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O professor Ataliba de Castilho respondeu à essa questão na aula inaugural em 10/08/2013 do evento  Letras Debate: Linguagem e Ensino, promovido pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pelo que se depreende dos dados apresentados por Castilho, uma questão inovadora e relevante para o ensino atual é o aumento da marcação prefixal no português brasileiro. Vejamos uma nuvem de palavras chave com alguns usos do PB nessas condições:

A marcação prefixal do PB no começo do século XXI conforme descrição de Ataliba de Castilho

Marcação prefixal do PB no começo do séc. XXI conforme descreve Ataliba de Castilho

Com relação ao sistema pronominal, são reconhecidas alterações nas formas de todas as pessoas na variedade informal do PB. Para ilustrar, reproduzo um quadro comparativo  entre o PB formal e informal (Quadro 1), originalmente publicado na Nova Gramática do Português Brasileiro da autoria do professor da USP.

Alterações no sistema de pronomes pessoais

Alterações no sistema de pronomes pessoais

Embora muitos possam se recusar a admitir a aceitabilidade de tais construções devido à postura purista que assumem em relação à língua, acrescento que não é difícil encontrar esses usos informais na língua falada por aí afora. Assim considero porque eu mesma uso a maioria desses pronomes da variedade informal e interajo com outros falantes que os empregam.  Provavelmente devem ocorrer na escrita de gêneros informais como SMS, chats, comentários em redes sociais. Esta seria uma questão interessante de investigar: será que também encontramos esses usos na língua escrita? de quais gêneros textuais? por força de algum fator específico?

Voltando à questão do aumento da marcação prefixal, compartilho outro quadro em que se demonstram diferentes casos de marcação de pessoas do verbo em PB:

prefixos em PBOs exemplos do quadro anterior indicam a transformação de pronomes pessoais do caso reto em morfemas verbais número-pessoais no PB informal, ou seja, pronome e verbo fundem-se em forma única que incorpora os traços indicativos das flexões de número e pessoa do verbo.  Há outros tipos de marcações prefixais que produzem transformações morfológicas (na forma das palavras), dentre as quais, Castilho destaca:

1)  ozóme, essas coisarada bonito (Amaral 1977: 48) = plural nominal ou de substantivos

2) vofalá = tempo futuro

3) popará, quepará? = modo verbal

4) tafalano  = aspecto[1] imperfectivo

5) tafalado = aspecto perfectivo

6) Disque vai chover = modalização sentencial asseverativa (gramaticalização[2] de verbos afirmativos)

7) Áxki vai chover = modalização sentencial dubitativa (gramaticalização de verbos evidenciais)


[1] Definição de Castilho (1968: 14): “visão objetiva da relação entre o processo e o estado expressos pelo verbo e a ideia de duração ou desenvolvimento”.
[2]  Mudança de características sintáticas, semânticas ou discursivo-pragmáticas de elementos da língua, segundo Weinreich, Labov e Herzog em “Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística” (1968).

A montanha de notícias veiculadas pela mídia a respeito dos manifestos que ocorreram em diversas capitais brasileiras em 17/06/2013 pode render uma bela aula de interpretação de textos.

Para auxiliar nesta tarefa convoco o professor Luiz Antonio Marcuschi, porque ele escreveu sobre verbos introdutores de opinião e observou o seu  funcionamento especificamente “no noticiário político dos jornais diários” (MARCUSCHI, 2007. p. 146). A tentativa é  responder de forma breve a duas questões colocadas pelo autor:

1) “será possível informar opiniões sem manipulá-las?”

2) “qual a estratégia usada pelos jornais na informação de opiniões?”

A notícia selecionada foi publicada pelo site do jornal Zero Hora, de Porto Alegre/RS, em 18/06/13, na seção Geral e diz respeito a pronunciamento do governador do estado (Tarso Genro) acerca dos protestos ocorridos na noite de segunda-feira (17/06) na capital gaúcha.  A manchete e o respectivo lide são os seguintes:

Tarso: “A orientação era reagir para defender a integridade física das pessoas”

Governador defendeu a atuação da Brigada Militar nos protestos da noite desta segunda-feira

tarso

Os dois pontos e a inserção aspeada em produções textuais exemplificam dois recursos linguísticos empregados com a finalidade de relatar opiniões, os quais entram sobretudo na composição de manchetes como a que fora apresentada acima. A opção do produtor da notícia demonstra uma estratégia para jogar a responsabilidade pela informação ao seu próprio emissor (Tarso).

Quanto aos verbos, destaco a seleção de “reagir” e “defender”, os quais indicam, pela classificação de Marcuschi, retomadas opositivas e organizam aspectos conflituosos. Logo, na opinião expressa com as palavras exatas do governador, os protestos noticiados são tomados predominantemente como situação de conflito, mesmo que parcela mínima de manifestantes seja responsabilizada por isto: “Uma pequena parte dos manifestantes queria a depredação” (fala reproduzida de Tarso Genro), “uma minoria depredou uma concessionária de motos” (descrição do jornalista).

Já no lide, com o uso do verbo “defendeu” o produtor resume a notícia atribuindo ao governador o papel de defensor das ações tomadas pela polícia, as quais foram orientadas por quem?? A partir do momento em que há necessidade de defender uma posição ou ação é porque esta provavelmente gera controvérsia. E a justificativa da defesa pode ser esta observação nada inocente do jornal: “A Tropa de Choque da Brigada Militar reagiu com bombas de efeito moral para [dispersar] os manifestantes e houve confronto.”

Por fim, encerro a análise destacando o quanto pode ser transformador para o aluno ter a oportunidade de desenvolver e aprimorar a habilidade de leitura crítica, coisa que a Linguística Textual oferece com bastante propriedade, e lembrando ainda que:

é muito difícil informar sem manipular, por melhores que sejam as intenções. Portanto, as estratégias jornalísticas para relatar opiniões não são uma mera questão de estilo, pois as palavras são instrumentos de ação e não apenas de comunicação (MARCUSCHI, 2007, p. 168).

Leia mais em: MARCUSCHI, Luiz Antônio. A ação dos verbos introdutores de opinião. In: ______. Fenômenos da linguagem: reflexões semânticas e discursivas. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. p. 146-168.