Posts com Tag ‘variação linguística’

Sempre o mito da corrupção da língua.

Nem uma coisa nem outra.

Vale lembrar que não é bem assim como se ouve falar…

Não adianta, por exemplo, depreciar as práticas de linguagem por meio de variedades de textos com diferentes propósitos comunicativos que são escritos na internet, em mídias sociais como o Facebook e em toda infinidade de TICs mediante as justificativas de:

– destruição da língua materna só por causa da grafia de abreviaturas diferentes, pontuação abundante, acentuação e letras maiúsculas de modo deficiente;

– interferência negativa no aprendizado da língua escrita ilusoriamente tida como a certa;

– modificação “total” do português em uso por aqui, que muito antes do surgimento das TICs nem se parecia mais com aquele usado em Portugal;

– desconhecimento das regras gramaticais, mas de qual gramática? tradicional? descritiva? de usos? da língua falada?

– e por aí vai…

Pensar assim denota um posicionamento purista em relação à língua ou mesmo de negação/desconhecimento do fenômeno da variação linguística tão presente em nossa vida diária, nos falares e escritos que nos rodeiam, além de um olhar desequilibrado sobre a  prática de ensino de produção textual devido à fixação nas formas linguísticas em maior escala do que na construção dos sentidos textuais. Por fim, o pior de tudo é perceber que em muitos casos atribui-se “o fracasso metodológico do ensino de notação ortográfica para um fator externo à prática pedagógica que por si só não pode ser responsabilizado” (XAVIER, 2005, p. 13).

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Se for rir de um uso da língua, que seja diante de uma piada como esta:

As gramáticas só vieram depois de nossa fala.

A gramática tradicional é só uma das teorias de estudo da língua.

O preconceito linguístico é sorrateiro, há quem manifeste e nem imagina o quanto limita a habilidade comunicativa do outro. E ainda quer falar de vício de linguagem e erro gramatical, sem perceber que:

– antes de qualquer gramática (daquelas tradicionais, escolares) vem sempre a língua falada;

– os modos de falar são diferentes sim, porque as pessoas vivem em regiões geográficas distintas, convivem em grupos de níveis socioeconômicos diversos;

– o tanto que cada um estudou e teve contato com a língua culta varia de pessoa para pessoa;

– ninguém consegue ou precisa falar a língua padrão em 100% do tempo de suas interações;

– quem fala “ocê”, “pobrema”, “né”,  “a gente fumo”, etc não é burro;

– as pessoas são diferentes, os ambientes são diferentes, as necessidades comunicativas são diferentes, logo, o uso eficiente da língua falada e escrita depende muito mais da habilidade de identificar o nível adequado de expressão linguística do que de mera correção gramatical, e quem ri ou reprova um “erro linguístico” é por não ter consciência de nada disto.

Por fim, as regras gramaticais que ensinam nas escolas são ensinadas numa tentativa de manter um padrão de escrita comum em nosso país.