gráfico de colocar algumas palavras entre aspas sinaliza que a significação lançada no texto não é de natureza literal. Para captar o efeito de humor que acompanha a crítica, é preciso reconhecer essa quebra semântica no funcionamento discursivo dos termos destacados através da relação complementar entre significados associados aos itens verbais e não verbais.

Ao consultar a ficha catalográfica de tradução de um livro de Charles Dickens, percebi que o tradutor optou pela palavra “esperanças” no lugar de “expectativas”. Refiro-me à obra Great Expectations, cuja tradução do título para o português brasileiro foi Grandes Esperanças. Eis uma questão de sinonímia e tradução,  geradora de discussões do tipo até que ponto uma palavra dá conta do sentido evocado por outra, qual a proporção de alcance do mesmo campo semântico, repito do mesmo!?!?

Difícil saber, uma vez que a equivalência perfeita de significado não é uma propriedade inerente às relações de sinonímia, ou seja, sempre vai escapar ou faltar um traço semântico na operação de troca entre termos sinônimos. Na edição 81 da Revista Língua Portuguesa, o linguista José Luiz Fiorin coloca que: “Estender o enunciado usando muitos sinônimos ajuda a dar ênfase ao sentido, mas realça a inexistência de sentidos equivalentes perfeitos entre as palavras.” Fazer isto dentro de um texto sem critérios é correr o risco de mudar alguma coisa na sua progressão, porque a construção de sentidos depende muito da significação dos itens linguísticos que são selecionados pelo produtor.

As duas palavras compartilham o significado de espera, fora isto as definições lexicais apresentam variações, porém não vou demonstrá-las aqui, vou deixar a verificação a cargo de cada leitor. Embora esse aspecto da tradução tenha surtido em mim a reflexão que expus, a coisa que mais me atraiu na obra inglesa foi o singelo começo do capítulo 1:

“O sobrenome da família do meu pai era Pirrip, e o meu nome de batismo, Philip, mas o máximo que minha língua infantil conseguia articular era Pip. Assim, passei a chamar-me Pip, e passaram a chamar-me Pip”. (…)

O formato das letras no túmulo de meu pai dava-me uma ideia estranha de que fora ele um homem honesto, robusto, moreno, de cabelos negros encaracolados. Dos caracteres  e do estilo da inscrição lapidar “E Também Georgiana, Esposa do Acima Referido”, tirei a conclusão infantil de que minha mãe era sardenta e enfermiça. (p. 9)

A referência do escritor ao período de aquisição da língua materna do protagonista, tão bem colocada no texto de ficção para marcar o início do percurso narrativo de Pip, foi o motivo determinante para minha decisão de levar o livro comigo.

Imaginem a situação, eu estava numa livraria e de repente um livro em especial prendeu minha atenção por sua encadernação em estilo antigo, capa em tecido roxo com desenhos de folhas,  marcador de páginas em fita de cetim, folhas em papel bem fino. Quase comprei só por causa da capa, admito, e é até ridículo dizer isso a respeito de um clássico da literatura, um clássico até agora fora de meu campo de interesse.  Entretanto tudo mudou depois que abri aquela capa roxa e li o começo da história, foi apaixonante!! A escolha do livro assumiu outro sentido, bem significativo para mim neste exato momento em que me preparo para desenvolver uma pesquisa na área de aquisição da linguagem. Assim, as pontas desconexas de minha aventura pela livraria se encontraram.

O livro roxo de Pip

O livro roxo de Pip

Por fim, o trailler de uma versão cinematográfica da obra literária, infelizmente sem a singeleza do início do texto de ficção.

Referências:
DICKENS, Charles. Grandes esperanças. Trad. José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. São Paulo: Abril, 2010. 672p.
FIORIN, José Luiz. A clonagem de sinônimos. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, n. 81, 2012.